quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Robin Hood - o descendente


Por volta dos anos 1950, nasceu no Brasil, em cidade e Estado não revelados, um garoto de suposta descendência inglesa.

O garoto, órfão, fora adotado por uma família classe média alta que promovia negócios questionáveis.

Ao adotarem o menino foram alertados de que ele tinha hábitos questionáveis e não se adaptara a nenhum nome que lhe fora dado. A família não viu problemas nisso e resolveu o chamar carinhosamente de, Joãozinho.

Certo dia o menino surpreendeu a família ao brincar com o arco e flecha de seu pai adotivo.

O tio, um senhor de cerca de 70 anos, disse:

- Teu apelido deveria ser Robin Hood.

O pai adotivo, disse:

- Não. Apelidado, não. O nome. Vamos registrá-lo com o nome de, Robin Hood.

O garoto pela primeira vez gostou do nome que lhe fora dado mesmo não sabendo sua origem.

Entre seus maus hábitos estavam o de levar para casa, chocolates, carnes de primeira e uísque.

Claro que ele jamais pagara por isso. Uma mistura de educação e sutiliza o fazia passar pelas portas dos mercados com total confiança e serenidade.

Para classe média alta ou quase rica já naquela época, ladrão era o filho dos menos favorecidos, também conhecidos como pobres. Mas uma onda de eufemismo preferia tratar tais pessoas, inclusive seus empregados como – os menos favorecidos e os filhos dos ricos que praticavam tais atos como – desvio de conduta ou até mesmo como cleptomaníaco.

O garoto cresceu, estudou só o que queria, “passou” em concursos e ficou ainda mais hábil no uso do arco e da flecha.

Tudo o que conhecia sobre o mítico personagem, Robin Hood, eram as histórias contadas por seu pai, que jamais usara um livro. O pai tinha uma versão muito particular do mítico personagem.

Robbin Hood percebeu com as histórias contadas por seu pai que o arco e a flecha podiam abrir sua mente para alcançar coisas maiores. Afinal de contas o uso do arco e da flecha já não era tão prático nos anos 70.

E assim prosseguiu. Robbin Hood evoluiu mais nas estratégias, nas influências e nos cargos que ocupou do que numa linha lógica do seu suposto ancestral, fosse ele um herói mítico ou parente distante.

Robin Hood falava aos amigos sobre suas ideias e os beneficiários as ouviam com prazer.
Sua visão aguçada o fazia ver grandes oportunidades. A infalível mira não permitia erros. As ferramentas, antes o arco e a flecha, agora eram sua posição e influência. Isso rendia mais poderes, mais possibilidades, mais vantagens, inclusive, de não ser preso.

Robin se tornava a cada dia melhor conselheiro. Entre suas brilhantes ideias estavam, impostos e empresas. Empresas poderiam gerar lucros e mais lucros. Os benefícios para uma classe especial era certeiro.

A lei Rouanet não precisava favorecer exatamente qualquer cidadão ligado à cultura, antes, a alguns específicos e escolhidos a dedo. Isso é vantagem.

Investir muito mais dinheiro em gastos com presos e uma ninharia em colégios públicos.
A população carcerária oferece perigo, mas alunos que desenvolvem conhecimentos e se tornam críticos inteligentes podem ser ainda mais perigosos.

Por que aposentar alguém que trabalhou duro a vida toda e com baixo salário ainda antes dos 65 anos?  Os velhos poderiam ter a alegria de continuar produzindo enquanto aguentassem ficar de pé. 

Trabalhar até perto de bater as botas poderia ser bom para os pobres - Era uma de suas filosofias.

As oportunidades estavam em tudo que os olhos pudessem enxergar, e a conta bancaria sentir. Havia mil possibilidades. Creches, asilos, bancos, cargos políticos e públicos, empreiteiras, mídia, enfim, onde passasse poder de influência ou dinheiro Robbin Hood estava lá.

Se houve de fato um Robin Hood no século Xlll na Inglaterra ou em Portugal, mesmo que mítico, se agitaria no túmulo.

Em cerca de 5 décadas de atuação acumulou riquezas  e rendeu fortunas a seus nem sempre fiéis associados. Mas no mundo dos bandidos é assim, as vantagens estão acima da amizade.

Em certa ocasião foi chamado para dar conselhos aos comparsas. Vários corriam o risco de ser presos. Como se esquivar de maneira fácil, de preferência sem prejudicar, não as amizades que não eram verdadeiras, antes, proteger os negócios lá na frente?

