quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ausente ao funeral


Para quem fala do assunto com tranquilidade não sentirá receio na sequência dessa crônica.

Já os mais receosos talvez digam: “Tá é louco, que assunto hein”.

Escrevi uma crônica há mais de um ano com o tema – Deitado, nem morto; baseada num costume em certa cidade americana onde a Lei municipal permite a família, respeitando o desejo do finado de ser velado fora do caixão. Vale numa rede ou cadeira de balanço, numa moto Harley- Davidson, na cadeira a beira da mesa com uma lata de cerveja à frente, enfim, o que a pessoa mais gostava de fazer em vida. Ah, vale ressaltar que a Lei proíbe em posições imorais.

Como o assunto é morte e a necessidade de doação de órgãos é grande chegamos ao tema – Ausente ao funeral.

Particularmente nunca gostei da ideia de ser colocado num caixão, nem vivo e nem morto. Também não digo que teria o desejo de ser velado fazendo o que gosto; com tesoura e navalha nas mãos, com o computador sobre as minhas pernas como costumo escrever ou próximo a um microfone realizando uma entrevista ou apresentando um programa de rádio.

Por anos deixei minha família avisada de que sou doador de órgãos, mas tive outra ideia.

Que tal ir para a faculdade ou a universidade assim que encerrar a carreira de barbeiro e jornalista? 

Uma vaga garantida na UFSC, e saber que poderei ser útil à medicina, a ciência.

 E melhor de tudo; escapar do caixão, flores e a sogra rezando ao meu lado. E tem mais, sem trabalho para a família arrumar lugar para deixar essa beleza de corpo ou mesmo os gastos com a bendita cremação.

Assim que estiver com tudo decidido vou avisar a família e aos amigos que não se assustem se chegarem ao meu funeral e não virem a tal urna, não a eletrônica ou a eleitoral, o famoso paletó de madeira, flores e toda estrutura em volta.

Estou pensando seriamente em entrar para a universidade. Por que parar de trabalhar depois de morrer? Trabalho sem esforço, sem levantar cedo em dias frios, livre da labuta nos dias quentes de verão. E continuar a fazer algo de útil, ainda que não veja e nem sinta. Cardiologistas, neurologistas, urologistas, proctologistas; nem esses dois últimos causarão calafrios.

Quando alguém lembrar e perguntar por mim, dirão: Está na universidade. Grande colaborador de professores e alunos de medicina. Quem sabe esse corpo venha a ajudar na descoberta de mais curas, melhores tratamentos.

O tema pode parecer um tanto indigesto. Pode parecer ironia com coisas sérias, mas jornalismo é assim; fazer pensar, levantar temas e assuntos.

Fui bem atendido por telefone e informado que a pessoa interessada pode ir até a universidade e preencher um documento, e claro, avisar a família, ela terá plenos poderes quando nós não mais tivermos.

Pode-se velar a pessoa e depois enviar o corpo. Ou pode-se enviar o corpo pra lá assim que se confirmar o óbito. Corpo inteiro, com todos os órgãos.

 Nesse caso vejo vantagens. Sem caixão e sem despesas. Sem um velório de horas e horas. Talvez e dependendo das crenças um discurso fúnebre. Pediria a um amigo que dissesse algo sobre a minha pessoa, sobre o que creio e minhas convicções espirituais.

Pessoas rindo e falando das minhas gafes, que não são poucas. Quem sabe alguém chorando nem que seja para fazer um grau. Boas músicas. Não estarei ouvindo, mas deverá ser legal.

Aqui entre nós, se discutem tantas bobagens. A vida alheia, por exemplo. Temas exaustivos não faltam na mídia. Será que isso não é importante? Cabe a cada um responder e decidir, mas é fato que queremos e precisamos do avanço da ciência e medicina.

Então, se eu estiver ausente no dia do meu funeral (do qual não tenho pressa), não pense que estou atrasado, que estou no trânsito, ou que me esqueci; talvez tenha mudado de hábito e profissão.

Ainda não está definido, mas possivelmente partirei da barbearia e do jornalismo para a medicina, pelo menos como colaborador.

E admito, gostaria muito de escapar no meu funeral!



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Arma com porte e registro


Em tempos de violência, assaltos e impunidade muitos discutem a liberação do porte e uso de arma de fogo.

Se haverá a liberação ou não é motivo de debates e discussões nas rodas de amigos. Ainda assim somos portadores de uma “ferramenta”, um membro, ou uma “arma” da qual temos liberdade para usar dentro de casa, no trabalho, em festas, templos religiosos e até no churrasco com amigos.

