segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Elogie, critique, mas, por favor, diga alguma coisa


O silêncio pode ser uma linda canção quando estamos esgotados pelo estresse e ansiedades do dia a dia. Aquele momento em que todo o som parece uma bomba. Cada ruído parece à presença de um psicopata querendo nosso sangue.

Nesses momentos o som do silêncio parece à música que nos leva ao paraíso.

Mas há situações em que o silêncio pode ser exatamente o contrário da primeira descrição.

No casamento, por exemplo, o silêncio pode ser aterrador, destrutivo como uma bomba.

Nas conversas do dia a dia, os bate papos no churrasco entre amigos e familiares, com colegas de trabalho e escola e até nas filas e transporte coletivo; tanto o silêncio como as palavras podem ser similares a um psicopata ou uma bomba, dependendo do que dissermos e do que não falarmos.

Provavelmente gostamos mais de falar do que de ouvir, o que é compreensível. Falar é tão simples e fácil. Já o – ouvir – é uma arte.

Costumamos criticar ou elogiar, geralmente criticar, aquilo ou aquele que nos desagrada.

Os que trabalham diretamente com a comunicação sabem que uma crítica pode vir à velocidade da luz enquanto um elogio se fosse esperado se aguardaria sentado.

Mas o que elogiar? O que criticar?

Só elogiamos ou criticamos algo que apreciamos ou temos opinião contrária. Aí entra a grande questão. Vivemos em uma época onde ainda há pessoas que dizem: “Política, futebol e religião não se discute”. Discutir o que então? Novelas? Programas de televisão? As escolhas do filho ou filha da vizinha? O clima? E por que não discutir esses temas? É que para muitos esses podem ser os mais próximos.

O filósofo brasileiro, Renato Janine, diz em seu livro – O afeto autoritário: televisão, ética e democracia; que a televisão no Brasil fornece a pauta para as conversas. Basta ouvir o que as pessoas estão conversando numa segunda-feira, para saber o que foi falado nos principais programas de TV nos domingos. Quem não assistiu TV no final de semana provavelmente não tenha assunto.

E o que de proveito nos passam os programas de domingo?

Nosso jornalismo de maneira geral é feito as pressas. E não é culpa dos competentes colegas jornalistas. As notícias precisam ser rápidas. Não há tempo hábil para melhor e mais apurada investigação. É como se tudo tivesse a mesma importância e ocorresse no mesmo dia e local.

Não basta assistir, ouvir ou ler notícias; precisamos ser seletivos. Precisamos dar valor à boa leitura, a boas pesquisas, a ouvir pessoas que entendem do tema em questão. Não podemos querer ser “doutores de tudo do que nada entendem”.

Como elogiar, questionar e criticar algo sobre o qual quase nada sabemos?

Há crianças que expulsam da boca uma chupeta e adultos que aceitam quase tudo de “goela abaixo”, até em assuntos religiosos.

E os elogios? Mark Twain disse certa vez: “Posso viver dois meses com apenas um bom elogio”.

Há poucos dias alguém mandou para uma emissora de rádio um comentário sobre um motorista de ônibus. O ouvinte disse que havia observado o motorista na Grande Florianópolis aguardar até que uma passageira sentasse e ajeitasse a criança que estava com ela para dar partida no coletivo. O elogio da observação do ouvinte rendeu elogios dos comunicadores da emissora de rádio.

Se a decisão for criticar não se acanhe, mas pense: O que sei sobre o assunto? Quantas vezes já estudei o tema? Com quantos peritos na área já discuti isso? É o momento? Pretendo discutir a fim de mostrar um ponto de vista diferente e interessante ou só quero falar mal (xingar) a pessoa ou o tema?

A verdade é que nem elogiar e nem criticar é algo tão simples. Porém, ambos são necessários a nossa construção intelectual, emocional e profissional.

Particularmente tenho notado e publiquei isso faz alguns dias: “Dar e receber elogios é muito importante, mas uma crítica construtiva pode nos aperfeiçoar mais do que dez elogios”.

Os dois lados da moeda: Ora seremos elogiados, ora criticados. Numa ocasião vamos elogiar e em outra criticar.

Quem acredita em tudo só porque assistiu ou ouviu em rede nacional ou de alguém famoso pode estar fadado ao bloqueio mental.

Podemos evitar aplaudir qualquer bobagem só porque outros ou a maioria aplaudiu.

Uma mente aberta e imparcial nos leva a elogiar ou a criticar, mas pelo menos não ficaremos “mudos, surdos e cegos”, mental e fisicamente quando se espera a nossa opinião.

Então, após uma boa avaliação de um assunto, elogie ou critique, mas diga alguma coisa que faça a diferença!


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Notícia ao Paulo


Dona Eugênia estava muito doente. Paulo, um de seus quatro filhos que trabalhava numa empresa de manutenção de elevadores andava muito deprimido. Aos 50 anos o alemão forte e durão não escondia o carinho e a preocupação com a mãe internada havia três semanas.

No final da tarde de uma terça-feira, Antônio, irmão do Paulo ligou do hospital para dar notícias sobre dona Eugênia.

Seu Victor, um dos donos da empresa atendeu ao telefone e ouviu a notícia. Com receio de contar a Paulo aproveitou que seu filho Otávio acabara de chegar e disse:

- Otávio, me faça um favor. Tenho um compromisso, um cliente para visitar, então não se esqueça de dar um importante recado ao Paulo assim que ele chegar.

Otávio, curioso, perguntou qual o recado e seu Victor respondeu enquanto saia:

- Ah, claro. Avise ao Paulo que a mãe dele morreu. Acabaram de ligar do hospital.

O pai de Otávio saiu rápido como se fosse o super homem. Otávio sentiu que havia uma bomba em sua mão, ou em sua boca. Como dar a notícia a Paulo. Primeiro nunca havia dado esse tipo de recado a ninguém. E ainda por cima, estava acompanhando a tristeza e o otimismo de Paulo quanto à recuperação de sua mãe.

