quinta-feira, 28 de julho de 2016

Elas por eles


Machismo ou feminismo, o que mais interfere de maneira negativa nos relacionamentos?

Que ambas interferem não é novidade. Novidade pode ser ouvir, escutar e entender o significado de: feminismo e machismo. E igualmente importante; o que as pessoas têm em mente ao usar essa expressão.

Diz o “velho amigo dicionário” que machismo é a atitude ou comportamento de quem não admite a igualdade de diretos de homens e mulheres.

E o “velho amigo” nos diz que feminismo é o movimento oposto ao machismo.

Uma coisa é certa: É um pouco menos perigoso andar num campo minado do que falar sobre isso.

Machistas não assustam ninguém. Já com as feministas pode ser diferente. Será?

Quem não conhece ou conheceu um machista? Ou será que há uma inversão no entendimento da palavra – machista? Quem trabalha ou já trabalhou com vendas sabe que na maioria dos casos a mulher é que dá a palavra final. É muito comum ouvir um homem dizer antes de uma decisão: Tenho que falar com a patroa. Ela é quem manda. Ou será que ele (nós), dizemos isso só para fugir da responsabilidade. Tipo: ela é quem decide, não tenho nada haver com isso.

O cara mandão pode no intuito de confirmar o quanto manda na mulher perguntar a ela:

“Lá em casa quem manda sou eu, não é mesmo querida?”

Já falei para alguns amigos: Tem homem que não manda em casa e tem homem que mente.

Mandar em casa não é o caso. O caso, os direitos, o respeito e a compreensão, sim.

De mãe para filho e de pai para filha.

 Ainda existem mulheres que querem ter um filho “garanhão”. Existem também os machões que querem um filho “garanhão”, mas não com a sua filha. E aquelas mães orgulhosas dos filhos. Quando o filho vai bem no colégio ou conquista algo maravilhoso, ela diz: Ah, esse é meu filho! Quando o filho (a) apronta algo de errado, ela diz ao marido: Olha só a nota que teu filho tirou... Olha só o que tua filhinha querida fez!

E a história da mulher que diz para filha que já está mais do que na hora de o genro comprar a máquina de lavar, afinal de contas, sua filha não é escrava para lavar roupas no tanque. Já para o filho a mesma mãe diz: Não vá se meter em dívidas só porque a tua mulher (nora) quer uma máquina de lavar. Lavei roupas no tanque por anos e não morri por isso.

As mulheres sofrem com o machismo imbecil que ainda existe. Questões salariais, por exemplo. Há homens que falam das mulheres não apenas as rebaixando, mas as encarando como puro objeto sexual. Alguns atrasados (homens e mulheres) defendem que mulheres são responsáveis por estupro porque se vestem de maneira provocante. “Coitadinho do estuprador, foi levado à tentação, ela estava quase nua e ele não aguentou. Quem manda se vestir assim”.

Absurdos como esses parecem piadas de mau gosto, mas não são, há quem pense assim.

Para nossa classe de “machos dominantes” a coisa não anda muito boa. Elas estão no poder.
Uma palavra, um berro ou mesmo um olhar atravessado diz tudo.

E quanto a dividir as contas? Isso é simples. Pelo menos para quem é razoável.

Homens têm chorado em filmes de romance “água com açúcar”, tipo: Como eu era antes de você.

 Machos têm beijado e expressado amor e carinho pelos filhos, pais e claro, esposa.

Eles estão se cuidando mais. Apontam para uma atitude de aproximação.

Nós podemos estar um pouco ou bem mais sensíveis. Deem espaço, tempo, ouvidos e verão um machão ignorante ou machão disposto a conversar, se abrir e ouvir.

Mas e elas, o que as mulheres parecem querer?

Elas querem carinho, atenção, beijos, abraços, amassos e acima de tudo, querem ser ouvidas.

