quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Empatia e sensibilidade


Num mundo em que muitos reclamam do capitalismo. A população entretida em inúmeros afazeres de ordem profissional, acadêmica, social e recreativa.

A tal crise financeira. O desejo de ter cada vez mais. Longos dias de trabalho. Picuinhas entre amigos e familiares. Toda uma correria “maquiada” por uma aproximação on-line.

Estamos mais próximos graças à tecnologia ou estamos nos enganando?

Em nossas aparições nas redes sociais através de fotografias, opiniões e mensagens parecemos felizes, completos e decididos.

Por que parece ser preciso ocorrer uma tragédia para nos fazer parar, pensar e usar de empatia? Nos colocar no lugar dos outros. Ou “sentir em nosso coração a dor de outro”.

Tragédias envolvendo guerras, violência contra adultos, mulheres, idosos e crianças ocorrem em todo o mundo e todos os dias. Parece que o sofrimento alheio é algo distante.

Na realidade nem sempre é assim. Esta semana uma tragédia mexeu profundamente com os sentimentos da maioria das pessoas, até aqueles aparentemente menos sensíveis.

A tragédia na madrugada de terça-feira, dia 29 de novembro de 2016 que tirou a vida de mais de 70 pessoas, entre elas a delegação com time da Chapecoense ultrapassou Chapecó, Santa Catatina e o Brasil.

O time da Chapecoense de maneira modesta e incrivelmente organizada superou dificuldades e ganhou a simpatia dos Catarinenses.

A tragédia nos fez usar além da empatia, a sensibilidade.

Não havia e não haverá como conter as lágrimas. Jornalistas tentando manter o profissionalismo, mas com olhos marejantes e voz embargada.

Homens ficaram perplexos e muitos admitiram que choraram.

De certa maneira parece que todos nos identificamos de alguma maneira; seja como filhos, pais, amigos ou simplesmente humanos.

Afinal de contas, crianças vão enterrar o pai. Homens e mulheres seus filhos.

Comentários em desespero e por falta de respostas são do tipo: “Deus quis assim”. “Era para ser assim”. “Deus tinha um plano para quem morreu e para quem não morreu ou não embarcou no avião”. “Que Deus é esse?”

As religiões continuam deixando lacunas quando o assunto é a morte e tragédias.

Solidariedade às famílias e amigos é essencial. Mas houve alguém ou alguns responsáveis?

Apurar o porquê aconteceu é vital. Se há responsáveis ou irresponsáveis esses devem ser punidos. 

Não trará de volta os que morreram, mas punirá culpados e poderá evitar outras tragédias.

Que lição ficará em nossas vidas? O que pretendo mudar na minha maneira de viver e encarar amigos, familiares, colegas de trabalho e vizinhos?

Se continuarmos a aguardar por tragédias para nos fazer refletir e nos unir haverá necessidade de mais mortes trágicas.

Mas se usarmos da capacidade de nos colocar no lugar dos outros nas mais diversas situações, sentindo suas “dores em nosso coração” vamos demonstrar – empatia.

Se nos sensibilizarmos com as pessoas em situações que não são trágicas e demonstrarmos compaixão, usaremos de – sensibilidade.

Em memória das mais de 70 vítimas, familiares e amigos podemos fazer mais do que lamentar.

Podemos nos tornar melhores!


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Fé como investimento


É difícil encontrar alguém que não tenha fé. Mesmo quando se diz não tê-la ainda assim ela é demonstrada.

Fé que seu time vai para a Série A. Fé que seu time não será rebaixado.

Fé que passará no vestibular ou no concurso público.

Fé que nosso casamento e filhos serão bem sucedidos.

Fé na teoria de que evoluímos de macacos e fé de que somos uma criação de Deus.

Fé que as coisas vão melhorar. Fé que ainda vão piorar.

Fé na chuva e no sol. Fé que a terra produz o que se planta.

Fé no dia e na noite. Fé na previsão do tempo.

Mas parece que a fé tomou um rumo um tanto confuso, incerto e talvez desvirtuado.

Numa luta, dessas que andam na moda, um lutador de cada lado faz seu gesto de fé, religioso, por vezes o – sinal da cruz.

Antes de uma partida de futebol (ou de qualquer outro esporte) tanto jogadores como torcedores rezam por seu time. Até líderes religiosos pedem por uma “intervenção divina”, a seu favor, é claro.

Até em guerras a fé aparece por meio de pedidos ou orações para ter a vitória sobre o inimigo.
Sabe lá como ficaria a “cabeça” de Deus ao ouvir esses pedidos. Será que ouve? Tomaria partido ou responderia a quem pedisse com mais fé?

A fé também parece estar ligada a investimentos. “Eu deixo parte do meu dinheiro como demonstração de fé e serei bem sucedido”. “Minha empresa irá prosperar, minha conta engordar”.

Há a fé dos que pedem coisas boas. Pedem por outros. E aqueles virtuosos que têm fé para agradecer por tudo de bom e pedir mais fé para resistir com fé os momentos difíceis.

Seja antes de pegar numa arma e partir para a guerra. Ou de partir para a pancadaria numa luta. Quem sabe no início de uma partida de futebol. E até mesmo diante investimentos comerciais a fé virou “moeda de troca”, uma espécie de “toma lá dá cá”.

As Escrituras Sagradas têm uma definição interessante para a palavra fé: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem”. Hebreus 11:1 - Versão Almeida Revista e Corrigida. Ou ainda: “A fé é a firme confiança de que virá o que se espera, a demonstração clara de realidades não vistas”. Hebreus 11:1 - Tradução do Novo Mundo.

Parece difícil viver sem fé, mas ao mesmo tempo é um desafio desenvolvê-la e mantê-la.

Algo importante é conhecer o sentido real das palavras que costumamos usar.

O que é cultura? O que é empatia? O que é imparcialidade? O que é educação?

Fé para encontrar respostas. Fé que vamos compreendê-las. Fé que colocaremos em prática.