Otávio tentou ensaiar como daria a notícia. Pensou em várias maneiras. Ou daria a notícia de forma direta, sem rodeios, ou se o prepararia. De repente, Paulo entra no escritório cantarolando. Otávio se aproxima e diz:

- Oi Paulo. Eu preciso te dar uma notícia – Paulo dispara seu comentário:

- Já sei. O elevador do edifício João Moraes pifou outra vez. Já imaginava.

- Não Paulo. Na verdade é outra coisa.

- Ah, teu pai não se lembrou de deixar o vale. Poxa eu ia precisar. Fiquei de levar umas coisinhas pra minha mãe – Otávio se enche de coragem e diz:

- Não Paulo. Não é isso. É que... É que tua mãe morreu. Ligaram do hospital agora pouco.

Paulo caiu em profundo choro. Otávio não resistiu e chorou muito ao lado de Paulo.

Otávio oferece ajuda, carona, qualquer coisa que possa fazer. Paulo sai chorando.

Quando chega aos prantos ao hospital encontra suas duas irmãs e seu irmão. Paulo chora copiosamente. Os três irmãos não entendem o desespero de Paulo e tentam o acalmar.

Seu irmão, Antônio, coloca a mão no ombro de Paulo e diz:

- Calma meu irmão. Vai ficar tudo bem. Ela está descansando agora.

Suas irmãs dizem:

- Seja forte Paulo. Quer ir vê-la? Mas não faça barulho.

Paulo entra no quarto sem entender o porquê não fazer barulho diante o corpo da mãe.

Ele chora alto e suspira. Seus três irmãos entram no quarto e dizem para Paulo se acalmar. Lembram a Paulo que a mãe precisa descansar...

- Me deixem chorar, mostrar a dor que estou sentindo – argumenta Paulo e completa:

- Minha vida toda tentei ser forte, durão, mas agora, agora não posso aguentar.

Ele sai do quarto e dona Eugênia pergunta com sua voz enfraquecida pela doença o que está acontecendo. Os filhos explicam que Paulo está desesperado. Dizem à mãe que não era para ele estar assim, pois fazia poucas horas que tinham ligado para empresa onde Paulo trabalhava e deram a notícia que a mãe havia passado para um quarto melhor. Que estava num lugar melhor e finalmente havia descansado. Dona Eugênia pede para Paulo voltar ao quarto.

Antônio se aproxima de Paulo e diz que ele deve entrar outra vez. Paulo entra com os olhos cheios de lágrimas, mas dessa vez mais forte.

Ele fecha os olhos, segura na mão direita de sua mãe e diz:

- Mãe, há tantas coisas que eu queria ter dito, mas eu nunca tive coragem. Eu a amo muito.

Quando Paulo abre os olhos dona Eugênia está olhando para ele. Paulo passa a mão sobre seus olhos para fechá-los. Ela os abre outra vez e diz:

- O que está havendo meu filho?

Paulo quase tem um infarto. A mãe morta havia ressuscitado ou ele estava tendo uma alucinação?

Ela diz com sua voz fraca:

- Filho, não fique assim. Você tem que se preparar. Estou morrendo, tenho pouco tempo, seja forte.

Paulo ainda confuso conversa com a mãe por uns 30 minutos. Ele sai do quarto e percebe que houve um sério erro na notícia sobre a morte de sua mãe, mas não conta nada a seus irmãos que ficam sem entender o desespero de Paulo.

No dia seguinte, quarta-feira, logo cedo, Otávio chega à empresa e pergunta a seu Valério, sócio do seu pai:

- Bom dia, seu Valério. E então, como está o Paulo? Onde será o enterro?

Seu Valério levanta-se assustado e pergunta:

- O que tem o Paulo e que enterro? Você está louco?

Seu Valério explica que Paulo saiu cedo para consertar o elevador do edifício João Moraes. Não havia ocorrido nada com a mãe de Paulo.

Ao longo do dia se esclarece o mal entendido. Ao telefone os irmãos de Paulo disseram ao seu Victor para avisar ao Paulo que sua mãe estava muito desconfortável num quarto ruim, e agora estava num lugar melhor, num quarto melhor e finalmente havia descansado.

Seu Victor entendera tudo errado. E agora, como encarar o Paulo no final do dia?

Otávio saiu mais cedo para não se encontrarem. Não sabia o que dizer e como se desculpar.

Logo que ele sai toca o telefone. Seu Valério atende. É Antônio, irmão de Paulo. Ele diz que sua mãe acabara de falecer. Seu Valério diz que sente muito e oferece toda ajuda possível.

Quando Paulo chega à empresa seu Valério diz:

- Paulo, é sobre sua mãe. Seu irmão ligou e disse... – Paulo interrompe seu Valério com seu jeito bronco e diz:

- Já sei, pode ficar tranquilo. Já entendi tudo. Vou lá para o hospital.

Seu Valério fica surpreso com a força e resiliência de Paulo diante do ocorrido.

Paulo chega ao hospital cantarolando e com um sorriso tranquilo. Ele vê os irmãos chorando muito e diz:

- Calma aí pessoal. Precisamos ser fortes. Quero ver minha mãe.

Os irmãos não entendem nada. No dia anterior com a mãe viva ele estava desesperado, agora com ela morta estava cantarolando e os acalmando. Paulo entra no quarto e começa a conversar com a mãe. 

Fala por uns 20 minutos. Então Antônio entra no quarto, coloca a mão no ombro de Paulo e diz:

- Paulo, eu estou feliz e orgulhoso por você estar conseguindo dizer a ela coisas que gostaria de ter dito enquanto ela estava viva.

 Paulo fica intrigado e diz:


Como assim quando estava viva?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O homem do 4


Arnaldo vivia em Curitiba. Aos 44 anos e pai de 4 filhos estava com o casamento por um fio.

Na realidade não era apenas o casamento de Arnaldo que estava a perigo, seu “pescoço” também. Ele havia acumulado muitas dívidas e estava desempregado já por 4 meses.

Certa noite ao chegar em casa se deparou com 4 homens o esperando. Era uma cobrança de dívida de um agiota. Depois de ouvir algumas duras palavras entrou em casa.