Ela nasce conosco e ao primeiro tapinha que tomamos na vida, pelo menos na maioria dos casos, e já abrimos a boca mostrando nossa “faca”, “espada”, “pistola”. E daquele dia em diante a usamos para quase tudo na vida. Para avisar da fome, da necessidade de limpeza ou mesmo de pura birra.

Assim como armas são usadas em algumas situações para salvar vidas de inocentes, armas similares são usadas para o mal, com a intenção de ferir, amedrontar e até matar.

Nossa língua tem todo esse potencial, dificilmente alguém duvidaria.

Afinal de contas, quem de nós já não foi consolado com boas palavras em momentos difíceis?

E quem de nós já não teve a triste experiência de ouvir palavras como que disparadas de maneira cruel nos momentos mais complicados da vida?

Já que temos nosso “porte e registro” dessa poderosa arma poderíamos fazer como quem usa uma arma de fogo: Praticar. Mirar o alvo certo. Atirar na hora certa e com a intenção certa. E principalmente saber quando não sacá-la.

Simplesmente falar o que nos vem à mente e dizer que: “Eu sou assim mesmo, falo o que penso e não quero nem saber, é o meu jeito”, pode até parecer direito nosso, mas o que revela sobre a nossa perícia no uso de nossa “arma legal”?

Frases importantes: “Palavras impensadas são como golpes de uma espada...”. Provérbios 12:18. 

Dizer o que bem pensamos sem levar em conta se estamos certos ou errados é no mínimo inconsequente.

Quantas brigas poderiam ter sido evitadas, quantas vidas poderiam ser poupadas com o simples ditado: “Quando um não quer dois não brigam”. Frase sábia: “Uma palavra branda acalma o furor, mas a palavra dura atiça a ira”. Provérbios 15:1

Até na arte de conquistar coisas realmente importantes e da maneira correta ela pode ser usada: “Com paciência pode-se convencer um governante, e a língua suave pode quebrar um osso”. Provérbios 25:15

Nos filmes de faroeste assistimos homens sacando suas pistolas e o mais rápido vence o adversário. A perícia em sacar a arma, de mirar e atirar impressiona.

Hoje, como portadores de nossas “armas” poderíamos usar de perícia, bom senso e respeito ao próximo. Poderíamos avaliar o modo como falamos, como sacamos (abrimos a boca), como miramos (o que pretendemos com nossas palavras) e o tiro certo (como a bala/palavra afetará a pessoa atingida).

Por vezes não mostramos perícia nem quando a usamos para defender a quem amamos. Dizemos coisas que normalmente não diríamos. Usamos de argumentos que nem a nós convenceria, mas simplesmente a usamos.

Parece que muitos demonstram uma “certa perícia” em certas épocas do ano, no final do ano, por exemplo. As palavras de calor humano, de desejos de saúde, sucesso, paz, fraternidade e outras “disparadas” com sinceridade ou só por educação. Naqueles últimos dias do ano parece que somos peritos em usar nossa arma mais poderosa, mas e nos outros 11 meses do ano?

A arma continua ali. Muitos de nós a olhamos diariamente, até sua higiene fazemos. O detalhe é fazer bom uso dela não só para evitar brigas, mas para manter a paz. Não apenas como um amargo remédio, mas como uma cura.

Está aí uma arma que todos nós usamos mal vez por outra. A palavra falada ou escrita tem poder. 

Nem sempre vamos ouvir palavras que só nos agradam, afinal de contas há remédios que são amargos, mas necessários. Ainda assim com a intenção correta e muita atenção nossa arma companheira pode nos fazer sentir bem por usá-la para o bem.

Aliás, o único que pode nos multar ou nos cassar esse “porte” seremos nós mesmos por ferir e afastar desconhecidos e amados.

Podemos curar ou matar com nossa “arma” pessoal e legalizada.

Melhor pensar duas vezes antes de sacá-la da próxima vez; talvez nem a usemos!







quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A fotografia


Era por volta do ano de 1995. Eu estava em uma agência bancaria no bairro, Estreito, Florianópolis, havia uma grande fila que mal parecia se mover. Contas e depósitos me faziam ficar muito concentrado nos detalhes. De repente, olho para frente e observo um rapaz com os olhos fixos em mim.

Acenei com a cabeça acreditando o conhecer de algum lugar, sabe Deus de onde.

