sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Spotlight - Segredos Revelados


Sabemos que a pedofilia é praticada de maneira geral por pessoas próximas. Crianças, adolescentes e pais são persuadidos a confiar nos pedófilos como se fossem pessoas acima de qualquer suspeita.

Pais, padrastos, tios, avós, amigos da família estão entre aqueles que molestam crianças causando traumas terríveis.

Cabe o ditado: “Seguro morreu de velho”. Não quer dizer desconfiar de todos, mas ao mesmo tempo não confiar demais, principalmente quando o risco é a pedofilia.

“Ah, ele ou ela jamais seria capaz de fazer isso, ponho minha mão no fogo”. Então saiba que as possibilidades de se queimar são reais e consideráveis.

O perigo também se esconde atrás de títulos de “santidade”.

O filme – Spotlight – Segredos Revelados, baseado em fatos reais, conta a história de um grupo de jornalistas do The Boston Globe que investigou, descobriu, se apavorou e publicou um artigo sobre padres pedófilos.

Na ocasião, por volta de 2001, havia pelo menos 87 padres que haviam molestado crianças; detalhe: 87 só na cidade de Boston.

Há pesquisas que segundo o filme apontam que até 6% dos padres poderiam estar envolvidos em pedofilia.

Em especial crianças de famílias carentes e pouca estrutura, dizem que veem o líder religioso como se fosse “Deus”.

“Um dia ele pede para a criança recolher o lixo. Depois conversa mais. Um dia conta uma piada obscena (agora eles têm um segredo), e por fim mostra uma revista pornográfica” (Relato de uma das vítimas no filme).

Tudo termina, ou começa, quando “o padre tira a roupa e pede para o menino o masturbar e fazer sexo oral nele”. (Continuação do relato)

Quando acontece com meninos que são ou acreditam ser homossexuais tudo parece diferente; afinal de contas eles sentem que “deus” entende e aceita sua situação. (Também relatos do filme)

O filme – Spotlight – Segredos Revelados - deve ser mais anunciado, divulgado, assistido e discutido.

Concluir que isso acontece apenas em outros países é ingenuidade.

Pensar que isso só acontece “lá longe” é fechar os olhos a uma terrível e devastadora realidade.

Quando os abusos são cometidos por lideres religiosos à coisa é agravada por vários motivos.

Primeiro: Estão entre aqueles que parecem estar – acima de qualquer suspeita.

Segundo: O medo de denunciar um “homem de Deus”.

Terceiro: A maneira como a igreja por tantas vezes oculta, esconde, transfere o padre pedófilo para outra paróquia. Já molestou aqui, ficará conhecido. Quem sabe numa cidade onde ninguém saiba. E se abusar lá se transfere outra vez...

Pais precisam alertar e conversar com os filhos. Alguns falam besteiras e contam piadas sobre sexo com amigos, mas não são capazes de ter uma conversa respeitosa, porém aberta com filhos e filhas, os alertando contra os pedófilos. Dizer o que fazer e para quem contar. Que pode ser o vovô, o papai, a mamãe, o titio, o padrasto, o melhor amigo dos pais e até um “homem de deus”.

A denuncia pode não resolver por completo, mas dará a oportunidade de se fazer justiça e talvez impedir que outras crianças venham a ser molestadas.

E a imprensa? Parabéns a imprensa. Parabéns aos jornalistas que investigam e publicam.
Jornalismo é isso, abrir temas importantes. Falar o que não parece conveniente e o que alguns não desejam ouvir.

Imparcialidade é importante sempre. Não podemos deduzir que a maioria dos lideres religiosos são pedófilos, mas o número é assustador. Mais assustador ainda é saber que os que têm poder para denunciar e punir por tantas vezes apenas encobrem.

Dizem que segredo deixa de ser segredo quando revelado.

Há segredos importantes a serem guardados e outros não.

Pedofilia, pessoas próximas e principalmente, “homens de deus” devem ser monitorados, descobertos, julgados e condenados (não transferidos como tem acontecido).

Quando conversar com uma pessoa religiosa pergunte a ela como sua igreja trata ou lida com casos assim.

Nosso papel na imprensa é dar notícias e informações. No filme Spotlight quando um líder religioso disse que é importante que a imprensa trabalhe em conjunto com instituições, ouve do editor: “Em minha opinião é melhor que a imprensa trabalhe de maneira independente”.