Assim que se senta em frente à TV sua esposa, Soraia, diz:

Arnaldo, não da mais. Simplesmente não aguento mais. Eu até te amo, você é um bom pai, mas não tem mais jeito. Quero o divórcio e não adianta você insistir. Namoramos por 4 anos e tinha certeza que você era a pessoa certa. Mas você não para em emprego nenhum. E pior, suas apostas, principalmente nas corridas de cavalos. Chega. Acabou!

Arnaldo, arrasado, entra em seu pequeno escritório. Senta-se diante a velha mesa onde por anos havia elaborado muitos planos, suas apostas em corridas; quase nada dera certo.

Com muitas dívidas, desempregado, o abandono da esposa; tudo parecia desmoronar a sua volta. O apostador teve um horrível pensamento.

Abriu a gaveta da escrivaninha e viu seu revólver, um 38. Arnaldo pegou aquela arma e passou a contemplá-la. Parecia que ela lhe dizia algo. Ele abre a arma e vê que seu revólver tem 4 balas. 

Coloca o 38 sobre a pequena mesa e pensa em fazer uma loucura. Acredita que deveria escrever algo antes de executar o plano. Ele abre novamente a gaveta e vê alguns papéis.

Encontra sua certidão de nascimento e se emociona. Lembra-se dos 40 mil reais que deve. Dos 4 meses que está desempregado. Então volta sua atenção para seus documentos. Sua data de nascimento: 4 de 4 de 44. Em seguida observa uma antiga foto sua ainda em preto e branco.

No verso da fotografia, dizia: Arnaldo Pereira aos 4 anos.

Ele pega a arma e de repente, como que uma luz se acende em sua mente. Para um apostador tudo parece querer dizer alguma coisa; até o nada parece levar a um palpite.

Arnaldo deixou os pensamentos viajarem, e foram longe: Estava com 44 anos. Uma dívida de 40 mil. 
Os 4 homens que o ameaçaram. O namoro com a esposa que havia durado 4 anos. Os 4 filhos. Sua data de nascimento – 4/4/44. A arma com 4 munições. Óbvio, só poderia ser um sinal “dos céus”. O número 4 seria seu número da sorte, sua salvação.

Lembrou que logo haveria uma corrida no Hipódromo onde tantas vezes havia apostado e na maioria se ferrado. Mas dessa vez o Jockey Club traria soluções.

Tudo parecia tão óbvio. Todas aquelas aparições com o número 4. É isso, pensou o apostador.

Sem contar que fazia 4 meses que havia vendido o carro. Resolveu pegar um táxi.

Enquanto aguardava imaginava o quanto custaria à corrida. De repente, vem um táxi e para mais uma surpresa do apostador a placa do táxi era: VAI 4444.

Na mente de Arnaldo não havia o que duvidar. Eis a resposta, ou a solução para suas dívidas.
Ao entrar no táxi se apresenta e pergunta o nome do motorista. O taxista, com educação, diz:

- Prazer, seu Arnaldo. Meu nome é Torquato.

Torquato. Na mente do apostador e a essa altura dos acontecimentos o nome lembra: “Tor quatro”.

Arnaldo contou sua comovente e intrigante história ao taxista. Inclusive a placa do táxi e o nome do motorista. Disse a Torquato que só não apostaria mais porque só tinha os 40 reais para pagar a corrida, claro, se não passasse de 40 reais.

Torquato, sensibilizado com a história de Arnaldo, disse:

- Faça o seguinte meu amigo. Use os 40 reais para a sua aposta. Com o dinheiro do prêmio você me paga.

- Poxa, nem sei como lhe agradecer, seu Torquato. Faço questão de pagar o dobro do valor da corrida com o valor do prêmio que sei que vou ganhar – disse com fé, Arnaldo.

A corrida havia custado 40 reais. Para Arnaldo, mais um sinal. Ele era pura empolgação.

Torquato perguntou a Arnaldo em qual cavalo apostaria. Arnaldo disse que no número 4, lógico.

O taxista ainda pegou 400 reais e emprestou a Arnaldo para aumentar a aposta e o lucro.

Arnaldo sai em disparada. Quase perde o tempo da aposta. O homem do guichê pergunta o número do cavalo. Arnaldo sorri de uma maneira que nem o funcionário acostumado com as apostas consegue entender.

- No número 4, por favor, 440 reais no vencedor. O número 4.

Ele aposta e vai em direção ao local para acompanhar a vitória e o fim dos seus problemas financeiros.

O taxista aguarda sentado num meio fio.

A corrida começa. Arnaldo se emociona. Olha para o céu ao ver o cavalo número 4 em primeiro lugar e agradece sabe lá a quem.

A corrida segue. O número 4 é ultrapassado 3 vezes. Arnaldo leva a mão ao peito.

Fim da corrida. O cavalo número 4 chega em 4º lugar.

O cavalo vencedor é o de número 5.

Arnaldo sai desconsolado. Quando chega a rua vê o táxi estacionado. Só então lembra que agora tem mais uma dívida, aliás, duas, a da corrida e o empréstimo de 400 reais.

Quando Torquato olha o triste semblante de Arnaldo, entende tudo. Arnaldo se aproxima e quando começa a abrir a boca ouve o taxista dizer calmamente:

- Não foi dessa vez, não é mesmo? Não esquenta com a corrida nem com os 400 reais. Quer uma carona de volta?

- Não, muito obrigado. Vou tomar um ar e caminhar um pouco. Desculpe. Não se preocupe.

O taxista vai embora. Arnaldo põe a mão num dos bolsos da calça e encontra 4 reais.

Ele olha para sua direita e vê um carrinho de cachorro quente onde muitas vezes comeu um lanche por 4 reais. Arnaldo se aproxima, cumprimenta o dono do carrinho de cachorro quente e pergunta:

- Boa tarde. Quanto custa o cachorro quente?

- Está 5 reais – responde o homem.

Arnaldo com seus 4 reais senta no mesmo lugar onde estava o taxista. Sente-se perdido.