Voltei atenção às contas a pagar e depósitos a fazer.

Quando levanto a cabeça o rapaz está a minha frente e sorrindo. Definitivamente não me lembrava dele, mas educação e simpatia não fazem mal a ninguém, pelo contrário.

Bastou eu dizer oi e ele seguiu a conversa:

- E aí, rapaz, tudo bem?

Tentei lembrar dele; quem sabe do colégio, Cabral, CEPU, Escola Técnica; nada, não lembrava. 

Resolvi manter a gentileza e mantive a conversa:

- Estou bem, obrigado. E tu, estás bem?

- Ah, estou bem, na luta de sempre. Essa fila não é novidade, mas hoje está demais.

Ele me olhava como se me conhecesse bem e continuou nossa conversa:

- E teus pais, estão bem de saúde? Sinto saudades deles.

Agora eu estava mais assustado, como ele poderia conhecer até meus pais e eu não lembrar dele.  Senti vontade de dizer que ele deveria estar me confundindo, mas havia várias pessoas na fila que ouviam nossa conversa e tive receio de constrangê-lo. Confirmei que meus pais estavam bem e mantive o papo, perguntando:


- E teus pais, estão bem de saúde, estão aposentados?

- Estão aposentados sim e a saúde, razoável.

A fila começava a se movimentar e parecia que alguns que nos olhavam até perguntavam por que ainda não tínhamos trocado um abraço, afinal de contas, era ou parecia o reencontro de velhos amigos. Pensei que já era hora de dizer que havia algum engano, que ele havia me confundido com alguém. Quem sabe se com jeito eu perguntasse seu nome dizendo que havia esquecido, ele perguntaria o meu e veria por conta própria seu engano.
Quando eu ia perguntar seu nome mais uma surpresa do meu “velho conhecido”.

- Ah, eu já ia me esquecendo. Tenho uma fotografia nossa, está em minha carteira, só um instante que vou pegá-la.

Dessa vez quase tive certeza de estar sem memória. Claro que ele me conhecia, tinha até uma fotografia nossa. Pronto, ele estava certo e eu doido. Ele tirou a fotografia da carteira e com o indicador direito apontaria para minha imagem na foto. Gelei. Que loucura. Como podia não me lembrar dele se até uma fotografia comigo ele tinha? Ele baixou a foto e me perguntou:

- Quando foi mesmo que tu destes baixa do exército?

A coisa só piorava. Quem estava louco, eu ou ele? Eu nunca servi o exército. Se eu estivesse mesmo na fotografia teria que procurar por um tratamento psiquiátrico urgente. Ele me mostrou a fotografia e apontou para ele, rindo. Em seguida nós dois procuramos minha imagem na fotografia. Eu olhei os cinco militares e não me reconheci em nenhum deles. Antes que ele notasse isso apontou para um deles e disse:

- Que loucura o João, hein. Cometeu suicídio um mês depois de dar baixa. Mas não estou te encontrando. Claro, desculpe amigo. Quando tiramos esta fotografia tu já havias dado baixa, acho que uma ou duas semanas antes. Lá em casa tenho uma em que estamos juntos. Ainda trabalha no mesmo lugar?

Perplexo com sua convicção e com pena de desagradá-lo, disse que sim, que trabalhava no mesmo lugar. Não sei de que mesmo lugar ele falava. O rapaz estendeu a mão e eu também. Depois ele sorriu e nos abraçamos. Ele foi se afastando e falando ao mesmo tempo:

- Foi bom te reencontrar. Vou dizer aos meus pais que estás bem. Por favor, mande um abraço para os seus. Assim que achar nossa fotografia levo pra ti. Abraço!

Já estava chegando a minha vez de ser atendido. Até hoje penso numa razão para aquela situação. Um reencontro de quem nunca havia se visto antes. Memórias do quartel que nunca frequentei. A prova na fotografia em que eu não estava. Não o constrangi e nem o deixei magoado. Ele fora embora com a sensação de ter encontrado um velho amigo e eu consegui não deixá-lo constrangido com seu equívoco.

 Mas confesso que fiquei curioso em ver a outra fotografia. Sabe lá!


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Alberto e a viúva


Alberto nunca foi bom com as palavras. Não era incomum olhar para uma mulher com uma barriguinha um pouco evidente e perguntar:

- Está de quantos meses? É menino ou menina?

- Não estou grávida!