Pedofilia, pais e imprensa. Denunciar, divulgar e proteger. Caso contrário só haverá as lágrimas e os traumas das incontáveis vítimas desses terríveis abusos – guardadas em segredo!



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A Maria Mole


Esse doce fez parte da infância de muitos de nós. Mas houve uma que serviu como importante lição de sabedoria.

Lembramos a frase: “Difícil não é ser bom, o desafio é ser justo”.

Quando falamos em justiça podemos lembrar a palavra - sabedoria.

A palavra sabedoria é muitas vezes mal interpretada. Confunde-se com a palavra inteligência. 

Quando estudamos a fundo essas palavras notamos que há inteligentes que não demonstram sabedoria e raramente há um sábio que não seja inteligente. Por quê? Conhecimentos nos deixam inteligentes e inteligentes buscam mais conhecimentos; isso produz pessoas que fazem a diferença na sociedade. Mas, e os sábios?

Muitas vezes se fala na “sabedoria popular”, no “conhecimento dos antigos”. Vamos juntos a duas breves histórias sobre sabedoria.

Duas mulheres pedem aos prantos uma audiência com um rei. As duas são mães. Uma tem nos braços um filho morto e outra um filho vivo. A que está com o filho morto diz que o bebê vivo é seu. Diz que assim que o viu ao acordar percebeu que não era o seu filho.

Um dos bebês morrera durante a noite e poderia ter havido uma proposital troca dos bebês.

O rei, depois de ouvir as queixas das duas mães faz uma reflexão em alta voz:

Esta diz: “O meu filho é o que está vivo, o morto é o dela. A outra diz, não, o meu filho é o que está vivo, o seu está morto”. O rei diz: “Tragam uma espada e cortem a criança ao meio e deem metade a cada uma”.

A mulher cujo filho era o vivo, movida por compaixão, disse: “Não façam isso, por favor. Não tirem a vida da criança, que fique com ela”. A outra mulher fala: “Cortem mesmo, não será nem meu nem dela. O rei disse com convicção: “Entreguem o bebê a primeira mulher”. Ela é a mãe verdadeira, pois jamais deixaria que matassem seu filho”. A história ocorreu há milhares de anos e correu o mundo. A sabedoria de Salomão. Sabedoria segundo a Bíblia dada por Deus. O relato mostra que quando 

Salomão iria se tornar rei poderia pedir qualquer coisa a Deus. Em vez de glória, poder ou bens materiais ele pediu sabedoria para cuidar bem do povo.

E a Maria mole? Ouvindo nosso querido comunicador, Mário Motta, em seu programa na CBN, eu e todos os seus ouvintes fomos agraciados por essa breve e sábia história real.

Mário contou o que seu pai, o saudoso, Motinha fazia para ensinar justiça, sabedoria e bom senso para ele e seu irmão, Gilberto, usando uma Maria mole.

Cabia ao irmão do Mário, Gilberto, cortar o doce ao meio. Tinha que ser justo e cauteloso ao cortar a 

Maria mole. Por quê? Seu Motinha dizia que Gilberto cortaria o doce e o Mário escolheria seu pedaço. Que lição de sabedoria prática. Valores incutidos na infância podem permanecer para sempre construindo homens e mulheres éticos. Não é por acaso que o Mário me disse numa entrevista: 

“Crescer é ficar maior; evoluir é ficar melhor”. Seu Motinha tinha e ensinava sabedoria.

É bom ouvir e contar histórias assim. Mas podemos adquirir sabedoria. Como? Através dos nossos conhecimentos procurarmos ser pessoas decentes, honestas, éticas, justas; dar exemplo digno de ser seguido. Em momentos difíceis não ver apenas o nosso lado. Entender que às vezes tanto nós quanto aqueles a quem amamos estão errados. Isso envolve ser imparciais, não “botar a mão na cabeça” só porque se trata de nosso filho, nosso interesse, nossa vantagem. Sabedoria se conquista com atenta observação, meditação e também com estudos.

E como se identifica um sábio? Uma maneira fácil de identificar um sábio é por sua modéstia e humildade, duas qualidades diferentes e importantes. O sábio jamais se julga sábio por ser humilde e reconhece que não pode fazer tudo porque é modesto; por isso é sábio.