A fé parece mesmo ser uma qualidade capaz de nos levar a bons caminhos.

Quem vai vencer; quem tiver mais fé ou quem estiver devidamente habilitado?


Haja fé para entender toda essa “confusão” sem perder a fé!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Revolta da chibata


No dia 22 de novembro de 1910 uma rebelião que envolveu 2.400 marinheiros assustou o então presidente Hermes da Fonseca.

O líder do movimento, João Cândido Felisberto, o célebre almirante negro.

A ameaça; bombardear a cidade do Rio de Janeiro, na época capital do Brasil.

O motivo; as péssimas condições de trabalho dos marinheiros. Por péssimas condições, entenda-se: baixos salários, má alimentação e castigos físicos, entre eles o uso da chibata.

A proclamação da República ocorreu no dia 15 de novembro de 1889. No dia seguinte, o então presidente, marechal Deodoro da Fonseca, por decreto, havia colocado fim aos castigos, as chicotadas.

Na prática isso não aconteceu. No final do século XIX e início do século XX tanto a polícia bem como pais enviavam a Marinha pessoas ou filhos rebeldes.

Normalmente por erros médios os marinheiros eram castigados com 25 chicotadas.

Certo dia o marinheiro, Marcelino Rodrigues tentou entrar no navio com duas garrafas de cachaça. 

Ao ser repreendido por um superior iniciou-se uma briga onde Marcelino feriu o colega com uma navalha. A punição surpreendeu até os marinheiros que já estavam “acostumados” aos castigos. 

Marcelino Rodrigues foi chicoteado diante os colegas de maneira especial, levou 250 chicotadas. O iodo era a única ajuda medicinal que recebiam os que eram chicoteados.

Acontece então a Revolta da Chibata. Uma insurreição, um levante de cunho social por subdivisões da Marinha do Rio de Janeiro.

Na época a Marinha era composta por 50% de negros, 30% mulatos, 10% caboclos e 10% brancos.

O levante durou de 22 a 27 de novembro de 1910. O presidente Hermes da Fonseca notou que não era blefe. De fato, morreram alguns marinheiros e também 5 oficiais.

Depois de muitos maus tratos, as 250 chicotadas como punição ao marinheiro Marcelino Rodrigues levou a preparação desse motim.

Hoje notamos similaridades lamentáveis.

Maria da Penha. Uma Lei criada após uma mulher sofrer agressões por mais de 20 anos, entre elas um tiro que a deixou paraplégica.

A violência contra a mulher continua. Assim como contra crianças e idosos. Sem esquecer as vitimas dos criminosos do trânsito.

Opa, a crônica/coluna não incentiva a rebelião. Rebeliões costumam ferir e matar, inclusive inocentes. A educação, a consciência, a humanidade, a empatia e o respeito tem tudo para levar a comportamentos que jamais necessitam de rebeliões.

Há poucos dias conversei com uma mulher que admitiu apanhar do marido há 40 anos. Surras, humilhações e ameaças de morte. No exato momento em que a encontrei ela estava de saída para fazer uma denúncia. Já havia feito várias. Disse que havia sido muito bem atendida pelos policiais. 
Mas nada havia mudado dentro de casa. Em nossa conversa que durou mais de uma hora e por alguns instantes fora observada pelo marido, a mulher mostrou um roxo em seu braço esquerdo e partes da roupa rasgada. Quando mostrou o ferimento no braço, disse:

“Isso não é nada, já estou acostumada”. Disse que o marido fora muito cruel com seu filho mais velho. Ela contou que certo dia sua filha disse: “A mãe tem o que merece, parece até que gosta”. A mãe deu um tapa no rosto da filha. Parece que a filha só queria dizer a mãe: “Poxa mãe, como à senhora aguenta, a senhora não merece isso, já dura muitos anos, ponha um fim nessa história, o deixe”. Essa foi minha leitura das palavras da filha.

A senhora agredida por 40 anos disse que até suas irmãs sempre a incentivaram a continuar com o marido. Diziam que ele é um bom marido e merecia seu perdão e compreensão. Uma mulher agredida ouvir isso das próprias irmãs sugere algo terrível em nossa sociedade. Machismo, tolerância exagerada ou o quê?

Não sei se dia 22 de novembro haverá lembranças da Revolta da Chibata. Talvez haja, quem sabe com outras lições. Boa leitura é aquela em que aprendemos a ler nas entrelinhas. Nos faz crescer, amadurecer. Entender que o leitor não é e não deve ser passivo.

A chibata aplicada aos marinheiros. A violência contra a mulher que levou a criação da Lei Maria da 

Penha. A violência do trânsito comprovando que não há destino, que não existe o – era para ser assim, era para acontecer.

E atenção moças que estão namorando: Ele te feriu fisicamente, verbalmente, segurou firme pelo braço demonstrando que ele pensa ser teu dono, usa drogas ou abuso do álcool e não demonstra esforços em melhorar? Cai fora. Parte pra outra. Não faltará um homem de verdade para te fazer feliz.

Nenhum de nós precisa esperar para fazer uma revolta, nunca acaba bem para ninguém.

Revolta é contra ideias e crenças que tentam enfiar em nossa cabeça. Revolta é contra ler com pouca atenção. Não ir atrás “das massas e das mídias de grandes massas” que por inúmeros motivos e por vezes não apresentam todos os fatos ou são tendenciosos.

Podemos trocar revoltas e motins por educação, estudos, imparcialidade e muito respeito.

O almirante negro, João Cândido faleceu em 6 de dezembro de 1969. Viveu o bastante para presenciar as duas principais “revoluções” do Brasil. Em 1930 e em 1964.

A chibata literal até ficou no passado, mas a “chibata” continua castigando mulheres, crianças, idosos e vítimas dos criminosos do volante.


Mas nós podemos fazer a nossa parte, e sabemos como! 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Só um toque


Era uma bela manhã de terça-feira e vários amigos estavam reunidos na barbearia.