Robbin Hood com sua visão aguçada deu a ideia de se unirem. Por exemplo, propor uma espécie de “moeda de troca”, um acordo. Os ânimos se afloraram e Hood explicou:

- Calma. Prestem atenção. Talvez vocês desembolsem dinheiro com advogados, mas isso vocês têm. 

Digo, proponham algo que fique bom para todos. Vou explicar melhor. Deobaldo, quando fores preso, proponhas entregar o Julibio em troca amenizar sua pena e proteger o dinheiro que ganhamos com tanto trabalho.

Julibio se levantou indignado. Robbin voltou à explicação.

- Calma, Julibio, quando forem te interrogar tu propões entregar o Anselmo e assim sucessivamente. Assim, de maneira legal, todos saem perdendo pouco.

Os amigos aplaudiram, o chamaram de gênio. Ter penas abreviadas e não ter que devolver o dinheiro era extraordinário. Robbin tinha lá certa medida de modéstia e disse que já havia lido sobre um projeto assim e deu certo, por que não aqui?

Robbin esclareceu que isso se chamava - delação premiada. Algo legal.

Robbin acreditava ser um herói, não que não fosse, mas se tivesse existido e vivido por volta do século Xlll, saberia de quem seria um herói, embora ainda ladrão.

Setecentos anos atrás, crianças pobres, idosos abandonados a própria sorte, chefes de família que choravam ao chegar em casa e ver esposa e filhos sem ter o que comer, mães entregues a tristeza por dar a luz um sofredor; ficariam contentes ao saber que Robbin Hood estava por aquelas bandas.

Já os ricos iriam querer o pescoço do homem que tirava de suas excessivas fortunas para dar a um bando de pobres famintos, só porque eram menos favorecidos.

Certo dia, lá pela casa dos seus 60 anos, Robbin pela primeira vez parou para assistir a um filme de seu ancestral. Ele manteve os olhos e ouvidos bem abertos todo o tempo.

No final do filme estava pasmo. Havia algo de errado. Uma enorme dúvida pairava no ar.
Como podia ser tudo tão diferente. Tão ao contrario de suas crenças e ações bem sucedidas de toda uma vida.

Robbin marcou uma entrevista com um de seus advogados. Tinha que tomar uma decisão, precisava fazer algo a respeito. Conversou por horas com seus advogados, passou a noite em claro. No dia seguinte, já tinha uma decisão. Sua visão aguçada, sua pontaria certeira lhe indicavam o que fazer dessa vez.

Na presença de companheiros, associados e advogados, declarou que iriam processar os roteiristas e diretores de todos os filmes do seu ancestral produzidos até então.

E declarou que faria de tudo para que a nova geração conhecesse a verdadeira história do Robbin Hood, pelo menos por aqui. E ainda entraria o dinheiro se vencessem a ação judicial.

Alguns de seus associados cochicharam: “Será que ele não sabia a real história do personagem que leva seu nome?” Alguém respondeu no mesmo volume: “O Robbin sempre foi o mais inteligente da equipe, mas cá entre nós, nunca foi nenhum intelectual e nunca deu bola para uma boa cultura”. 

Ainda outro sussurrou: “Melhor assim, precisamos dele. Nunca teríamos chegado ao ponto em que chegamos se fosse ao contrário”.

Robin saiu animado daquela reunião e pensando em qual dos seus luxuosos imóveis iria passar o final de semana. Queria brindar com ele mesmo aquela brilhante ideia: Processar os roteiristas e diretores dos filmes do seu grande ancestral. Mas uma ideia lhe veio à mente e Robin imediatamente ligou para um dos associados:

- Deobaldo, lembre-se do seguinte. Abram o processo contra os roteiristas. Mas se eles propuserem alguma moeda de troca, tipo uma delação premiada ou coisa assim; vamos analisar.

E o país dos ricos continuava a prosperar com um Robin Hood bem diferente. Quem tem muito terá mais. Quem tem pouco sempre terá algo a compartilhar.

Talvez séculos à frente alguém pense que esse Robin Hood fora apenas uma lenda. Mas suas ações, ideias e as consequências levariam o mais simples dos pais, o mais rico dos homens e a mais pobre das mães a consultar os livros originais antes de contar a história a seu filho.

Afinal de contas, haveria Robin Hood para todos os bolsos!


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Elogie, critique, mas, por favor, diga alguma coisa


O silêncio pode ser uma linda canção quando estamos esgotados pelo estresse e ansiedades do dia a dia. Aquele momento em que todo o som parece uma bomba. Cada ruído parece à presença de um psicopata querendo nosso sangue.