Ele ouve uma música em alto volume. É um desses carros que anunciam promoções de sorteio de carros e casas.  Arnaldo olha a placa do carro e lê: ARN 5555. Em seguida olha para o chão e encontra uma moeda de 1 real. Levanta a cabeça e pensa: “ARN são as primeiras letras do meu nome. 

A placa: 5555. Com mais 1 real que achei agora tenho 5 cinco reais. Será finalmente um sinal?”

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Empatia e sensibilidade


Num mundo em que muitos reclamam do capitalismo. A população entretida em inúmeros afazeres de ordem profissional, acadêmica, social e recreativa.

A tal crise financeira. O desejo de ter cada vez mais. Longos dias de trabalho. Picuinhas entre amigos e familiares. Toda uma correria “maquiada” por uma aproximação on-line.

Estamos mais próximos graças à tecnologia ou estamos nos enganando?

Em nossas aparições nas redes sociais através de fotografias, opiniões e mensagens parecemos felizes, completos e decididos.

Por que parece ser preciso ocorrer uma tragédia para nos fazer parar, pensar e usar de empatia? Nos colocar no lugar dos outros. Ou “sentir em nosso coração a dor de outro”.

Tragédias envolvendo guerras, violência contra adultos, mulheres, idosos e crianças ocorrem em todo o mundo e todos os dias. Parece que o sofrimento alheio é algo distante.

Na realidade nem sempre é assim. Esta semana uma tragédia mexeu profundamente com os sentimentos da maioria das pessoas, até aqueles aparentemente menos sensíveis.

A tragédia na madrugada de terça-feira, dia 29 de novembro de 2016 que tirou a vida de mais de 70 pessoas, entre elas a delegação com time da Chapecoense ultrapassou Chapecó, Santa Catatina e o Brasil.

O time da Chapecoense de maneira modesta e incrivelmente organizada superou dificuldades e ganhou a simpatia dos Catarinenses.

A tragédia nos fez usar além da empatia, a sensibilidade.

Não havia e não haverá como conter as lágrimas. Jornalistas tentando manter o profissionalismo, mas com olhos marejantes e voz embargada.

Homens ficaram perplexos e muitos admitiram que choraram.

De certa maneira parece que todos nos identificamos de alguma maneira; seja como filhos, pais, amigos ou simplesmente humanos.

Afinal de contas, crianças vão enterrar o pai. Homens e mulheres seus filhos.

Comentários em desespero e por falta de respostas são do tipo: “Deus quis assim”. “Era para ser assim”. “Deus tinha um plano para quem morreu e para quem não morreu ou não embarcou no avião”. “Que Deus é esse?”

As religiões continuam deixando lacunas quando o assunto é a morte e tragédias.

Solidariedade às famílias e amigos é essencial. Mas houve alguém ou alguns responsáveis?

Apurar o porquê aconteceu é vital. Se há responsáveis ou irresponsáveis esses devem ser punidos. 

Não trará de volta os que morreram, mas punirá culpados e poderá evitar outras tragédias.

Que lição ficará em nossas vidas? O que pretendo mudar na minha maneira de viver e encarar amigos, familiares, colegas de trabalho e vizinhos?

Se continuarmos a aguardar por tragédias para nos fazer refletir e nos unir haverá necessidade de mais mortes trágicas.

Mas se usarmos da capacidade de nos colocar no lugar dos outros nas mais diversas situações, sentindo suas “dores em nosso coração” vamos demonstrar – empatia.

Se nos sensibilizarmos com as pessoas em situações que não são trágicas e demonstrarmos compaixão, usaremos de – sensibilidade.

Em memória das mais de 70 vítimas, familiares e amigos podemos fazer mais do que lamentar.

Podemos nos tornar melhores!


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Fé como investimento


É difícil encontrar alguém que não tenha fé. Mesmo quando se diz não tê-la ainda assim ela é demonstrada.

Fé que seu time vai para a Série A. Fé que seu time não será rebaixado.

Fé que passará no vestibular ou no concurso público.

Fé que nosso casamento e filhos serão bem sucedidos.

Fé na teoria de que evoluímos de macacos e fé de que somos uma criação de Deus.

Fé que as coisas vão melhorar. Fé que ainda vão piorar.

Fé na chuva e no sol. Fé que a terra produz o que se planta.

Fé no dia e na noite. Fé na previsão do tempo.

Mas parece que a fé tomou um rumo um tanto confuso, incerto e talvez desvirtuado.

Numa luta, dessas que andam na moda, um lutador de cada lado faz seu gesto de fé, religioso, por vezes o – sinal da cruz.

Antes de uma partida de futebol (ou de qualquer outro esporte) tanto jogadores como torcedores rezam por seu time. Até líderes religiosos pedem por uma “intervenção divina”, a seu favor, é claro.

Até em guerras a fé aparece por meio de pedidos ou orações para ter a vitória sobre o inimigo.
Sabe lá como ficaria a “cabeça” de Deus ao ouvir esses pedidos. Será que ouve? Tomaria partido ou responderia a quem pedisse com mais fé?

A fé também parece estar ligada a investimentos. “Eu deixo parte do meu dinheiro como demonstração de fé e serei bem sucedido”. “Minha empresa irá prosperar, minha conta engordar”.

Há a fé dos que pedem coisas boas. Pedem por outros. E aqueles virtuosos que têm fé para agradecer por tudo de bom e pedir mais fé para resistir com fé os momentos difíceis.

Seja antes de pegar numa arma e partir para a guerra. Ou de partir para a pancadaria numa luta. Quem sabe no início de uma partida de futebol. E até mesmo diante investimentos comerciais a fé virou “moeda de troca”, uma espécie de “toma lá dá cá”.

As Escrituras Sagradas têm uma definição interessante para a palavra fé: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem”. Hebreus 11:1 - Versão Almeida Revista e Corrigida. Ou ainda: “A fé é a firme confiança de que virá o que se espera, a demonstração clara de realidades não vistas”. Hebreus 11:1 - Tradução do Novo Mundo.

Parece difícil viver sem fé, mas ao mesmo tempo é um desafio desenvolvê-la e mantê-la.

Algo importante é conhecer o sentido real das palavras que costumamos usar.

O que é cultura? O que é empatia? O que é imparcialidade? O que é educação?