Desde os tempos de Salomão e até os dias do seu Motinha podemos aprender a sabedoria. Pessoas sábias usam qualquer recurso para ensinar, do fio de uma espada a uma Maria mole, o que vale é a lição!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Transtornos mentais - Alarmante!


Não faz muito tempo alguém diria que é “frescura”, ou, simplesmente loucura.

Alguém com algum tipo de desânimo prolongado, manias ou outras dificuldades ligadas ao campo emocional poderia ouvir coisas do tipo: “Ah um tanque de roupas para lavar”, como se o problema psicológico sofrido fosse nada mais do que falta do que fazer, ou uma mente pouco ocupada. Até pessoas com muito estudo dizem isso, já ouvi.

Como se não bastasse um amigo ouviu um primo dizer a outro: “Depressão? Te levo até um lugar onde há crianças com câncer e depois tu me diz se tens depressão.”

Assisti uma entrevista de uma famosa dupla sertaneja onde um deles comentou que a pior coisa que fez foi comentar com amigos que tinha depressão e dizer como se sentia.

Os amigos, claro, na melhor das intenções, e de boas intenções o inferno está cheio, como diz um ditado, não que eu creia no inferno, mas fica clara a mensagem. Amigos mesmo bem intencionados podem dizer a coisa errada na hora errada. Os amigos do cantor diziam: “Você é famoso, rico, talentoso, as pessoas te adoram, como pode ter depressão?” Ele completou dizendo que a pior coisa é confidenciar isso a alguns amigos. Na intenção de ajudar pioram a situação. Nem todos, é claro!

Para saber se é “frescura” ou “manha”, só um profissional para dizer. Um psicólogo, psiquiatra ou neurologista. E a lista dos transtornos mentais é grande.

Depressão, bipolaridade, transtorno de ansiedade generalizada (TAG), déficit de atenção e ou hiperatividade (TDAH) e síndrome do pensamento acelerado (SPA). Há outros, com certeza.

Transtornos mentais são definidos por profissionais da área como uma disfunção significativa no pensamento, controle emocional e comportamento.

O Dr. Augusto Cury em um de seus livros fala sobre situações em que muitos pensam que crianças são hiperativas quando na verdade têm SPA, síndrome do pensamento acelerado. Ou seja, crianças hoje são expostas a excesso de informação e atividades. Diz que uma criança de 7 anos hoje tem mais informação do que um imperador romano no auge de Roma.

Fico pensando por que alguns pais exigem tanto dos filhos. Até que ponto é importante?

Pelo menos quando virmos um amigo ou parente com aparente dificuldade emocional que tal dar atenção especial? Com certeza não cabe a nós dizer se é doença ou “frescura”. O que se sabe é que os transtornos mentais tiram a paz e a qualidade de vida de muitas pessoas. Além de dificuldades no trabalho, escola, casamento e demais relacionamentos. Sem esquecer que familiares também sofrem. 

Quando não tratados corretamente podem levar ao vício em drogas, álcool e até ao suicídio. Nos últimos tempos tenho ouvido e lido sobre o assunto. A “cadeira do barbeiro” tem revelado pessoas que jamais imaginava passar por esses transtornos. São mais comuns do que podemos imaginar. 

Homens, mulheres, jovens de todas as idades e com diferentes condições financeiras e culturais. Para dar a palavra final, só um profissional. Então, na dúvida, vamos procurá-lo.

A Organização Mundial de Saúde, (OMS) reconhece esses transtornos como reais.

Saber que um tratamento adequado pode melhorar a qualidade de vida dos que sofrem é um importante incentivo a procurar ajuda. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A viúva


Alberto nunca foi bom com as palavras. Não era incomum olhar para uma mulher com uma barriguinha um pouco evidente e perguntar:

- Está de quantos meses? É menino ou menina?

- Não estou grávida!

Os foras não paravam por aí:

- Oi Ana. Esse é o teu filho mais velho?

- É meu namorado!

Ao andar com um amigo na rua viu uma senhora e disse:

- Olha lá, Rogério. A vovó vai atravessar a rua sozinha. Coitada.

- É a minha esposa, Alberto.