Os foras não paravam por aí:

- Oi Ana. Esse é o teu filho mais velho?

- É meu namorado!

 Ao andar com um amigo na rua viu uma senhora e disse:

- Olha lá, Rogério. A vovó vai atravessar a rua sozinha. Coitada.

- É a minha esposa, Alberto.

Por essas e outras Alberto começou a ficar mais calado. Certo dia um amigo de trabalho, o Claudio, disse que o Mário havia morrido. Imediatamente, Alberto lembrou de seu ex vizinho, Mário. Homem trabalhador, cara divertido.

Claudio ainda salientou que Mário andava muito doente havia anos. Estava sofrendo o que chamou de inferno. Na verdade Mário foi libertado de uma agonia, uma prisão, afinal de contas, viver com dores e dependendo da ajuda dos outros, era um inferno mesmo. No fundo, sua esposa deveria ficar até aliviada.

Alberto ouviu tudo aquilo e pensou em Lígia, esposa ou agora, viúva de Mário. Queria poder consolar a pobre viúva. Mas como? O que dizer? E se falasse besteira? E em dar fora Alberto era especialista.

Por duas vezes Alberto viu Lígia e atravessou a rua só para não ter que falar do finado. Não estava pronto para o importante consolo.

Certa noite Alberto parou e pensou. Pensou que já era hora de aprender a se expressar sem falar bobagem, usar bem as palavras. Resolveu treinar sozinho, de frente para o espelho.
Imaginou Lígia. Lembrou de como Mário era e de quanto estava sofrendo. Lembrou das palavras de Claudio. Mário estava livre do inferno que vivia, de todo o sofrimento, da agonia, de uma rotina terrível. Pronto. Já poderia consolar a viúva e não falar besteira. Pelo menos uma vez na vida.

No dia seguinte encontrou Lígia e dessa vez não desviou. Aproximou-se, respirou fundo, e olhando em seus olhos, disse:

- Bom dia, Lígia. Estava há dias para falar contigo. Na verdade pensei muito bem no que deveria te dizer. Por favor, preste atenção a cada palavra minha e veja a sua real situação.

O Mário não merecia o que vinha passando. Um cara do bem, trabalhador, divertido. Ele estava sofrendo demais. Aquilo não era mais vida, era tortura. Imagine a frustração dele. Sua agonia e rotina. Se é que existe esse tal de inferno é o que o pobre do Mário vivia. Agora está livre e em paz.

Lígia ouviu perplexa as palavras de Alberto. Depois de balançar a cabeça olhou bem para ele e disse:

- Cachorro, sem vergonha, nojento. Você é igual ao Mário ou até pior. Aliás, vocês são todos iguais, não valem o que comem. Eu quero mais é que você vá para o inferno e mais, quero que o Mário... 

Melhor eu parar por aqui. Seu idiota!

Alberto ficara perplexo com as palavras de Lígia. Como podia ser tão dura diante palavras consoladoras. E pobre do Mário, não basta o que sofrera. Que tipo de mulher falaria assim?

No dia seguinte assim que chega ao trabalho encontra o amigo, Claudio. Ele o chama e diz:

- Claudio. Não vai acreditar no que aconteceu ontem. Encontrei a mulher do Mário e falei com ela. 

Não vai acreditar no que ela me disse.

Claudio respirou fundo e falou:

- Alberto, não dá pra esperar que ela esteja feliz e calma. Afinal de contas o que o Mário fez foi uma cachorrada sem tamanho. Uma mulher como ela, trabalhadora, linda e educada. Descobriu que o 

Mário a traia há mais de 10 anos. Várias amantes e 2 filhos fora do casamento. Gastava dinheiro até em noitadas. E pior, ele teve a cara de pau de dizer pra ela que ele vivia numa horrível rotina, numa agonia, que sofria ao seu lado, que sua vida era um inferno – Claudio continua seu desabafo:

Dá pra imaginar? A mulher descobriu que o marido é um baita safado e ainda ouve tudo isso. Pobre da Lígia.

Sem entender mais nada, Alberto perguntou:

- Claudio, tu não me disse que o Mário havia morrido?

- Sim, morreu. Mas falei do Mário da dona Soninha. O pobre estava muito mal. O Mário da Lígia é que é um safado e está bem vivo. Ainda bem que você a consolou. Afinal de contas, o que disse a ela?

- Eu? Bem, eu disse o que se diz numa situação dessas. Enfim, falei algumas coisas.