Fé para encontrar respostas. Fé que vamos compreendê-las. Fé que colocaremos em prática.

A fé parece mesmo ser uma qualidade capaz de nos levar a bons caminhos.

Quem vai vencer; quem tiver mais fé ou quem estiver devidamente habilitado?


Haja fé para entender toda essa “confusão” sem perder a fé!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Revolta da chibata


No dia 22 de novembro de 1910 uma rebelião que envolveu 2.400 marinheiros assustou o então presidente Hermes da Fonseca.

O líder do movimento, João Cândido Felisberto, o célebre almirante negro.

A ameaça; bombardear a cidade do Rio de Janeiro, na época capital do Brasil.

O motivo; as péssimas condições de trabalho dos marinheiros. Por péssimas condições, entenda-se: baixos salários, má alimentação e castigos físicos, entre eles o uso da chibata.

A proclamação da República ocorreu no dia 15 de novembro de 1889. No dia seguinte, o então presidente, marechal Deodoro da Fonseca, por decreto, havia colocado fim aos castigos, as chicotadas.

Na prática isso não aconteceu. No final do século XIX e início do século XX tanto a polícia bem como pais enviavam a Marinha pessoas ou filhos rebeldes.

Normalmente por erros médios os marinheiros eram castigados com 25 chicotadas.

Certo dia o marinheiro, Marcelino Rodrigues tentou entrar no navio com duas garrafas de cachaça. 

Ao ser repreendido por um superior iniciou-se uma briga onde Marcelino feriu o colega com uma navalha. A punição surpreendeu até os marinheiros que já estavam “acostumados” aos castigos. 

Marcelino Rodrigues foi chicoteado diante os colegas de maneira especial, levou 250 chicotadas. O iodo era a única ajuda medicinal que recebiam os que eram chicoteados.

Acontece então a Revolta da Chibata. Uma insurreição, um levante de cunho social por subdivisões da Marinha do Rio de Janeiro.

Na época a Marinha era composta por 50% de negros, 30% mulatos, 10% caboclos e 10% brancos.

O levante durou de 22 a 27 de novembro de 1910. O presidente Hermes da Fonseca notou que não era blefe. De fato, morreram alguns marinheiros e também 5 oficiais.

Depois de muitos maus tratos, as 250 chicotadas como punição ao marinheiro Marcelino Rodrigues levou a preparação desse motim.

Hoje notamos similaridades lamentáveis.

Maria da Penha. Uma Lei criada após uma mulher sofrer agressões por mais de 20 anos, entre elas um tiro que a deixou paraplégica.

A violência contra a mulher continua. Assim como contra crianças e idosos. Sem esquecer as vitimas dos criminosos do trânsito.

Opa, a crônica/coluna não incentiva a rebelião. Rebeliões costumam ferir e matar, inclusive inocentes. A educação, a consciência, a humanidade, a empatia e o respeito tem tudo para levar a comportamentos que jamais necessitam de rebeliões.

Há poucos dias conversei com uma mulher que admitiu apanhar do marido há 40 anos. Surras, humilhações e ameaças de morte. No exato momento em que a encontrei ela estava de saída para fazer uma denúncia. Já havia feito várias. Disse que havia sido muito bem atendida pelos policiais. 
Mas nada havia mudado dentro de casa. Em nossa conversa que durou mais de uma hora e por alguns instantes fora observada pelo marido, a mulher mostrou um roxo em seu braço esquerdo e partes da roupa rasgada. Quando mostrou o ferimento no braço, disse:

“Isso não é nada, já estou acostumada”. Disse que o marido fora muito cruel com seu filho mais velho. Ela contou que certo dia sua filha disse: “A mãe tem o que merece, parece até que gosta”. A mãe deu um tapa no rosto da filha. Parece que a filha só queria dizer a mãe: “Poxa mãe, como à senhora aguenta, a senhora não merece isso, já dura muitos anos, ponha um fim nessa história, o deixe”. Essa foi minha leitura das palavras da filha.

A senhora agredida por 40 anos disse que até suas irmãs sempre a incentivaram a continuar com o marido. Diziam que ele é um bom marido e merecia seu perdão e compreensão. Uma mulher agredida ouvir isso das próprias irmãs sugere algo terrível em nossa sociedade. Machismo, tolerância exagerada ou o quê?

Não sei se dia 22 de novembro haverá lembranças da Revolta da Chibata. Talvez haja, quem sabe com outras lições. Boa leitura é aquela em que aprendemos a ler nas entrelinhas. Nos faz crescer, amadurecer. Entender que o leitor não é e não deve ser passivo.

A chibata aplicada aos marinheiros. A violência contra a mulher que levou a criação da Lei Maria da 

Penha. A violência do trânsito comprovando que não há destino, que não existe o – era para ser assim, era para acontecer.

E atenção moças que estão namorando: Ele te feriu fisicamente, verbalmente, segurou firme pelo braço demonstrando que ele pensa ser teu dono, usa drogas ou abuso do álcool e não demonstra esforços em melhorar? Cai fora. Parte pra outra. Não faltará um homem de verdade para te fazer feliz.

Nenhum de nós precisa esperar para fazer uma revolta, nunca acaba bem para ninguém.

Revolta é contra ideias e crenças que tentam enfiar em nossa cabeça. Revolta é contra ler com pouca atenção. Não ir atrás “das massas e das mídias de grandes massas” que por inúmeros motivos e por vezes não apresentam todos os fatos ou são tendenciosos.

Podemos trocar revoltas e motins por educação, estudos, imparcialidade e muito respeito.

O almirante negro, João Cândido faleceu em 6 de dezembro de 1969. Viveu o bastante para presenciar as duas principais “revoluções” do Brasil. Em 1930 e em 1964.

A chibata literal até ficou no passado, mas a “chibata” continua castigando mulheres, crianças, idosos e vítimas dos criminosos do volante.


Mas nós podemos fazer a nossa parte, e sabemos como! 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Só um toque


Era uma bela manhã de terça-feira e vários amigos estavam reunidos na barbearia.