Três clientes mais o barbeiro. As idades variavam entre 40 e 65 anos.

Todos estavam na expectativa pela chegada de Renato.

Tudo começara na sexta-feira anterior. As conversas sobre a saúde do homem, doenças, morte e falta de cuidados permeavam o diálogo que durou horas. E toda essa conversa porque Renato faria o exame de toque retal na segunda-feira.

Eletroencefalograma, ressonância, Raios-X (antiga chapa), tirar sangue, mas toque retal?

O Claudio disse que o PSA é o suficiente. O Artur comentou que o importante é saber se há casos na família. O barbeiro disse que os médicos hora falam em fazer o exame aos 50 e outros aos 45 anos e fica na dúvida.

Com a ajuda da internet dentro da barbearia verificaram que a idade indicada é aos 50 anos e aos 45 quando há histórico familiar. Mas como seria o exame? O barbeiro buscou mais informações.

Um conjunto de sentimentos tomou conta dos 5 homens que partiram para uma boa pesquisa.

Primeiro: O que é a próstata? É uma glândula que apenas os homens possuem. É pequena e tem a forma de uma maça. Fica na parte baixa do abdômen, abaixo da bexiga e a frente do reto.

Segundo: Os espantosos dados e as estatísticas. O INCA (Instituto Nacional do Câncer) informa que em 2016 são previstos cerca de 61.200 novos casos de câncer de próstata.

No Brasil os homens morrem 8 anos mais cedo que as mulheres pela falta de prevenção.

E apesar de todas as campanhas e incentivos apenas 32% dos homens fazem o exame. Mulheres, esposas e parceiras costumam encorajar os homens a fazer o exame.

O vice-diretor-geral do Inca, Luiz Felipe Ribeiro, diz que: a prevenção do câncer deve ser um tema que mobilize não apenas o governo, mas também toda a sociedade: “Esse desafio é da população brasileira como um todo. Cabe a cada cidadão fazer o seu papel para que a gente possa reverter esses quadros”.

Terceiro: Por que tantos homens têm receio do exame? Especialistas informam que o homem tem medo de ser penetrado. Penetrado, essa palavra fez Claudio levantar para tomar água. Artur pede um café. Jorge respira fundo. O barbeiro liga o rádio e está tocando uma música do Elton John.

Os psicólogos e especialistas na área esclarecem que a região anal é imensamente estimulante, ou seja, há muitas terminações nervosas que provocam prazer. E quando se trata de qualquer coisa ligada à sexualidade é comum homens e mulheres terem receio.

Ninguém poderia ler os pensamentos daqueles 5 homens, principalmente de Renato que faria o exame na segunda-feira. Ficou combinado um encontro entre eles ali na barbearia na terça-feira, logo cedo.
Que expectativa. O Renato seria o primeiro e dependendo do seu relato os outros 4 amigos tratariam logo de fazer o exame, ou não.
O dia havia chegado. Ao entrar no consultório Renato olha para o médico. Ele parece simpático, o que para a ocasião não quer dizer muito. Ou não. O doutor diz:

- Bom dia, seu Renato. Então, o senhor está com 48 anos e não tem casos de câncer de próstata na família. Bem, vamos ao exame.

Renato faz alguns breves cálculos. O médico aparenta ter uns 40 anos. Cerca de 1,8m de altura. 

Cabelos pretos, olhos verdes e parece gostar de malhar. Renato acha estúpida aquela sua avaliação, mas era quase involuntária.

O médico disse:

- Por favor, seu Renato, baixe a calça e incline-se sobre a maca. Procure relaxar. Tomou o laxante que foi indicado? Então, seu Renato, será um exame bastante rápido. No máximo 1 minuto. Enquanto mais o senhor estiver relaxado, melhor.

Renato sai do consultório entra em seu carro e vai para sua casa. Comenta com sua esposa como tudo correu bem.

Na terça-feira Renato se aproxima da barbearia e os amigos comentam:

- Vejam, é o Renato. Será que ele fez?

Renato entra rindo na barbearia e diz:

- Bom dia, pessoal. Como estão? Que dia bonito, hein.

- Você não fez o exame? – Pergunta Artur.

- Claro que fiz. Por que não faria? E tem mais. Já deixei agendada a próxima consulta. Na verdade minha esposa vai me lembrar.

- E como foi? – Pergunta Claudio.

- Tranquilo. Um médico atencioso, um exame rápido e principalmente, essencial a nossa saúde. Tive uma conversa com o médico após o exame e fiquei muito impressionado.

- Impressionado com o quê? – Pergunta o barbeiro.

- Com a importância do exame. Como somos cabeça dura por isso. Tão simples e pode salvar vidas. 

O doutor me deu os parabéns e eu perguntei o motivo do seu elogio.

- E o que ele disse? – Perguntou o curioso, Artur:

- Ele disse que se seu pai tivesse feito o exame até os 50 anos com certeza não teria morrido tão cedo. 

Disse que quando o pai descobriu o câncer já estava evoluído. O doutor me disse que tinha apenas 18 anos quando perdera seu pai, que tinha 56 anos quando morreu. E foi por isso que escolheu a medicina e a urologia.

Naquele mesmo dia os 4 amigos de Renato marcaram suas consultas e combinaram que contariam para o maior número de pessoas possíveis. Diriam abertamente nos bares, festas em família e ali na barbearia. Combinaram que falariam sobre os índices de câncer de próstata, de quantas pessoas poderiam ser salvas se fizessem o exame. A própria história do médico.

Artur perguntou:

- E quanto aquele lance das possíveis sensações, aquela coisa da região sensível, enfim, o que vamos dizer?

Vamos nos apegar a importância do exame e que ele pode salvar vidas – Respondeu Claudio.


Todos concordaram. O mais importante é a prevenção. Além do mais – é só um toque!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A distância entre Ernesto e Manoel


Manoel, filho caçula de seu Ernesto era um desses jovens dos quais se costuma dizer: Cheio de vida, planos e sem limites.