Alberto se afasta de Claudio pensando na pobre Lígia. Ele esfrega a mão na testa e fala baixinho: 

Droga. Consolei a viúva errada!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Elas por eles


Machismo ou feminismo, o que mais interfere de maneira negativa nos relacionamentos?

Que ambas interferem não é novidade. Novidade pode ser ouvir, escutar e entender o significado de: feminismo e machismo. E igualmente importante; o que as pessoas têm em mente ao usar essa expressão.

Diz o “velho amigo dicionário” que machismo é a atitude ou comportamento de quem não admite a igualdade de diretos de homens e mulheres.

E o “velho amigo” nos diz que feminismo é o movimento oposto ao machismo.

Uma coisa é certa: É um pouco menos perigoso andar num campo minado do que falar sobre isso.

Machistas não assustam ninguém. Já com as feministas pode ser diferente. Será?

Quem não conhece ou conheceu um machista? Ou será que há uma inversão no entendimento da palavra – machista? Quem trabalha ou já trabalhou com vendas sabe que na maioria dos casos a mulher é que dá a palavra final. É muito comum ouvir um homem dizer antes de uma decisão: Tenho que falar com a patroa. Ela é quem manda. Ou será que ele (nós), dizemos isso só para fugir da responsabilidade. Tipo: ela é quem decide, não tenho nada haver com isso.

O cara mandão pode no intuito de confirmar o quanto manda na mulher perguntar a ela:

“Lá em casa quem manda sou eu, não é mesmo querida?”

Já falei para alguns amigos: Tem homem que não manda em casa e tem homem que mente.

Mandar em casa não é o caso. O caso, os direitos, o respeito e a compreensão, sim.

De mãe para filho e de pai para filha.

 Ainda existem mulheres que querem ter um filho “garanhão”. Existem também os machões que querem um filho “garanhão”, mas não com a sua filha. E aquelas mães orgulhosas dos filhos. Quando o filho vai bem no colégio ou conquista algo maravilhoso, ela diz: Ah, esse é meu filho! Quando o filho (a) apronta algo de errado, ela diz ao marido: Olha só a nota que teu filho tirou... Olha só o que tua filhinha querida fez!

E a história da mulher que diz para filha que já está mais do que na hora de o genro comprar a máquina de lavar, afinal de contas, sua filha não é escrava para lavar roupas no tanque. Já para o filho a mesma mãe diz: Não vá se meter em dívidas só porque a tua mulher (nora) quer uma máquina de lavar. Lavei roupas no tanque por anos e não morri por isso.

As mulheres sofrem com o machismo imbecil que ainda existe. Questões salariais, por exemplo. Há homens que falam das mulheres não apenas as rebaixando, mas as encarando como puro objeto sexual. Alguns atrasados (homens e mulheres) defendem que mulheres são responsáveis por estupro porque se vestem de maneira provocante. “Coitadinho do estuprador, foi levado à tentação, ela estava quase nua e ele não aguentou. Quem manda se vestir assim”.

Absurdos como esses parecem piadas de mau gosto, mas não são, há quem pense assim.

Para nossa classe de “machos dominantes” a coisa não anda muito boa. Elas estão no poder.
Uma palavra, um berro ou mesmo um olhar atravessado diz tudo.

E quanto a dividir as contas? Isso é simples. Pelo menos para quem é razoável.

Homens têm chorado em filmes de romance “água com açúcar”, tipo: Como eu era antes de você.

 Machos têm beijado e expressado amor e carinho pelos filhos, pais e claro, esposa.

Eles estão se cuidando mais. Apontam para uma atitude de aproximação.

Nós podemos estar um pouco ou bem mais sensíveis. Deem espaço, tempo, ouvidos e verão um machão ignorante ou machão disposto a conversar, se abrir e ouvir.

Mas e elas, o que as mulheres parecem querer?

Elas querem carinho, atenção, beijos, abraços, amassos e acima de tudo, querem ser ouvidas.

Se passarmos por esse terreno minado sem pisar no lugar errado é porque tivemos coragem e cuidado. Chegamos ao outro lado e vimos que é possível olhar de – outro lado e por outro lado. 

Opostos, mas num mesmo terreno, cheio de bombas e com muitas opções de terreno seguro.


Se cheguei ao final desse texto (desse campo delicado) sem te deixar irritada ou chateada, bravo ou indignado, me disponho a atravessá-lo outra vez. É um caminho que vale a pena. Senão fica assim: 
Elas por eles, eles por elas e seguimos essa estrada tão perigosa e única. 
Nossa convivência!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Breves equívocos


 Por volta das 17:00h seu Valdemar está assistindo televisão quando toca o telefone:

- Alô. Boa tarde!