Três clientes mais o barbeiro. As idades variavam entre 40 e 65 anos.

Todos estavam na expectativa pela chegada de Renato.

Tudo começara na sexta-feira anterior. As conversas sobre a saúde do homem, doenças, morte e falta de cuidados permeavam o diálogo que durou horas. E toda essa conversa porque Renato faria o exame de toque retal na segunda-feira.

Eletroencefalograma, ressonância, Raios-X (antiga chapa), tirar sangue, mas toque retal?

O Claudio disse que o PSA é o suficiente. O Artur comentou que o importante é saber se há casos na família. O barbeiro disse que os médicos hora falam em fazer o exame aos 50 e outros aos 45 anos e fica na dúvida.

Com a ajuda da internet dentro da barbearia verificaram que a idade indicada é aos 50 anos e aos 45 quando há histórico familiar. Mas como seria o exame? O barbeiro buscou mais informações.

Um conjunto de sentimentos tomou conta dos 5 homens que partiram para uma boa pesquisa.

Primeiro: O que é a próstata? É uma glândula que apenas os homens possuem. É pequena e tem a forma de uma maça. Fica na parte baixa do abdômen, abaixo da bexiga e a frente do reto.

Segundo: Os espantosos dados e as estatísticas. O INCA (Instituto Nacional do Câncer) informa que em 2016 são previstos cerca de 61.200 novos casos de câncer de próstata.

No Brasil os homens morrem 8 anos mais cedo que as mulheres pela falta de prevenção.

E apesar de todas as campanhas e incentivos apenas 32% dos homens fazem o exame. Mulheres, esposas e parceiras costumam encorajar os homens a fazer o exame.

O vice-diretor-geral do Inca, Luiz Felipe Ribeiro, diz que: a prevenção do câncer deve ser um tema que mobilize não apenas o governo, mas também toda a sociedade: “Esse desafio é da população brasileira como um todo. Cabe a cada cidadão fazer o seu papel para que a gente possa reverter esses quadros”.

Terceiro: Por que tantos homens têm receio do exame? Especialistas informam que o homem tem medo de ser penetrado. Penetrado, essa palavra fez Claudio levantar para tomar água. Artur pede um café. Jorge respira fundo. O barbeiro liga o rádio e está tocando uma música do Elton John.

Os psicólogos e especialistas na área esclarecem que a região anal é imensamente estimulante, ou seja, há muitas terminações nervosas que provocam prazer. E quando se trata de qualquer coisa ligada à sexualidade é comum homens e mulheres terem receio.

Ninguém poderia ler os pensamentos daqueles 5 homens, principalmente de Renato que faria o exame na segunda-feira. Ficou combinado um encontro entre eles ali na barbearia na terça-feira, logo cedo.
Que expectativa. O Renato seria o primeiro e dependendo do seu relato os outros 4 amigos tratariam logo de fazer o exame, ou não.
O dia havia chegado. Ao entrar no consultório Renato olha para o médico. Ele parece simpático, o que para a ocasião não quer dizer muito. Ou não. O doutor diz:

- Bom dia, seu Renato. Então, o senhor está com 48 anos e não tem casos de câncer de próstata na família. Bem, vamos ao exame.

Renato faz alguns breves cálculos. O médico aparenta ter uns 40 anos. Cerca de 1,8m de altura. 

Cabelos pretos, olhos verdes e parece gostar de malhar. Renato acha estúpida aquela sua avaliação, mas era quase involuntária.

O médico disse:

- Por favor, seu Renato, baixe a calça e incline-se sobre a maca. Procure relaxar. Tomou o laxante que foi indicado? Então, seu Renato, será um exame bastante rápido. No máximo 1 minuto. Enquanto mais o senhor estiver relaxado, melhor.

Renato sai do consultório entra em seu carro e vai para sua casa. Comenta com sua esposa como tudo correu bem.

Na terça-feira Renato se aproxima da barbearia e os amigos comentam:

- Vejam, é o Renato. Será que ele fez?

Renato entra rindo na barbearia e diz:

- Bom dia, pessoal. Como estão? Que dia bonito, hein.

- Você não fez o exame? – Pergunta Artur.

- Claro que fiz. Por que não faria? E tem mais. Já deixei agendada a próxima consulta. Na verdade minha esposa vai me lembrar.

- E como foi? – Pergunta Claudio.

- Tranquilo. Um médico atencioso, um exame rápido e principalmente, essencial a nossa saúde. Tive uma conversa com o médico após o exame e fiquei muito impressionado.

- Impressionado com o quê? – Pergunta o barbeiro.

- Com a importância do exame. Como somos cabeça dura por isso. Tão simples e pode salvar vidas. 

O doutor me deu os parabéns e eu perguntei o motivo do seu elogio.

- E o que ele disse? – Perguntou o curioso, Artur:

- Ele disse que se seu pai tivesse feito o exame até os 50 anos com certeza não teria morrido tão cedo. 

Disse que quando o pai descobriu o câncer já estava evoluído. O doutor me disse que tinha apenas 18 anos quando perdera seu pai, que tinha 56 anos quando morreu. E foi por isso que escolheu a medicina e a urologia.

Naquele mesmo dia os 4 amigos de Renato marcaram suas consultas e combinaram que contariam para o maior número de pessoas possíveis. Diriam abertamente nos bares, festas em família e ali na barbearia. Combinaram que falariam sobre os índices de câncer de próstata, de quantas pessoas poderiam ser salvas se fizessem o exame. A própria história do médico.

Artur perguntou:

- E quanto aquele lance das possíveis sensações, aquela coisa da região sensível, enfim, o que vamos dizer?

Vamos nos apegar a importância do exame e que ele pode salvar vidas – Respondeu Claudio.


Todos concordaram. O mais importante é a prevenção. Além do mais – é só um toque!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A distância entre Ernesto e Manoel


Manoel, filho caçula de seu Ernesto era um desses jovens dos quais se costuma dizer: Cheio de vida, planos e sem limites.

Seus cinco irmãos mais velhos pareciam ter mais em comum com o pai. Metódicos, responsáveis, prudentes.