Seus cinco irmãos mais velhos pareciam ter mais em comum com o pai. Metódicos, responsáveis, prudentes.

Nesse caminho de diferentes personalidades começaram cobranças e comparações por parte de seu 

Ernesto. Na melhor das intenções o pai indicava ao filho caçula como teria maiores oportunidades e êxito caso imitasse o exemplo dos irmãos mais velhos.

As cobranças se intensificaram a ponto de “credor e devedor” não terem mais uma única conversa pacífica. A cada troca de palavras uma discussão mais acalorada. Em cada conversa uma briga que fazia crescer a distância tão rápida e sutil que nenhum dos dois notaria.

Morando na mesma casa pai e filho se viam de perto, mas se enxergavam tão longe que não parecia haver assunto entre eles; pelo menos não em algo em que concordassem.

Seu Ernesto tinha uns 54 anos e sempre fora conhecido como homem sério e trabalhador.

Com a morte do filho passou a desabafar com o barbeiro:

- Sabe rapaz. Eu acho que o Manoel não tem mais jeito. Aquele guri não me ouve. Que rapaz teimoso. Os irmãos dele são diferentes. Tanto a irmã, minha única filha mulher e meus outros quatro rapazes. Eles são responsáveis, me escutam. Tu acreditas que aquele louco do Manoel disse que vai comprar uma moto. Era só que faltava.

Manoel falava pouco sobre a difícil relação com o pai. Apenas dizia que achava o pai cabeça dura e que não apoiava suas decisões.

Outro dia seu Ernesto indignado diz ao barbeiro:

- Pois não é que o Manoel comprou mesmo uma moto. Eu já disse lá em casa que ele vai se matar com essa droga. Ainda ontem ele subiu naquela moto e saiu em disparada.

Manoel visitou o barbeiro e disse que tinha se presenteado com a moto pelos seus 18 anos recentemente completados.

Certa manhã de domingo o barbeiro caminha próximo a barbearia quando nota alguns senhores conversando de maneira tensa e se aproxima deles. Um dos senhores diz:

- Tu já soube o que aconteceu?

O barbeiro responde que não.

O senhor que fez a pergunta conta:

- Ontem à noite o Manoel, filho do seu Ernesto, morreu num acidente de moto na BR 101.

O barbeiro lembrou que no dia anterior, sábado, quando saiu da barbearia encontrou Manoel com um grupo de amigos perto da barbearia. Manoel e os amigos educadamente cumprimentaram o barbeiro e sua esposa lhes desejando um bom final de semana. Manoel era de fato um rapaz que demonstrava muita educação e simpatia.

O barbeiro foi até a casa de seu Ernesto onde acontecia o velório de Manoel.

Semanas e meses se passaram. A cada visita de seu Ernesto a barbearia a história se repetia. Seu Ernesto mal sentava e começa seus desabafos:

- Não consigo acreditar que isso aconteceu. Ele só tinha 18 anos. Nós brigávamos muito. Não havia mais papo e nem conversa, só brigas e mais brigas.
Me sinto culpado, meu amigo. Devia ter ouvido mais ele. Tinham tantas pessoas no velório e no enterro dele. Ele tinha muitos amigos. E eu não parecia ser um deles.
Por que eu não sentei na cama dele e procurei conversar mais, entender, respeitar um pouco mais o jeito dele. Isso tá me matando. Eu não aguento mais de saudade e arrependimento.

Essas conversas se repetiram por mais de seis meses. Seu Ernesto estava visivelmente transtornado desde a morte do filho. Havia emagrecido e envelhecido em meses o que era para ser em anos.

Numa manhã de terça-feira, uns oito ou dez meses após a morte de Manoel, enquanto o barbeiro abria a porta do seu salão viu uma vizinha se aproximar. Ela trazia uma triste notícia. Seu Ernesto havia morrido no dia anterior. Não fora nem doença nem acidente. A dor, tristeza, lástima, sentimento de culpa, fizeram seu Ernesto abreviar seus dias. De maneira consciente ou não foi à maneira que buscou a paz.

A distância entre eles era curta. A casa não era muito grande. Poucos passos ou metros os separavam. 
Mesmo quando se cruzavam pela casa parecia haver uma enorme distância.

Uma distância criada sem que se dessem conta. Tão perto e tão distantes.

Hoje não há mais brigas e nem desentendimentos entre seu Ernesto e Manoel. Há somente uma imagem criada na mente do barbeiro que os conhecera. Se tivessem cedido. Se tivessem falado e ouvido sem julgamentos. Se tivessem trocado toda intriga por boas conversas, risadas e abraços. 

Quem sabe a distância entre Ernesto e Manoel só lhes daria espaço para se olharem e perceberem no que mais se pareciam – fazer as coisas do seu próprio jeito.

A mesma distância que os separava em casa os separou da vida.


Mas a distância se tornou grande demais!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Spotlight: Segredos Revelados


Sabemos que a pedofilia é praticada de maneira geral por pessoas próximas. Crianças, adolescentes e pais são persuadidos a confiar nos pedófilos como se fossem pessoas acima de qualquer suspeita.

Pais, padrastos, tios, avós, amigos da família estão entre aqueles que molestam crianças causando traumas terríveis.

Cabe o ditado: “Seguro morreu de velho”. Não quer dizer desconfiar de todos, mas ao mesmo tempo não confiar demais, principalmente quando o risco é a pedofilia.

"Ah, ele ou ela jamais seria capaz de fazer isso, ponho minha mão no fogo”. Então saiba que as possibilidades de se queimar são reais e consideráveis.

O perigo também se esconde atrás de títulos de “santidade”.

O filme – Spotlight – Segredos Revelados, baseado em fatos reais, conta a história de um grupo de jornalistas do The Boston Globe que investigou, descobriu, se apavorou e publicou um artigo sobre padres pedófilos.