- Boa tarde, vô. Tudo bem?

Seu Valdemar tem 23 netos. Conseguir lembrar o nome de cada um deles é desafiador, quanto mais reconhecer pela voz, afinal de contas, o vovô tem 80 anos.

Seu Valdemar pensou em, Eduardo, Vinícius, Ricardo, Thiago, Marcos, Mateus, Natã, Victor, Guilherme, Lucas; quem seria? Decidiu; só pode ser o Lucas. Mas por via das dúvidas, chamaria o Lucas de, meu neto. Seu Valdemar, depois de alguns segundos de reflexão, segue a conversa:

- E você, meu neto, como vão as coisas?

- Estou bem vô. Com saudades do senhor. Desculpe não ter passado aí nas últimas semanas, além da correria ando com muita tosse.

Seu Valdemar ficara preocupado com o neto, Lucas, porque ele falava quatro ou cinco palavras e já tossia. O pobre neto devia estar muito gripado, pensou o avô. Seu Valdemar segue o papo com o neto:

- E seus pais, estão bem?

- Ah, estão bem sim. Com saúde e trabalhando bastante. Pediram que eu mandasse um abraço ao senhor.

- Obrigado, meu neto. Mande outro a eles.

- E o vô, como está de saúde?

- Estou bem. Claro, com 80 anos não tenho do que reclamar.

- Está sozinho em casa, vô?

- Sim. Tua avó saiu faz tempo e ainda não voltou.

 Agora o rapaz do outro lado da linha sentira um calafrio. Um aperto no peito. Sua avó havia morrido há dois anos e não sabia nada sobre o avô ter se casado; ainda mais dizer: sua avó saiu. Imaginou que pudesse ser Alzheimer. De qualquer maneira não iria se aprofundar no assunto. Pobre do avô, aguardando o retorno da esposa que havia falecido havia dois anos.
O avô retomou a amistosa conversa:

- Meu neto, estou preocupado com essa tua tosse. Já tomou algum xarope?

- Eu até tomaria se fosse só gripe, mas essa tosse é do maldito cigarro. Está acabando comigo, são 8 anos fumando.

Dessa vez foi seu Valdemar que ficou pasmo. Ele tem 11 filhos e 23 netos, nenhum de seus filhos e netos jamais fumara. Chegou a cogitar: Será que estou tão esquecido? Meu Deus, e se for àquela doença que a pessoa esquece tudo, como é mesmo o nome? Resolveu aconselhar o neto, e dessa vez o tratando por nome para mostrar preocupação e firmeza:

- Lucas, por favor, te cuida. Pare de fumar, por mais que seja difícil!

O rapaz, perplexo, respondeu:

- Lucas? O senhor me chamou de Lucas? Meu nome é Gustavo. Sou filho do Reginaldo e da Clarice. 
Vô Antônio, o senhor está bem?

- Antônio? Você me chamou de Antônio? Meu nome é Valdemar e não tenho filho ou filha chamado Reginaldo ou Clarice!

- Perdão. O senhor me desculpe. Liguei o número errado!


quinta-feira, 14 de julho de 2016

O monstro e o silêncio


Ela tinha apenas 10 anos de idade e como a maioria das meninas tinha sonhos.

As noites dela poderiam ser embaladas por sonhos e até por pesadelos; quase todos passam por isso. 

Bons sonhos trazem prazer durante o dia. Pesadelos nos fazem acordar assustados e angustiados, mas param por aí. Para um pesadelo comum basta um copo de água ou um abraço afetuoso.

Uma criança deveria poder contar seus pesadelos. Mas  não esse. Por que não? Ele as acompanha mesmo quando estão acordadas. Eis o problema: Não compartilhar, não contar, não ser ouvido.

A menina de 10 anos não mais podia dormir tranquila. Recebia durante a noite a visita de quem deveria passar por ali para contar uma bela história, cantar, orar, beijar e abraçar com ternura e respeito. Mas não há uma bela história, nem um canto ou uma oração, a não ser aquela tentativa de orar ou rezar, interrompidas por beijos e abraços nada desejados, nada afetuosos, nada paternos.