Se passarmos por esse terreno minado sem pisar no lugar errado é porque tivemos coragem e cuidado. Chegamos ao outro lado e vimos que é possível olhar de – outro lado e por outro lado. 

Opostos, mas num mesmo terreno, cheio de bombas e com muitas opções de terreno seguro.


Se cheguei ao final desse texto (desse campo delicado) sem te deixar irritada ou chateada, bravo ou indignado, me disponho a atravessá-lo outra vez. É um caminho que vale a pena. Senão fica assim: 
Elas por eles, eles por elas e seguimos essa estrada tão perigosa e única. 
Nossa convivência!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Breves equívocos


 Por volta das 17:00h seu Valdemar está assistindo televisão quando toca o telefone:

- Alô. Boa tarde!

- Boa tarde, vô. Tudo bem?

Seu Valdemar tem 23 netos. Conseguir lembrar o nome de cada um deles é desafiador, quanto mais reconhecer pela voz, afinal de contas, o vovô tem 80 anos.

Seu Valdemar pensou em, Eduardo, Vinícius, Ricardo, Thiago, Marcos, Mateus, Natã, Victor, Guilherme, Lucas; quem seria? Decidiu; só pode ser o Lucas. Mas por via das dúvidas, chamaria o Lucas de, meu neto. Seu Valdemar, depois de alguns segundos de reflexão, segue a conversa:

- E você, meu neto, como vão as coisas?

- Estou bem vô. Com saudades do senhor. Desculpe não ter passado aí nas últimas semanas, além da correria ando com muita tosse.

Seu Valdemar ficara preocupado com o neto, Lucas, porque ele falava quatro ou cinco palavras e já tossia. O pobre neto devia estar muito gripado, pensou o avô. Seu Valdemar segue o papo com o neto:

- E seus pais, estão bem?

- Ah, estão bem sim. Com saúde e trabalhando bastante. Pediram que eu mandasse um abraço ao senhor.

- Obrigado, meu neto. Mande outro a eles.

- E o vô, como está de saúde?

- Estou bem. Claro, com 80 anos não tenho do que reclamar.

- Está sozinho em casa, vô?

- Sim. Tua avó saiu faz tempo e ainda não voltou.

 Agora o rapaz do outro lado da linha sentira um calafrio. Um aperto no peito. Sua avó havia morrido há dois anos e não sabia nada sobre o avô ter se casado; ainda mais dizer: sua avó saiu. Imaginou que pudesse ser Alzheimer. De qualquer maneira não iria se aprofundar no assunto. Pobre do avô, aguardando o retorno da esposa que havia falecido havia dois anos.
O avô retomou a amistosa conversa:

- Meu neto, estou preocupado com essa tua tosse. Já tomou algum xarope?

- Eu até tomaria se fosse só gripe, mas essa tosse é do maldito cigarro. Está acabando comigo, são 8 anos fumando.

Dessa vez foi seu Valdemar que ficou pasmo. Ele tem 11 filhos e 23 netos, nenhum de seus filhos e netos jamais fumara. Chegou a cogitar: Será que estou tão esquecido? Meu Deus, e se for àquela doença que a pessoa esquece tudo, como é mesmo o nome? Resolveu aconselhar o neto, e dessa vez o tratando por nome para mostrar preocupação e firmeza:

- Lucas, por favor, te cuida. Pare de fumar, por mais que seja difícil!

O rapaz, perplexo, respondeu:

- Lucas? O senhor me chamou de Lucas? Meu nome é Gustavo. Sou filho do Reginaldo e da Clarice. 
Vô Antônio, o senhor está bem?

- Antônio? Você me chamou de Antônio? Meu nome é Valdemar e não tenho filho ou filha chamado Reginaldo ou Clarice!

- Perdão. O senhor me desculpe. Liguei o número errado!


quinta-feira, 14 de julho de 2016

O monstro e o silêncio


Ela tinha apenas 10 anos de idade e como a maioria das meninas tinha sonhos.