Nesse caminho de diferentes personalidades começaram cobranças e comparações por parte de seu 

Ernesto. Na melhor das intenções o pai indicava ao filho caçula como teria maiores oportunidades e êxito caso imitasse o exemplo dos irmãos mais velhos.

As cobranças se intensificaram a ponto de “credor e devedor” não terem mais uma única conversa pacífica. A cada troca de palavras uma discussão mais acalorada. Em cada conversa uma briga que fazia crescer a distância tão rápida e sutil que nenhum dos dois notaria.

Morando na mesma casa pai e filho se viam de perto, mas se enxergavam tão longe que não parecia haver assunto entre eles; pelo menos não em algo em que concordassem.

Seu Ernesto tinha uns 54 anos e sempre fora conhecido como homem sério e trabalhador.

Com a morte do filho passou a desabafar com o barbeiro:

- Sabe rapaz. Eu acho que o Manoel não tem mais jeito. Aquele guri não me ouve. Que rapaz teimoso. Os irmãos dele são diferentes. Tanto a irmã, minha única filha mulher e meus outros quatro rapazes. Eles são responsáveis, me escutam. Tu acreditas que aquele louco do Manoel disse que vai comprar uma moto. Era só que faltava.

Manoel falava pouco sobre a difícil relação com o pai. Apenas dizia que achava o pai cabeça dura e que não apoiava suas decisões.

Outro dia seu Ernesto indignado diz ao barbeiro:

- Pois não é que o Manoel comprou mesmo uma moto. Eu já disse lá em casa que ele vai se matar com essa droga. Ainda ontem ele subiu naquela moto e saiu em disparada.

Manoel visitou o barbeiro e disse que tinha se presenteado com a moto pelos seus 18 anos recentemente completados.

Certa manhã de domingo o barbeiro caminha próximo a barbearia quando nota alguns senhores conversando de maneira tensa e se aproxima deles. Um dos senhores diz:

- Tu já soube o que aconteceu?

O barbeiro responde que não.

O senhor que fez a pergunta conta:

- Ontem à noite o Manoel, filho do seu Ernesto, morreu num acidente de moto na BR 101.

O barbeiro lembrou que no dia anterior, sábado, quando saiu da barbearia encontrou Manoel com um grupo de amigos perto da barbearia. Manoel e os amigos educadamente cumprimentaram o barbeiro e sua esposa lhes desejando um bom final de semana. Manoel era de fato um rapaz que demonstrava muita educação e simpatia.

O barbeiro foi até a casa de seu Ernesto onde acontecia o velório de Manoel.

Semanas e meses se passaram. A cada visita de seu Ernesto a barbearia a história se repetia. Seu Ernesto mal sentava e começa seus desabafos:

- Não consigo acreditar que isso aconteceu. Ele só tinha 18 anos. Nós brigávamos muito. Não havia mais papo e nem conversa, só brigas e mais brigas.
Me sinto culpado, meu amigo. Devia ter ouvido mais ele. Tinham tantas pessoas no velório e no enterro dele. Ele tinha muitos amigos. E eu não parecia ser um deles.
Por que eu não sentei na cama dele e procurei conversar mais, entender, respeitar um pouco mais o jeito dele. Isso tá me matando. Eu não aguento mais de saudade e arrependimento.

Essas conversas se repetiram por mais de seis meses. Seu Ernesto estava visivelmente transtornado desde a morte do filho. Havia emagrecido e envelhecido em meses o que era para ser em anos.

Numa manhã de terça-feira, uns oito ou dez meses após a morte de Manoel, enquanto o barbeiro abria a porta do seu salão viu uma vizinha se aproximar. Ela trazia uma triste notícia. Seu Ernesto havia morrido no dia anterior. Não fora nem doença nem acidente. A dor, tristeza, lástima, sentimento de culpa, fizeram seu Ernesto abreviar seus dias. De maneira consciente ou não foi à maneira que buscou a paz.

A distância entre eles era curta. A casa não era muito grande. Poucos passos ou metros os separavam. 
Mesmo quando se cruzavam pela casa parecia haver uma enorme distância.

Uma distância criada sem que se dessem conta. Tão perto e tão distantes.

Hoje não há mais brigas e nem desentendimentos entre seu Ernesto e Manoel. Há somente uma imagem criada na mente do barbeiro que os conhecera. Se tivessem cedido. Se tivessem falado e ouvido sem julgamentos. Se tivessem trocado toda intriga por boas conversas, risadas e abraços. 

Quem sabe a distância entre Ernesto e Manoel só lhes daria espaço para se olharem e perceberem no que mais se pareciam – fazer as coisas do seu próprio jeito.

A mesma distância que os separava em casa os separou da vida.


Mas a distância se tornou grande demais!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Spotlight: Segredos Revelados


Sabemos que a pedofilia é praticada de maneira geral por pessoas próximas. Crianças, adolescentes e pais são persuadidos a confiar nos pedófilos como se fossem pessoas acima de qualquer suspeita.

Pais, padrastos, tios, avós, amigos da família estão entre aqueles que molestam crianças causando traumas terríveis.

Cabe o ditado: “Seguro morreu de velho”. Não quer dizer desconfiar de todos, mas ao mesmo tempo não confiar demais, principalmente quando o risco é a pedofilia.

"Ah, ele ou ela jamais seria capaz de fazer isso, ponho minha mão no fogo”. Então saiba que as possibilidades de se queimar são reais e consideráveis.

O perigo também se esconde atrás de títulos de “santidade”.

O filme – Spotlight – Segredos Revelados, baseado em fatos reais, conta a história de um grupo de jornalistas do The Boston Globe que investigou, descobriu, se apavorou e publicou um artigo sobre padres pedófilos.

Na ocasião, por volta de 2001, havia pelo menos 87 padres que haviam molestado crianças; detalhe: 87 só na cidade de Boston.

Há pesquisas que segundo o filme apontam que até 6% dos padres poderiam estar envolvidos em pedofilia.

Em especial crianças de famílias carentes e pouca estrutura, dizem que veem o líder religioso como se fosse “Deus”.