Na ocasião, por volta de 2001, havia pelo menos 87 padres que haviam molestado crianças; detalhe: 87 só na cidade de Boston.

Há pesquisas que segundo o filme apontam que até 6% dos padres poderiam estar envolvidos em pedofilia.

Em especial crianças de famílias carentes e pouca estrutura, dizem que veem o líder religioso como se fosse “Deus”.

“Um dia ele pede para a criança recolher o lixo. Depois conversa mais. Um dia conta uma piada obscena (agora eles têm um segredo), e por fim mostra uma revista pornográfica” (Relato de uma das vítimas no filme).

Tudo termina, ou começa, quando “o padre tira a roupa e pede para o menino o masturbar e fazer sexo oral nele”. (Continuação do relato)

Quando acontece com meninos que são ou acreditam ser homossexuais tudo parece diferente; afinal de contas eles sentem que “deus” entende e aceita sua situação. (Também relatos do filme)

O filme – Spotlight – Segredos Revelados - deve ser mais anunciado, divulgado, assistido e discutido.

Concluir que isso acontece apenas em outros países é ingenuidade.

Pensar que isso só acontece “lá longe” é fechar os olhos a uma terrível e devastadora realidade.

Quando os abusos são cometidos por lideres religiosos à coisa é agravada por vários motivos.

Primeiro: Estão entre aqueles que parecem estar – acima de qualquer suspeita.

Segundo: O medo de denunciar um “homem de Deus”.

Terceiro: A maneira como a igreja por tantas vezes oculta, esconde, transfere o padre pedófilo para outra paróquia. Já molestou aqui, ficará conhecido. Quem sabe numa cidade onde ninguém saiba. E se abusar lá se transfere outra vez...

Pais precisam alertar e conversar com os filhos. Alguns falam besteiras e contam piadas sobre sexo com amigos, mas não são capazes de ter uma conversa respeitosa, porém aberta com filhos e filhas, os alertando contra os pedófilos. Dizer o que fazer e para quem contar. Que pode ser o vovô, o papai, a mamãe, o titio, o padrasto, o melhor amigo dos pais e até um “homem de deus”.

A denuncia pode não resolver por completo, mas dará a oportunidade de se fazer justiça e talvez impedir que outras crianças venham a ser molestadas.

E a imprensa? Parabéns a imprensa. Parabéns aos jornalistas que investigam e publicam.

Jornalismo é isso, abrir temas importantes. Falar o que não parece conveniente e o que alguns não desejam ouvir.

Imparcialidade é importante sempre. Não podemos deduzir que a maioria dos lideres religiosos são pedófilos, mas o número é assustador. Mais assustador ainda é saber que os que têm poder para denunciar e punir por tantas vezes apenas encobrem.

Dizem que segredo deixa de ser segredo quando revelado.

Há segredos importantes a serem guardados e outros não.

Pedofilia, pessoas próximas e principalmente, “homens de deus” devem ser monitorados, descobertos, julgados e condenados (não transferidos como tem acontecido).

Quando conversar com uma pessoa religiosa pergunte a ela como sua igreja trata ou lida com casos assim.

Nosso papel na imprensa é dar notícias e informações. No filme Spotlight quando um líder religioso disse que é importante que a imprensa trabalhe em conjunto com instituições, ouve do editor: “Em minha opinião é melhor que a imprensa trabalhe de maneira independente”.

Pedofilia, pais e imprensa. Denunciar, divulgar e proteger. Caso contrário só haverá as lágrimas e os traumas das incontáveis vítimas desses terríveis abusos – guardadas em segredo!



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Dois jeitos de ser


Quem já sentiu a necessidade de encontrar alguém para compartilhar a vida, namorado ou namorada, esposa ou marido, talvez tenha pensado em encontrar a “outra metade da laranja”.

O que esperamos com a “outra metade da laranja”? Encontrar alguém que combina muito conosco, alguém diferente para nos completar?

Como deve ser viver com alguém que tem os mesmos gostos, desejos, manias, ambições, medos e outras coisas muito parecidas?

E como deve ser compartilhar a vida com alguém com diferentes gostos, opiniões, desejos e medos?

Amizades não costumamos idealizar. Conhecemos alguém e dependendo da “afinidade” nos tornamos amigos ou não. Ainda assim é comum discordarmos em algumas coisas e opiniões de nossos amigos.

Casar com alguém muito parecido pode fazer com que ambos queiram seguir “os mesmos caminhos” e falte alguém para colocar um “freio”, para não agirmos por impulso em situações em que seria necessário um ponto de equilíbrio.

Um é muito ousado, “mete a cara” e pronto, não tem receio de que suas decisões deem errado. Pode até parecer um tanto irresponsável, ou é simplesmente ousado.

Alguém que pense diferente pode completar uma relação de maneira especial.

Ter como parceiro na vida e da vida alguém que pare e pense e que ajude a avaliar melhor as decisões sem precipitações deve ser bom.

Deve ser também complicado alguém muito melindroso, aquele ou aquela que acha que nada nunca vai dar certo e costuma ser um “freio de mão sempre puxado”.

Entre as “duas metades da laranja” que completam uma relação a “outra metade” pode ser parecida ou diferente.

Ser parecidos deve ter benefícios ou vantagens e desafios. Ser diferentes também.

A poesia na música de Peninha: Matemática; aborda uma relação “da outra metade da laranja” quando ela é diferente e feliz.  A essência da canção diz:

"Você ama matemática eu adoro português, me arrependo do que fiz e você do que não fez, eu preciso de silêncio e você de multidão, dois jeitos de ser, um só coração; é, e é por tudo isso que está dando certo, melhor coisa do mundo é ter você por perto... sou a pessoa mais amada da cidade”.

Então sempre que ouvirmos um amigo ou amiga se queixando do marido ou da esposa, de que ele faz e pensa assim, ela diz e pensa diferente, é a “outra metade da laranja” se expressando.