As noites dela poderiam ser embaladas por sonhos e até por pesadelos; quase todos passam por isso. 

Bons sonhos trazem prazer durante o dia. Pesadelos nos fazem acordar assustados e angustiados, mas param por aí. Para um pesadelo comum basta um copo de água ou um abraço afetuoso.

Uma criança deveria poder contar seus pesadelos. Mas  não esse. Por que não? Ele as acompanha mesmo quando estão acordadas. Eis o problema: Não compartilhar, não contar, não ser ouvido.

A menina de 10 anos não mais podia dormir tranquila. Recebia durante a noite a visita de quem deveria passar por ali para contar uma bela história, cantar, orar, beijar e abraçar com ternura e respeito. Mas não há uma bela história, nem um canto ou uma oração, a não ser aquela tentativa de orar ou rezar, interrompidas por beijos e abraços nada desejados, nada afetuosos, nada paternos.

O forte hálito e respiração ofegante sobre seu rosto. Uma barba que arranha sua suave pele. Uma mão toca suas partes íntimas de maneira a não fazer barulhos, não chamar a atenção. Ei, silêncio, tem gente perto. Não há delicadezas nem pudor. Seus órgãos genitais são invadidos pelos dedos do mesmo homem que aponta e diz: “Faça isso ou aquilo... não volte tarde... lave a louça”.

Os dias passam rápido demais. As noites parecem não ter fim. Lá vem ele. Homem confiável. Pai trabalhador. Vizinho respeitado. Tio bem vindo a casa. Avô maduro e experiente. Líder religioso; um homem de deus. Quem acreditaria?

Ele vem todas as noites. Sua mão na vagina e nos seios de menina. Seu membro sexual faz parte do ato. Ele o coloca onde quiser.

Ela já relutou. Acumulou marcas de vários objetos; seja um garfo ou um cinto. Cicatrizes aparecem, mas ninguém vê.

Ninguém nota. Ninguém pergunta. Olhem pra mim. Olhem pra mim. Não aguento mais, é ele.
Não vão acreditar. Mas é ele o meu monstro amante por quem não me apaixonei. Não é meu príncipe encantado.

Se passaram 7 anos. A menina já está com 17. Ele continua transformando noites em pesadelos. 

Gritos na mente e no coração não podem ser ouvidos por qualquer um.
 Ninguém pergunta. Ninguém percebe. Dou gritos a troco de nada? Como de tudo e não quero fazer mais nada? Estou pedindo socorro. É ele. O monstro amante me tirou até a voz. Ele mora ao lado.

A menina enfim fala. O monstro é covarde. Ele acaba com a própria vida. Mas antes de tirar a sua quantas vidas ele destruiu?

Quem é ele? O pai, o padrasto, o tio, o avô, o melhor amigo dos pais, o padre o pastor?

Pode ser qualquer um. É no mínimo inimaginável os efeitos psicológicos sobre quem passa por abusos sexuais. Dizem que no Brasil são 20 crianças por dia, com menos de 9 anos de idade.

E as vozes silenciosas abafadas pelo medo? E os gritos por socorro transformados em rebeldia?

A internet está farta disso. Nas casas e até nas igrejas. Uma dor tão forte e nenhum grito.

Claro, eles ameaçam. Dizem para suas pobres e indefesas vítimas: “Se tu contares vou matar teu pai, tua mãe, tua família”. “Achas mesmo que vão acreditar em ti?”. “Vai dizer que não gostas...?”.

 Na família se custa a acreditar.

 Quando um líder religioso é desmascarado será que vai ser preso ou é transferido para abusar de crianças em outros lugares?

Será que aconteceria com um dos meus? Só acontece os outros. O silêncio releva outra coisa.

As crianças estão bem perto. Monstros também. O silêncio que as cala fortalece aos monstros.

Campanhas são feitas, mas são aproveitadas? O site: www.jw.org  criou um vídeo de menos  de dois minutos , altamente instrutivo, com o tema: Proteja seus filhos.