Nesses momentos o som do silêncio parece à música que nos leva ao paraíso.

Mas há situações em que o silêncio pode ser exatamente o contrário da primeira descrição.

No casamento, por exemplo, o silêncio pode ser aterrador, destrutivo como uma bomba.

Nas conversas do dia a dia, os bate papos no churrasco entre amigos e familiares, com colegas de trabalho e escola e até nas filas e transporte coletivo; tanto o silêncio como as palavras podem ser similares a um psicopata ou uma bomba, dependendo do que dissermos e do que não falarmos.

Provavelmente gostamos mais de falar do que de ouvir, o que é compreensível. Falar é tão simples e fácil. Já o – ouvir – é uma arte.

Costumamos criticar ou elogiar, geralmente criticar, aquilo ou aquele que nos desagrada.

Os que trabalham diretamente com a comunicação sabem que uma crítica pode vir à velocidade da luz enquanto um elogio se fosse esperado se aguardaria sentado.

Mas o que elogiar? O que criticar?

Só elogiamos ou criticamos algo que apreciamos ou temos opinião contrária. Aí entra a grande questão. Vivemos em uma época onde ainda há pessoas que dizem: “Política, futebol e religião não se discute”. Discutir o que então? Novelas? Programas de televisão? As escolhas do filho ou filha da vizinha? O clima? E por que não discutir esses temas? É que para muitos esses podem ser os mais próximos.

O filósofo brasileiro, Renato Janine, diz em seu livro – O afeto autoritário: televisão, ética e democracia; que a televisão no Brasil fornece a pauta para as conversas. Basta ouvir o que as pessoas estão conversando numa segunda-feira, para saber o que foi falado nos principais programas de TV nos domingos. Quem não assistiu TV no final de semana provavelmente não tenha assunto.

E o que de proveito nos passam os programas de domingo?

Nosso jornalismo de maneira geral é feito as pressas. E não é culpa dos competentes colegas jornalistas. As notícias precisam ser rápidas. Não há tempo hábil para melhor e mais apurada investigação. É como se tudo tivesse a mesma importância e ocorresse no mesmo dia e local.

Não basta assistir, ouvir ou ler notícias; precisamos ser seletivos. Precisamos dar valor à boa leitura, a boas pesquisas, a ouvir pessoas que entendem do tema em questão. Não podemos querer ser “doutores de tudo do que nada entendem”.

Como elogiar, questionar e criticar algo sobre o qual quase nada sabemos?

Há crianças que expulsam da boca uma chupeta e adultos que aceitam quase tudo de “goela abaixo”, até em assuntos religiosos.

E os elogios? Mark Twain disse certa vez: “Posso viver dois meses com apenas um bom elogio”.

Há poucos dias alguém mandou para uma emissora de rádio um comentário sobre um motorista de ônibus. O ouvinte disse que havia observado o motorista na Grande Florianópolis aguardar até que uma passageira sentasse e ajeitasse a criança que estava com ela para dar partida no coletivo. O elogio da observação do ouvinte rendeu elogios dos comunicadores da emissora de rádio.

Se a decisão for criticar não se acanhe, mas pense: O que sei sobre o assunto? Quantas vezes já estudei o tema? Com quantos peritos na área já discuti isso? É o momento? Pretendo discutir a fim de mostrar um ponto de vista diferente e interessante ou só quero falar mal (xingar) a pessoa ou o tema?

A verdade é que nem elogiar e nem criticar é algo tão simples. Porém, ambos são necessários a nossa construção intelectual, emocional e profissional.

Particularmente tenho notado e publiquei isso faz alguns dias: “Dar e receber elogios é muito importante, mas uma crítica construtiva pode nos aperfeiçoar mais do que dez elogios”.

Os dois lados da moeda: Ora seremos elogiados, ora criticados. Numa ocasião vamos elogiar e em outra criticar.

Quem acredita em tudo só porque assistiu ou ouviu em rede nacional ou de alguém famoso pode estar fadado ao bloqueio mental.

Podemos evitar aplaudir qualquer bobagem só porque outros ou a maioria aplaudiu.

Uma mente aberta e imparcial nos leva a elogiar ou a criticar, mas pelo menos não ficaremos “mudos, surdos e cegos”, mental e fisicamente quando se espera a nossa opinião.

Então, após uma boa avaliação de um assunto, elogie ou critique, mas diga alguma coisa que faça a diferença!