O problema, se é que há problema, talvez seja não termos percebido que essas “diferenças” podem justamente ser a essência, a elegância e a segurança de uma boa relação.

Sugar o melhor dessa “laranja” pode ser bem mais saboroso se valorizado em vez de criticado.

Saborear essa “diferença” pode nos ensinar em vez de nos irritar.

Aprender e compartilhar com essa “metade da laranja” nos fará vê-la como inteira, afinal de contas quando a conhecemos já éramos inteiros, talvez apenas não tivéssemos percebido e só percebemos graças a essas maravilhosas diferenças.


Dois jeitos de ser não precisa impedir de unir e de amar!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Barbearias


Quantos desabafos já aconteceram. Quantas revelações familiares já foram expressas.

Quantos conselhos já foram dados ou solicitados. Quantos pais “babaram” ao presenciar o primeiro corte de cabelo de um filho. Quantas vezes se discutiram assuntos que muitos dizem que não se discute: futebol, política e religião; espaço democrático.

Quantas crianças se tornaram adultos tendo como cúmplice de seus altos e baixos a barbearia.

Quantos chegavam a todo vapor e hoje entram com as dificuldades impostas pela idade avançada. 

Quantas vezes se faz um último atendimento sem o saber.

Não há quem não tenha histórias vivenciadas em uma barbearia.

Na quinta-feira, dia 10 de outubro de 1996, iniciei na profissão e lá se vão 20 anos. Calculo mais de 50 mil atendimentos.

Amizades, experiências, troca de conhecimentos e um caminho para a comunicação, e poderia haver lugar melhor para praticá-la?

Do homem que só depois de cego realizou o sonho de conhecer o Pantanal e conheceu sua beleza através dos olhos do filho que lhe contou cada detalhe.

De um menino de 4 anos que havia sido retirado da casa dos pais naquela manhã e chorava copiosamente enquanto eu o atendia. Perguntei aos funcionários da casa lar por que havia sido retirado de casa. Responderam que por maus tratos. Com um mandado judicial a criança fora resgatada do sofrimento. Em ignorância perguntei o porquê chorava tanto se agora estava livre dos agressores e das carências. O óbvio: Era uma criança de 4 anos, preferia estar com os pais mesmo apanhando e com fome.

De pai e filho que viviam em discussão, pé de guerra, sem diálogo. Um dia o filho comprou uma moto. As brigas aumentaram. Um mês depois o filho morreu num acidente com aquela moto. O pai passou a se culpar. Se culpar porque nunca havia conseguido ter uma conversa pacífica com esse filho de 18 anos. O pai ficou deprimido. A situação piorou. A cada visita a barbearia se esforçava em segurar as lágrimas diante um evidente remorso. Meses depois ele se matou.

De um senhor de mais de 80 anos que falava de seus pelo menos 11 filhos com os quais nunca havia convivido. Contou que um dia um rapaz, um de seus filhos o procurou. O chamou no portão e se identificou. O senhor, frio como sempre fora nem sequer convidou o filho para entrar. E não era por insegurança, ou medo de assalto. Disse que não queria nem saber de contato com os filhos, nunca quis.

De pais viúvos ou divorciados que cuidam dos filhos de maneira especial. São pai e mãe.

Um padrasto tão bondoso que o enteado preferiu ficar com ele em vez de com a mãe biológica após a separação. A mãe era “só biológica”, ele era pai. Por isso nunca gostei do ditado: “Deus é pai não é padrasto”.

De mães que ainda jovens confiaram no namorado e acabaram grávidas. Hoje criam filhos sozinhas. Seus sonhos se tornaram uma cruel realidade. A benção de ter um filho e os desafios de criá-lo sozinha. Alguns nem pagam pensão. Outros jamais visitam os filhos ainda que o possam.

Do pai que se culpa por insistir em um passeio ao qual o filho não queria acompanhar. O filho acabou aceitando e num mergulho ficou paraplégico.

Do homem que tinha vergonha de ir a um urologista para tratar um problema nos testículos até que um dia soube que um dos clientes que aguardavam era urologista. O homem saiu da cadeira do barbeiro, baixou o calção e o exame ocorreu ali mesmo. Visão infernal. Mas por uma boa causa.

As brincadeiras e os foras são inevitáveis. Cheguei a convencer um cliente chegado a uma pinga que ele era um lobisomem. Depois ele perguntava se eu tinha contado para mais alguém.

O dia em que achei que o cliente que atendia fosse um “tanso” por não entender o que eu dizia. É que eu começara a conversa com um cliente que já havia saído e eu mantive a mesma conversa sem notar que já era outro cliente na cadeira.

Há tantas histórias que escrevi livros e há quase 8 anos mantenho crônicas semanais.

Nos últimos anos as crônicas tomaram um rumo diferente. Não são mais apenas histórias de barbearia. Caminhei por uma estrada onde o caminho se mostrou diferente do que imaginava. Passei a escrever, criar, contar, compartilhar e informar. Livros, colunas, crônicas, contos, artigos, programa de rádio com entrevistas e o nome – Na cadeira do barbeiro. Está aí um lugar que deixa as pessoas à vontade. Confiando no barbeiro se compartilha muitas histórias. Barbeiros costumam ter fama de fofoqueiros. Quase de tudo se comenta ali.

Com o tempo peguei o caminho mais próximo de todos nós; nossos sentimentos, ambições, frustrações, desejos, conhecimentos, opiniões, arrependimentos, sonhos e deixei “a cadeira do barbeiro criar asas”.

Da próxima vez que sentar numa cadeira de barbeiro saiba que há ali muitas histórias de vida e a sua pode ser uma delas.

No Portal Instituto Caros Ouvintes Para Pesquisa e Estudo de Mídia há cerca de 200 publicações entre crônicas, artigos e entrevistas.
Em meu blog: http://deivisonnacadeiradobarbeiro.blogspot.com.br/ Também há centenas de publicações.