É tempo de gritar, é tempo ouvir e acima de tudo, é tempo de agir!


O silêncio ainda impera e o monstro pode estar ao lado!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Entrevista ao Bom Dia Santa Catarina - RBS TV. Sobre o livro - Um sonho de menino. Romance. A história de um menino relembrando a luta e os sonhos da sua infância, a cura do pai, alcoolista!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os que trocam o amargo pelo doce


Uma das máximas no jornalismo seria considerar como notícia de destaque não o fato de um cachorro morder um homem, mas sim um homem morder um cachorro.

Lógico que essa ilustração serve para demonstrar que notícia é o incomum.

De certa maneira as coisas que se tornaram comuns são justamente, atitudes, gestos, comportamentos, inclinações, expressões de mau gosto, má educação, agressividade e violência.

Atitudes negativas se tornaram a ordem do dia; o que parecia incomum há anos ou décadas hoje não espanta mais.

Hoje quando alguém é honesto ou educado é notícia certa. Se for as duas coisas é chocante.

 O que há de surpreendente em uma pessoa ajudar um deficiente físico?

Como podemos nos impressionar ao ver alguém educado?

Como pode ser notícia o fato de alguém devolver uma carteira com dinheiro dentro?

O que leva um juiz ser considerado louco e inadequado?

Por que uma pessoa que diz que vai se casar virgem causa espanto? Ela é normal?

Alguém que é casado e leal ao marido ou esposa passa uma impressão estranha?

Como é encarado alguém em cargo de autoridade que faz o que tem de fazer?

Por que um jornalista imparcial é admirado?

Uma sociedade que diz: “Ele rouba, mas faz. Todos roubam, mas esse pelo menos faz alguma coisa”. “Achado não é roubado”. “A ocasião faz o ladrão”.

Se partirmos do princípio que desde que faça algo de bom não importa ser ladrão; logo diremos a uma mulher que apanha do marido: “Mas ele é bom pai, trabalhador, tua mãe adora ele, não deixa faltar nada em casa; só te dá uns tapas quando bebe”.

A ocasião não faz o ladrão, antes revela o ladrão, senão todos nós seríamos ladrões em potencial, apenas aguardando uma oportunidade.

Quando quem merece um troféu é apontado como louco, bandido ou indesejável é porque a coisa já está feia demais.

A mesma polícia tão criticada é a primeira a ser chamada na hora do apuro. Não são chamados para um café, só para resolver problemas. Claro que é sua função. Mas e o reconhecimento a atos de bravura que não são raros?

As palavras: “Os que trocam o amargo pelo doce e o doce pelo amargo, os que inocentam o culpado em troca de suborno e negam justiça ao justo; os que dizem que o bom é mau e o mau é bom”, estão escritas há uns 3 mil anos. Bíblia. Isaías 5: 20-23. Essas atitudes são vistas hoje por nós em quase todas as esferas da vida. Escola, trabalho, órgãos públicos, privados, religião, mídia, e nas próprias casas, no seio da família.

Só falta mesmo uma pessoa, louca ou não, morder um cachorro e trazer um tema incomum.

Num momento de troca e inversão de valores quem será mais ingênuo, quem crê em lobisomem e no super homem, ou quem vê melhoras a curto e médio prazo?

Será que há coisas boas acontecendo e são pouco divulgadas?

Talvez dependa também do interesse de quem consome as notícias. Se é verdade que somos o que consumimos podemos treinar nosso “paladar intelectual”. Que o doce seja doce e o amargo o que realmente é.

Um importante detalhe é que nós como seres humanos somos a principal matéria prima que leva a produção de ações e que viram notícia, sejam elas doces ou amargas!



quarta-feira, 29 de junho de 2016

200 viajante


Um empresário chega a um hotel onde pensa em passar a noite. Como tem suas manias com quartos de hotel explica ao gerente que primeiro precisa conhecer as acomodações.