“Um dia ele pede para a criança recolher o lixo. Depois conversa mais. Um dia conta uma piada obscena (agora eles têm um segredo), e por fim mostra uma revista pornográfica” (Relato de uma das vítimas no filme).

Tudo termina, ou começa, quando “o padre tira a roupa e pede para o menino o masturbar e fazer sexo oral nele”. (Continuação do relato)

Quando acontece com meninos que são ou acreditam ser homossexuais tudo parece diferente; afinal de contas eles sentem que “deus” entende e aceita sua situação. (Também relatos do filme)

O filme – Spotlight – Segredos Revelados - deve ser mais anunciado, divulgado, assistido e discutido.

Concluir que isso acontece apenas em outros países é ingenuidade.

Pensar que isso só acontece “lá longe” é fechar os olhos a uma terrível e devastadora realidade.

Quando os abusos são cometidos por lideres religiosos à coisa é agravada por vários motivos.

Primeiro: Estão entre aqueles que parecem estar – acima de qualquer suspeita.

Segundo: O medo de denunciar um “homem de Deus”.

Terceiro: A maneira como a igreja por tantas vezes oculta, esconde, transfere o padre pedófilo para outra paróquia. Já molestou aqui, ficará conhecido. Quem sabe numa cidade onde ninguém saiba. E se abusar lá se transfere outra vez...

Pais precisam alertar e conversar com os filhos. Alguns falam besteiras e contam piadas sobre sexo com amigos, mas não são capazes de ter uma conversa respeitosa, porém aberta com filhos e filhas, os alertando contra os pedófilos. Dizer o que fazer e para quem contar. Que pode ser o vovô, o papai, a mamãe, o titio, o padrasto, o melhor amigo dos pais e até um “homem de deus”.

A denuncia pode não resolver por completo, mas dará a oportunidade de se fazer justiça e talvez impedir que outras crianças venham a ser molestadas.

E a imprensa? Parabéns a imprensa. Parabéns aos jornalistas que investigam e publicam.

Jornalismo é isso, abrir temas importantes. Falar o que não parece conveniente e o que alguns não desejam ouvir.

Imparcialidade é importante sempre. Não podemos deduzir que a maioria dos lideres religiosos são pedófilos, mas o número é assustador. Mais assustador ainda é saber que os que têm poder para denunciar e punir por tantas vezes apenas encobrem.

Dizem que segredo deixa de ser segredo quando revelado.

Há segredos importantes a serem guardados e outros não.

Pedofilia, pessoas próximas e principalmente, “homens de deus” devem ser monitorados, descobertos, julgados e condenados (não transferidos como tem acontecido).

Quando conversar com uma pessoa religiosa pergunte a ela como sua igreja trata ou lida com casos assim.

Nosso papel na imprensa é dar notícias e informações. No filme Spotlight quando um líder religioso disse que é importante que a imprensa trabalhe em conjunto com instituições, ouve do editor: “Em minha opinião é melhor que a imprensa trabalhe de maneira independente”.

Pedofilia, pais e imprensa. Denunciar, divulgar e proteger. Caso contrário só haverá as lágrimas e os traumas das incontáveis vítimas desses terríveis abusos – guardadas em segredo!



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Dois jeitos de ser


Quem já sentiu a necessidade de encontrar alguém para compartilhar a vida, namorado ou namorada, esposa ou marido, talvez tenha pensado em encontrar a “outra metade da laranja”.

O que esperamos com a “outra metade da laranja”? Encontrar alguém que combina muito conosco, alguém diferente para nos completar?

Como deve ser viver com alguém que tem os mesmos gostos, desejos, manias, ambições, medos e outras coisas muito parecidas?

E como deve ser compartilhar a vida com alguém com diferentes gostos, opiniões, desejos e medos?

Amizades não costumamos idealizar. Conhecemos alguém e dependendo da “afinidade” nos tornamos amigos ou não. Ainda assim é comum discordarmos em algumas coisas e opiniões de nossos amigos.

Casar com alguém muito parecido pode fazer com que ambos queiram seguir “os mesmos caminhos” e falte alguém para colocar um “freio”, para não agirmos por impulso em situações em que seria necessário um ponto de equilíbrio.

Um é muito ousado, “mete a cara” e pronto, não tem receio de que suas decisões deem errado. Pode até parecer um tanto irresponsável, ou é simplesmente ousado.

Alguém que pense diferente pode completar uma relação de maneira especial.

Ter como parceiro na vida e da vida alguém que pare e pense e que ajude a avaliar melhor as decisões sem precipitações deve ser bom.

Deve ser também complicado alguém muito melindroso, aquele ou aquela que acha que nada nunca vai dar certo e costuma ser um “freio de mão sempre puxado”.

Entre as “duas metades da laranja” que completam uma relação a “outra metade” pode ser parecida ou diferente.

Ser parecidos deve ter benefícios ou vantagens e desafios. Ser diferentes também.

A poesia na música de Peninha: Matemática; aborda uma relação “da outra metade da laranja” quando ela é diferente e feliz.  A essência da canção diz:

"Você ama matemática eu adoro português, me arrependo do que fiz e você do que não fez, eu preciso de silêncio e você de multidão, dois jeitos de ser, um só coração; é, e é por tudo isso que está dando certo, melhor coisa do mundo é ter você por perto... sou a pessoa mais amada da cidade”.

Então sempre que ouvirmos um amigo ou amiga se queixando do marido ou da esposa, de que ele faz e pensa assim, ela diz e pensa diferente, é a “outra metade da laranja” se expressando.

O problema, se é que há problema, talvez seja não termos percebido que essas “diferenças” podem justamente ser a essência, a elegância e a segurança de uma boa relação.

Sugar o melhor dessa “laranja” pode ser bem mais saboroso se valorizado em vez de criticado.

Saborear essa “diferença” pode nos ensinar em vez de nos irritar.

Aprender e compartilhar com essa “metade da laranja” nos fará vê-la como inteira, afinal de contas quando a conhecemos já éramos inteiros, talvez apenas não tivéssemos percebido e só percebemos graças a essas maravilhosas diferenças.


Dois jeitos de ser não precisa impedir de unir e de amar!