O forte hálito e respiração ofegante sobre seu rosto. Uma barba que arranha sua suave pele. Uma mão toca suas partes íntimas de maneira a não fazer barulhos, não chamar a atenção. Ei, silêncio, tem gente perto. Não há delicadezas nem pudor. Seus órgãos genitais são invadidos pelos dedos do mesmo homem que aponta e diz: “Faça isso ou aquilo... não volte tarde... lave a louça”.

Os dias passam rápido demais. As noites parecem não ter fim. Lá vem ele. Homem confiável. Pai trabalhador. Vizinho respeitado. Tio bem vindo a casa. Avô maduro e experiente. Líder religioso; um homem de deus. Quem acreditaria?

Ele vem todas as noites. Sua mão na vagina e nos seios de menina. Seu membro sexual faz parte do ato. Ele o coloca onde quiser.

Ela já relutou. Acumulou marcas de vários objetos; seja um garfo ou um cinto. Cicatrizes aparecem, mas ninguém vê.

Ninguém nota. Ninguém pergunta. Olhem pra mim. Olhem pra mim. Não aguento mais, é ele.
Não vão acreditar. Mas é ele o meu monstro amante por quem não me apaixonei. Não é meu príncipe encantado.

Se passaram 7 anos. A menina já está com 17. Ele continua transformando noites em pesadelos. 

Gritos na mente e no coração não podem ser ouvidos por qualquer um.
 Ninguém pergunta. Ninguém percebe. Dou gritos a troco de nada? Como de tudo e não quero fazer mais nada? Estou pedindo socorro. É ele. O monstro amante me tirou até a voz. Ele mora ao lado.

A menina enfim fala. O monstro é covarde. Ele acaba com a própria vida. Mas antes de tirar a sua quantas vidas ele destruiu?

Quem é ele? O pai, o padrasto, o tio, o avô, o melhor amigo dos pais, o padre o pastor?

Pode ser qualquer um. É no mínimo inimaginável os efeitos psicológicos sobre quem passa por abusos sexuais. Dizem que no Brasil são 20 crianças por dia, com menos de 9 anos de idade.

E as vozes silenciosas abafadas pelo medo? E os gritos por socorro transformados em rebeldia?

A internet está farta disso. Nas casas e até nas igrejas. Uma dor tão forte e nenhum grito.

Claro, eles ameaçam. Dizem para suas pobres e indefesas vítimas: “Se tu contares vou matar teu pai, tua mãe, tua família”. “Achas mesmo que vão acreditar em ti?”. “Vai dizer que não gostas...?”.

 Na família se custa a acreditar.

 Quando um líder religioso é desmascarado será que vai ser preso ou é transferido para abusar de crianças em outros lugares?

Será que aconteceria com um dos meus? Só acontece os outros. O silêncio releva outra coisa.

As crianças estão bem perto. Monstros também. O silêncio que as cala fortalece aos monstros.

Campanhas são feitas, mas são aproveitadas? O site: www.jw.org  criou um vídeo de menos  de dois minutos , altamente instrutivo, com o tema: Proteja seus filhos.


É tempo de gritar, é tempo ouvir e acima de tudo, é tempo de agir!


O silêncio ainda impera e o monstro pode estar ao lado!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Entrevista ao Bom Dia Santa Catarina - RBS TV. Sobre o livro - Um sonho de menino. Romance. A história de um menino relembrando a luta e os sonhos da sua infância, a cura do pai, alcoolista!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os que trocam o amargo pelo doce


Uma das máximas no jornalismo seria considerar como notícia de destaque não o fato de um cachorro morder um homem, mas sim um homem morder um cachorro.

Lógico que essa ilustração serve para demonstrar que notícia é o incomum.

De certa maneira as coisas que se tornaram comuns são justamente, atitudes, gestos, comportamentos, inclinações, expressões de mau gosto, má educação, agressividade e violência.

Atitudes negativas se tornaram a ordem do dia; o que parecia incomum há anos ou décadas hoje não espanta mais.

Hoje quando alguém é honesto ou educado é notícia certa. Se for as duas coisas é chocante.

 O que há de surpreendente em uma pessoa ajudar um deficiente físico?

Como podemos nos impressionar ao ver alguém educado?

Como pode ser notícia o fato de alguém devolver uma carteira com dinheiro dentro?

O que leva um juiz ser considerado louco e inadequado?

Por que uma pessoa que diz que vai se casar virgem causa espanto? Ela é normal?

Alguém que é casado e leal ao marido ou esposa passa uma impressão estranha?