O educado gerente diz que não há problemas. O cliente pode subir e se não gostar do quarto não haveria nenhum problema. O empresário agradece e paga o valor do pernoite, 200 reais.

O gerente, contente com o dinheiro que acabara de entrar, pega o telefone e liga para a panificadora para a qual deve 200 reais de queijos e presuntos.

O dono da panificadora feliz com o dinheiro que vai entrar se apressa em receber. Agradece ao gerente do hotel e confirma que pode pedir o que precisar.

Assim que chega em sua panificadora liga para seu fornecedor de frios e avisa que já tem seus 200 reais nas mãos.

O fornecedor sai contente da panificadora e vai ao mecânico a quem deve 200 reais e acerta sua conta.

Um mecânico aliviado com o dinheiro que entra paga o dentista a quem devia 200 reais.

O dentista satisfeito com o dinheiro que acabara de receber sai para pagar o dono do restaurante onde costuma almoçar.

O dono do restaurante vibra com os 200 reais e vai pagar o pedreiro que fizera um ótimo serviço em sua casa.

O jovem pedreiro telefona a uma garota de programa a quem deve 200 reais e fica em paz.

Um homem observa uma garota entrando no hotel em que trabalha. A garota de programa sorri para o gerente e diz que veio pagar sua dívida de 200 reais. Ela agradece a paciência do gerente do hotel. Ela mal se afasta e o gerente é surpreendido por um homem. É o empresário que subira para ver o quarto. 
O empresário diz:

- Por favor, me desculpe. Não é nada contra seu hotel, muito aconchegante por sinal e com ótimo atendimento. Eu é que tenho manias. Não vou ficar. Agradeço sua atenção.

O gerente do hotel diz ao empresário:

- Aprecio sua honestidade e educação. Saiba que estamos abertos a quaisquer sugestões. Faço questão que pegue de volta seus 200 reais e sinceros votos que encontre um lugar do seu agrado.


E lá se vão os 200 reais. Continuam viajando por diversos bolsos e outros valores, provocando reencontros, sorrisos e acertos.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Conclusões


Ele era conhecido como homem inteligente e discreto. Pessoas assim costumam ser observadoras. Na profissão de garçom essas qualidades são especialmente importantes.

Perceber o momento certo e como se aproximar de um cliente, conhecer seus gostos e preferências, tudo isso era comum a Pascoal, garçom há mais de 30 anos.

Embora já tivesse atendido algumas pessoas famosas ao longo da carreira ficou especialmente contente quando soube que o hotel onde trabalhava como garçom receberia a cantora da qual Pascoal era um grande fã.

 Chegado o grande dia o hotel estava lotado. Havia outros eventos que trouxeram muitos hóspedes.

O gerente do restaurante deu a Pascoal, seu mais experiente garçom, a tarefa de ir até o quarto da famosa cantora para saber se desejava seu jantar no quarto ou viria até o salão.

Pascoal ficara nervoso com a tarefa que até então era corriqueira. Já em frente ao quarto ajeitou a gravata, passou levemente a mão sobre os cabelos e limpou a garganta.

Ele bate a porta e ela o convida a entrar. Diante a sua admirada cantora e com o coração disparado ele mantêm a classe e o profissionalismo. Pergunta a ela se preferia o jantar em seu quarto ou no restaurante do hotel. Ela, gentilmente e com sua voz delicada agradece a Pascoal e diz que não há com o que se preocupar. Preferia ir até o restaurante por volta das 20h.

Aquela noite de quinta-feira era especial para Pascoal. Por mais que já tivesse atendido tantos famosos nenhum se comparava aquela cantora. Na realidade parecia que a cantora era mesmo especial na vida e nos sonhos do garçom.