Um amigo um dia me perguntou se é difícil escrever. Hoje entendo que é um desafio e uma necessidade. Desafios gramaticais e de conteúdo. Necessidade tal como um vício de expressar em crônicas e artigos temas que fazem parte do nosso cotidiano e entendo por relevantes.

A arte da comunicação consiste em primeiramente ouvir, depois falar e escrever.

Tudo isso e mais um pouco acontece bem aqui – Na cadeira do barbeiro!




quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Superativo ou hiperativo?


Desde que comecei a publicar minhas crônicas em 2009 vários personagens reais delas e outros me perguntavam por que eu não contava histórias minhas. Conto sim. Sempre contei.

Relatei minha primeira consulta com um proctologista. E para alegria de alguns e inferno de outros me comprometo a escrever sobre meu exame de próstata que deve ocorrer até o ano que vem.  

Prometo judiar meus leitores com os mais terríveis detalhes. Bom, pelo menos se o médico não for tímido.
O jornalismo tem por obrigação e ética profissional a preocupação de levar a sociedade, as pessoas, notícias e informações que de preferência sejam relevantes.

Acontece que algumas vezes o assunto que vamos abordar é algo que sentimos na pele e talvez por isso mergulhamos mais a fundo. Quem dera sempre fosse assim, independente de sentirmos ou não na pele.

Permitam uma explicação. Não pare de ler, embora pareça confusão, faz parte da explicação.

Amigos me diziam: “Poxa, que cabeça boa você tem, faz tantas coisas ao mesmo tempo”."Como consegue conciliar a barbearia, publicação dos livros, colunas em jornais, blog, crônicas no Caros 

Ouvintes, produzir e apresentar um programa de rádio, cuidar da família, do lado espiritual, com enxaqueca e ansiedade?”. “Coitada da tua esposa, eu não queria ser ela, não deve sobrar tempo”. 

“Sinto até vergonha de falar contigo, não faço nem um terço do que tu fazes e já acho que é demais, te admiro”. Comentários de amigos de diversas áreas.

Procure ouvir uma mente hiperativa: “Tenho que comprar... pagar... escrever... essa ideia parece boa... preparar uma palestra... consertar o carro... ah, a porta do banheiro lá de casa... tenho que ligar para meu próximo entrevistado... elaborar perguntas... preciso visitar novos apoiadores culturais... fazer uma reforma na barbearia e conferir esse novo corte... visitar meus pais... marcar minha consulta... será que vou lançar meu...”.

Num ritmo simplesmente alucinante. Em alta velocidade. É assim que funciona a cabeça, a mente de quem sofre de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade); claro que a relação logo ali em cima é reduzida, multiplique por 10 ou por 50 que não será exagero.

Os dois lobos frontais são as partes do cérebro menos desenvolvidas nos hiperativos.

Substâncias importantes são pouco ou lentamente produzidas em quem tem TDAH.

E note algumas das funções desses dois lobos frontais e das substâncias necessárias: Atenção, tomada de decisões, organização, resolução de problemas, planejamento, consciência e controle de emoções.

Pesquisas mostram que TDAH não é uma “doença”, que se adquire, se trata e se cura.

O TDAH é uma síndrome, um conjunto de fatores.

Já foi dito que pedir para quem sofre de hiperatividade se concentrar ou se organizar é o mesmo que pedir a uma pessoa que sofre de miopia se esforçar em ler sem os óculos.

Sofro de enxaqueca há 30 anos. Dores quase diárias. Lembro que em 1999 fiquei uma semana inteira sem dor. Nem penso mais em cura e não gosto que me mandem matérias sobre o tema, ainda que o façam com boas intenções. Convivo com a dor.

Há dois anos faço tratamento para o transtorno de ansiedade e no início desse ano recebi do meu psiquiatra a notícia, após cautelosa avaliação, de que tenho certo grau de TDAH.

Então aqueles elogios sobre eu ser um cara superativo, ótima memória, grande disposição, ousado, cheio de objetivos, saber conciliar bem meu tempo; veio por água abaixo.

Bom, pelo menos em parte. Toda essa agitação mental que me acompanha desde sempre foi explicada.  Não pode ser usada como desculpas ou justificativas, mas entendi o motivo de mergulhar em tantas coisas ao mesmo tempo. De me dar mal nos estudos, ser reprovado, ter dificuldade em prestar atenção, ser impulsivo, ofender sem perceber, aprender com mais facilidade estudando sozinho e do meu jeito.

Da barbearia fui aos livros de crônicas e depois a um romance. Ao mesmo tempo comecei a escrever as colunas de jornal, crônicas em meu blog, Caros Ouvintes, produzir e apresentar um programa de rádio.
Quando me dei por conta já estava com meu registro profissional de jornalista. Cheguei à comunicação com constantes estudos e práticas e nem penso em pegar um diploma; apenas continuo estudando.

A hiperatividade no adulto é descrita como a dificuldade em ficar parado. Em alguns se manifesta em atividades gerais, trabalhos, esportes e assim por diante. Pensamos em tudo e praticamente ao mesmo tempo. Não concluímos tarefas nem pensamentos. Há um constante engarrafamento de ideias, pensamentos.

Existem atividades estimulantes que podem acarretar prejuízos graves como: abuso de álcool, drogas, busca desenfreada por sexo, compulsão alimentar, dirigir em alta velocidade, atividades de risco, mergulhar no trabalho e outras igualmente perigosas.

Necessidade de troca de estímulos: troca incessante de emprego, términos abruptos de relacionamentos e não terminar cursos.

Para quem descobre o TDAH tardiamente, ou seja, na fase adulta, é também recomendado procurar terapia: Cognitivo comportamental para ajudar a desfazer crenças que já se instalaram em seu sistema de crenças; quanto a suas habilidades e capacidades.

Ser ativo é bom. Superativo talvez até seja, dependendo das circunstâncias. Ter TDAH, ou hiperatividade nunca é bom. O hiperativo sofre e inclui no seu sofrimento sem perceber as pessoas mais próximas.