Como é encarado alguém em cargo de autoridade que faz o que tem de fazer?

Por que um jornalista imparcial é admirado?

Uma sociedade que diz: “Ele rouba, mas faz. Todos roubam, mas esse pelo menos faz alguma coisa”. “Achado não é roubado”. “A ocasião faz o ladrão”.

Se partirmos do princípio que desde que faça algo de bom não importa ser ladrão; logo diremos a uma mulher que apanha do marido: “Mas ele é bom pai, trabalhador, tua mãe adora ele, não deixa faltar nada em casa; só te dá uns tapas quando bebe”.

A ocasião não faz o ladrão, antes revela o ladrão, senão todos nós seríamos ladrões em potencial, apenas aguardando uma oportunidade.

Quando quem merece um troféu é apontado como louco, bandido ou indesejável é porque a coisa já está feia demais.

A mesma polícia tão criticada é a primeira a ser chamada na hora do apuro. Não são chamados para um café, só para resolver problemas. Claro que é sua função. Mas e o reconhecimento a atos de bravura que não são raros?

As palavras: “Os que trocam o amargo pelo doce e o doce pelo amargo, os que inocentam o culpado em troca de suborno e negam justiça ao justo; os que dizem que o bom é mau e o mau é bom”, estão escritas há uns 3 mil anos. Bíblia. Isaías 5: 20-23. Essas atitudes são vistas hoje por nós em quase todas as esferas da vida. Escola, trabalho, órgãos públicos, privados, religião, mídia, e nas próprias casas, no seio da família.

Só falta mesmo uma pessoa, louca ou não, morder um cachorro e trazer um tema incomum.

Num momento de troca e inversão de valores quem será mais ingênuo, quem crê em lobisomem e no super homem, ou quem vê melhoras a curto e médio prazo?

Será que há coisas boas acontecendo e são pouco divulgadas?

Talvez dependa também do interesse de quem consome as notícias. Se é verdade que somos o que consumimos podemos treinar nosso “paladar intelectual”. Que o doce seja doce e o amargo o que realmente é.

Um importante detalhe é que nós como seres humanos somos a principal matéria prima que leva a produção de ações e que viram notícia, sejam elas doces ou amargas!



quarta-feira, 29 de junho de 2016

200 viajante


Um empresário chega a um hotel onde pensa em passar a noite. Como tem suas manias com quartos de hotel explica ao gerente que primeiro precisa conhecer as acomodações.

O educado gerente diz que não há problemas. O cliente pode subir e se não gostar do quarto não haveria nenhum problema. O empresário agradece e paga o valor do pernoite, 200 reais.

O gerente, contente com o dinheiro que acabara de entrar, pega o telefone e liga para a panificadora para a qual deve 200 reais de queijos e presuntos.

O dono da panificadora feliz com o dinheiro que vai entrar se apressa em receber. Agradece ao gerente do hotel e confirma que pode pedir o que precisar.

Assim que chega em sua panificadora liga para seu fornecedor de frios e avisa que já tem seus 200 reais nas mãos.

O fornecedor sai contente da panificadora e vai ao mecânico a quem deve 200 reais e acerta sua conta.

Um mecânico aliviado com o dinheiro que entra paga o dentista a quem devia 200 reais.

O dentista satisfeito com o dinheiro que acabara de receber sai para pagar o dono do restaurante onde costuma almoçar.

O dono do restaurante vibra com os 200 reais e vai pagar o pedreiro que fizera um ótimo serviço em sua casa.

O jovem pedreiro telefona a uma garota de programa a quem deve 200 reais e fica em paz.

Um homem observa uma garota entrando no hotel em que trabalha. A garota de programa sorri para o gerente e diz que veio pagar sua dívida de 200 reais. Ela agradece a paciência do gerente do hotel. Ela mal se afasta e o gerente é surpreendido por um homem. É o empresário que subira para ver o quarto. 
O empresário diz:

- Por favor, me desculpe. Não é nada contra seu hotel, muito aconchegante por sinal e com ótimo atendimento. Eu é que tenho manias. Não vou ficar. Agradeço sua atenção.

O gerente do hotel diz ao empresário:

- Aprecio sua honestidade e educação. Saiba que estamos abertos a quaisquer sugestões. Faço questão que pegue de volta seus 200 reais e sinceros votos que encontre um lugar do seu agrado.


E lá se vão os 200 reais. Continuam viajando por diversos bolsos e outros valores, provocando reencontros, sorrisos e acertos.