Por volta das 19h Pascoal olha para a porta e vê uma mulher aparentando pouco mais de 60 anos, roupas muito simples, principalmente para um hotel daquela categoria e acima de tudo ao julgamento do elegante garçom. Poderia ser uma das empregadas do hotel que fora pedir alguma informação, mas deveria estar de uniforme, seria menos constrangedor, pensou Pascoal. Ele se aproxima da modesta senhora e pergunta o que ela deseja.

A senhora com toda simplicidade diz que deseja jantar. Pede com muita educação que Pascoal a ajude conseguir um lugar. Diz ainda que não tem preferência por um em especial.

Pascoal não quer tratar mal aquela senhora, mas conclui que ela escolhera um lugar e noite impróprios, principalmente pela celebridade que receberiam ali dentro de uma hora aproximadamente. Diz sem piedade que não há vagas aquela noite. Sugere inclusive que procure outro lugar para jantar e discretamente se afasta.

Minutos depois ao retornar ao salão não vê a senhora e se tranquiliza. Conclui que agiu bem em dispensar a mulher tão mal vestida. Mas ao olhar para as mesas observa a senhora já acomodada. Ele se aproxima e contem sua irritação. A senhora sorri e sem ares de condenação diz que um colega havia conseguido o lugar. Ela gentilmente pede água, chá e biscoitos. Pascoal diz que seu pedido pode demorar devido ao grande movimento da noite. Pensa que ela poderia se cansar e ir embora. Assim poderia se concentrar na grande cantora, para ele, digna de toda sua atenção àquela noite.

Ele vai até a cozinha, entrega o pedido da senhora e diz que não devem ter pressa em atender aquele pedido. Havia outros mais importantes.

Os minutos passam como que voando e um silêncio seguido de cochichos tomam conta do salão. As pessoas discretamente olham para a porta onde está a cantora tão admirada.

Ela, antes de dar o primeiro passo deixa que seus belos olhos verdes percorram todo o salão como uma câmera de TV. Pascoal rapidamente se aproxima preocupado com o constrangimento pela senhora vestida de maneira inadequada ao local e ocasião. Estava até preparado para dizer algo se a cantora visse a senhora. De repente, os olhos da cantora se fixam na humilde senhora. A senhora olha para a cantora parada a porta. Pascoal nota a troca de olhares e prepara-se para justificar uma presença um tanto indesejável aquela noite.

Quando abre a boca é interrompido pela cantora que não se importa em levantar um pouco o volume da voz e olhando para a humilde senhora, diz:

- Mamãe. Que bom que pode vir!

Pascoal, exímio garçom e homem muito observador fica perplexo. A cantora aproxima-se da mesa da senhora e é recebida com um caloroso e materno abraço.

Pascoal começa a entender a situação. A cantora troca carinhosas palavras com a mãe e diz a Pascoal:

- Mamãe já foi atendida? Já fez algum pedido?

Pascoal novamente ajeita a gravata e engole a saliva enquanto olha para a humilde senhora que apenas sorri para Pascoal. Ele diz a cantora:

- Sim. E a meu pedido um amigo a ajudou escolher seu lugar. Vou verificar porque ainda não trouxeram seu pedido.

Quando chega a cozinha um colega diz:

- O pedido de velhinha ali está quase pronto. Posso mandar?

Pascoal com cara deslavada deixa o colega confuso ao dizer:

- Ainda não levaram? Se apressem. Aquela senhora sentada com a cantora é nossa cliente mais importante da noite.

O colega pergunta o motivo. Pascoal com as mãos na cintura, diz:


- Ora que pergunta. Ela está sentada com a maior celebridade que já recebemos. O que você conclui?

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Encontro


Era uma bela manhã de segunda-feira, no calçadão da Felipe Schmidt em Florianópolis.

Uma coincidência incrível reuniu grandes amigos. Cada um deles com um papel especial na vida.

Caminha com serenidade, dona Educação, quando encontra um amigo:

- Bom Dia, que prazer em vê-lo! Como tem passado?

- Dona Educação. A senhora não muda mesmo. Suas expressões e atitudes são tão delicadas.