Se notar seu filho (a) com mais de 6 anos com características hiperativas faça uma avaliação psiquiátrica. Se for adolescente não perca tempo. E se for adulto pode parecer tarde, mas há uma luz no fim do túnel. Descobrimos o porquê de muitas de nossas dificuldades. Iniciamos um tratamento e vamos levando a vida. Não existe multa para uma mente em alta velocidade, mas pagamos um preço alto por isso. Trabalho, relacionamentos amorosos, família, estudos, amizades podem ser comprometidos.

Buscar a opinião de um bom profissional da saúde, apoio da família e a decisão de fazer a nossa parte é essencial.

A mesma angustia que nos atormenta produz ideias e projetos que poderiam ser melhor planejados e executados se não tivéssemos essa dificuldade imposta pela hiperatividade. Levei tempo para admitir, pois mesmo já em tratamento tentava me convencer que deve ser frescura, coisa da minha cabeça.

Ajuda profissional é indispensável. Se for pesquisar escolha fontes confiáveis.

Ainda sonho um dia “aterrissar”. Imagino como deve ser assistir a um filme, ouvir uma música, admirar uma paisagem sem ser atropelado por inúmeros pensamentos, ideias e projetos.

E se um dia isso acontecer e eu não for atropelado pelos pensamentos em velocidade alucinante talvez passe a escrever sobre essa nova sensação. Ou seja, por mais que creia no tratamento até nesse momento de paz abriria caminho para soltar a imaginação e escrever sobre isso.


Caso contrario é porque eu estaria realmente curado. Curado de quê?

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Bicão com classe


Por vezes os amigos Marcelo e Tomaz não eram convidados para festas de colegas do bairro. 

Enquanto Tomaz reclamava por não ser convidado, Marcelo não perdia tempo, muito menos uma festa, com ou sem convite.

 Marcelo chegava rindo como se fosse um convidado de honra. Tomaz já entrava no local da festa com o rosto vermelho e trêmulo com a possibilidade de serem expulsos e assim humilhados em público. Tomaz sempre se impressionava com a ousadia de Marcelo. O bicão entrava no salão ou na casa onde acontecia a festa, cumprimentava as pessoas, comia, bebia, ria e dançava. Tomaz não aproveitava nada, só imaginava o dia em que alguém notasse que eram bicões e os expulsassem.

Num belo dia de sábado foram passear na cidade de Antônio Carlos. Ao final da tarde notaram uma grande movimentação e Marcelo logo tratou de se informar. Era um casamento. E a pessoa que falou fez questão dizer que seria um baita casamento, um festão. Pudera. Casamento estilo interior, com direito a incluir um boi, porcos, frangos e muita bebida, além de música; bota festa nisso, afirmou Marcelo.

Tomaz segurou Marcelo pelo braço e tentou convencê-lo de que não era boa ideia. Que embora fosse festa grande e com muitos convidados era uma cidade onde todos se conheciam, não daria certo, não ali. Marcelo argumenta que não seria a primeira e nem a última, e que tudo daria certo como sempre.

Eles foram entrando e ficaram impressionados. Havia carne de boi, de porco, frango, maionese, polenta, palmito, cerveja, refrigerante e muito mais. A festa era animada por uma banda que fazia o mais tímido sentir-se um verdadeiro pé de valsa.

Os dois amigos se acomodaram com facilidade, parecia até que aquela mesa estava reservada para eles. A comida e bebida liberada faziam Marcelo comer sorrindo. Tomaz estava começando a entrar no clima quando nota os noivos se aproximando de cada mesa para cumprimentar os convidados.

Ele diz em voz baixa, mas com tom de pavor:

- Meu Deus, Marcelo. Olha lá. Os noivos vão chegar a nossa mesa, o que vamos fazer?

Marcelo, que estava quase terminando o segundo prato, disse:

- Fica calmo, rapaz. Comeu bem?

- Eu ia começar, mas e os noivos? Meu Deus, que vergonha.

- Fica frio, Tomaz. Talvez até passem direto.

Quando Marcelo passa a mão sobre a barriga satisfeita de comida e cerveja o noivo chega sozinho a mesa dos amigos penetras. Tomaz se levanta apavorado. Marcelo passa lentamente o guardanapo na boca e levanta com impressionante calma.

O noivo, com muita calma e educação, aproxima-se dos dois e diz:

- Prestem atenção. Essa é uma festa de casamento, do meu casamento. Aqui há familiares e muitos amigos, mas todos convidados. Não me parece ser o caso de vocês.

Tomaz sente vontade de sair correndo, mas teme desmaiar. Sabia que um dia isso aconteceria e havia chegado o dia.

O noivo diz gentilmente:

- Se já terminaram de jantar, por favor, saiam numa boa, sem problemas.

Vários convidados olham curiosamente, mas não ouvem o que o noivo diz.

Marcelo faz questão de sair com classe da situação e diz em voz alta para que os convidados ouçam:

- Foi uma grande honra estar nesta festa. Tudo está muito lindo e o jantar maravilhoso. Veja as expressões dos convidados. Peço perdão, mas meu amigo e eu precisamos ir, não vamos nem poder esperar pelo bolo. Desejo felicidade a esse lindo casal. Sinto muito, mas realmente precisamos ir. Boa noite!

Quando se aproximam da porta um dos garçons diz:

- Pena que tenham que sair tão cedo. Ouvi suas palavras. São os convidados que demonstraram mais classe até agora. Faço questão que levem alguns doces e um bom pedaço de carne!

Tomaz, tomado de uma confusão mental, vergonha e vontade de matar Marcelo, diz:

- Você ouviu o que o noivo disse? Viu o que aconteceu?

Marcelo responde ao amigo com entusiasmo:


- Sim. O noivo foi extremamente educado e discreto. O garçom muito gentil. Gosto de festas assim. Quanta classe, hein!