- Bondade sua, senhor Bom Dia. A simples menção do seu nome me faz feliz.

 - Dona Educação, olha só quem se aproxima. Dona Gentileza.

- Que prazer encontrá-los meus queridos amigos. Dona Educação, seu Bom Dia.

- Ah, dona Gentileza, sua presença torna mais agradáveis nossos dias.

- Gentileza, ouvi uma excelente matéria a seu respeito - Diz dona Educação:

- Sua atitude no ônibus onde ninguém deu lugar a um deficiente físico. Não é de surpreender vindo de ti, minha amiga.

 Dona Gentileza, meio sem graça, responde:

- Por favor, não fiz nada além do que deveria.

- Esse não morre mais – diz seu Bom Dia – Vejam quem se aproxima, seu Por Favor.

- Que maravilha encontrar três dos meus grandes e verdadeiros amigos!
Seu Bom Dia, dona Educação e dona Gentileza sentem-se felizes com as palavras sinceras do amigo. Ele ainda diz:

- Por favor, deixem que eu lhes pague um café.

 Dona Gentileza diz com um lindo sorriso:

- Ah, senhor Por Favor, até para uma gentileza o senhor diz, por favor:

- Dona Gentileza, assim me deixa sem graça. Ainda mais diante tão preciosos amigos.

Um clima romântico paira no ar com o cavalheirismo de seu Por Favor, diante a delicadeza de dona Gentileza.

Os quatro amigos tomam um café naquela bela manhã de inverno acompanhados de uma ótima conversa. De repente, são surpreendidos pelo senhor, Com Licença.

- Senhor Com Licença – diz dona Educação – Não me chame de senhor, apenas, licença para a honra de me sentar ao seu lado e dos demais amigos.

Dona Educação manifesta sua falta de esperança de melhores atitudes das pessoas quando ouve seu Com Licença:

- Amigos, olhem, é dona Esperança. Ela está distante, não vai nos ver.

 Seu Bom Dia levanta-se e educadamente aumenta o volume da voz:

- Bom dia!

 Dona Esperança, já sem esperança de ouvir um bom dia, olha para o lado e se emociona ao ver os cinco amigos.

Todos se levantam enquanto, seu Por Favor, puxa a cadeira para dona Esperança.

 O tempo passa e eles não se dão conta, até que são surpreendidos mais uma vez, e agora por três amigos que caminhavam juntos. Os amigos se levantam e dizem com alegria:

- Boa Tarde, Boa Noite, Perdão. Se juntem a nós nesse belo dia!

 Dona Esperança fala sobre as atitudes e comportamentos que se tornaram comuns, mas deixam as pessoas distantes e indiferentes com seu próximo. Seu, Por Favor, manifesta não crer em melhoras. Seu Perdão e dona Esperança se levantam. Seu Perdão toma a palavra:

- Perdão, meus amigos, mas creio que não devemos desistir – Dona Esperança completa:

- Imaginem se perdermos a esperança? Vamos continuar fazendo a nossa parte.

 Nesse instante são interrompidos com muita educação por mais um amigo:

- Obrigado por existirem e não desistirem. Cada um de vocês é fundamental a toda sociedade!

- Obrigado – dizem os amigos – que alegria rever o amigo. E obrigado pelas palavras.

Nesse exato momento ouvem uma voz entusiástica:

- Parabéns, meus amigos. Fico feliz em saber que estão unidos e que continuam valorizando um ao outro.
 Seu Obrigado levanta e agradece em nome de todos ao amigo, Elogio.

E já ao findar aquele dia as pessoas que passavam por ali ouviam em várias vozes:

Bom dia. Com licença. Boa tarde. Que gentileza. Boa noite. Perdão. Por favor. Muita educação. Obrigado. Jamais percam a esperança. Que bom ouvir um elogio.


Eles continuam por aí. Às vezes se encontram, mas mesmo que separados fazem toda a diferença no dia a dia!