Por essas e outras Alberto começou a ficar mais calado. Certo dia um amigo de trabalho, o Claudio, disse que o Mário havia morrido. Imediatamente, Alberto lembrou de seu ex vizinho, Mário. Homem trabalhador, cara divertido.

Claudio ainda salientou que Mário andava muito doente havia anos. Estava sofrendo o que chamou de inferno. Na verdade Mário foi libertado de uma agonia, uma prisão, afinal de contas, viver com dores e dependendo da ajuda dos outros, era um inferno mesmo. No fundo, sua esposa deveria ficar até aliviada.

Alberto ouviu tudo aquilo e pensou em Lígia, esposa ou agora, viúva de Mário. Queria poder consolar a pobre viúva. Mas como? O que dizer? E se falasse besteira? E em dar fora Alberto era especialista.

Por duas vezes Alberto viu Lígia e atravessou a rua só para não ter que falar do finado. Não estava pronto para o importante consolo.

Certa noite Alberto parou e pensou. Pensou que já era hora de aprender a se expressar sem falar bobagem, usar bem as palavras. Resolveu treinar sozinho, de frente para o espelho.

Imaginou Lígia. Lembrou de como Mário era e de quanto estava sofrendo. Lembrou das palavras de 

Claudio. Mário estava livre do inferno que vivia, de todo o sofrimento, da agonia, de uma rotina terrível. Pronto. Já poderia consolar a viúva e não falar besteira. Pelo menos uma vez na vida.

No dia seguinte encontrou Lígia e dessa vez não desviou. Aproximou-se, respirou fundo, e olhando em seus olhos, disse:

- Bom dia, Lígia. Estava há dias para falar contigo. Na verdade pensei muito bem no que deveria te dizer. Por favor, preste atenção a cada palavra minha e veja a sua real situação.

O Mário não merecia o que vinha passando. Um cara do bem, trabalhador, divertido. Ele estava sofrendo demais. Aquilo não era mais vida, era tortura. Imagine a frustração dele. Sua agonia e rotina. Se é que existe esse tal de inferno é o que o pobre do Mário vivia. Agora está livre e em paz.

Lígia ouviu perplexa as palavras de Alberto. Depois de balançar a cabeça olhou bem para ele e disse:

- Cachorro, sem vergonha, nojento. Você é igual ao Mário ou até pior. Aliás, vocês são todos iguais, não valem o que comem. Eu quero mais é que você vá para o inferno e mais, quero que o Mário... 

Melhor eu parar por aqui. Seu idiota!

Alberto ficara perplexo com as palavras de Lígia. Como podia ser tão dura diante palavras consoladoras. E pobre do Mário, não basta o que sofrera. Que tipo de mulher falaria assim?

No dia seguinte assim que chega ao trabalho encontra o amigo, Claudio. Ele o chama e diz:

- Claudio. Não vai acreditar no que aconteceu ontem. Encontrei a mulher do Mário e falei com ela. 

Não vai acreditar no que ela me disse.

Claudio respirou fundo e falou:

- Alberto, não dá pra esperar que ela esteja feliz e calma. Afinal de contas o que o Mário fez foi uma cachorrada sem tamanho. Uma mulher como ela, trabalhadora, linda e educada. Descobriu que o 

Mário a traia há mais de 10 anos. Várias amantes e 2 filhos fora do casamento. Gastava dinheiro até em noitadas. E pior, ele teve a cara de pau de dizer pra ela que ele vivia numa horrível rotina, numa agonia, que sofria ao seu lado, que sua vida era um inferno – Claudio continua seu desabafo:

Dá pra imaginar? A mulher descobriu que o marido é um baita safado e ainda ouve tudo isso. Pobre da Lígia.

Sem entender mais nada, Alberto perguntou:

- Claudio, tu não me disse que o Mário havia morrido?

- Sim, morreu. Mas falei do Mário da dona Soninha. O pobre estava muito mal. O Mário da Lígia é que é um safado e está bem vivo. Ainda bem que você a consolou. Afinal de contas, o que disse a ela?

- Eu? Bem, eu disse o que se diz numa situação dessas. Enfim, falei algumas coisas.


Alberto se afasta de Claudio pensando na pobre Lígia. Ele esfrega a mão na testa e fala baixinho: 

Droga. Consolei a viúva errada!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O moral e a moral - desencontros


Quando eu era criança ou adolescente, há uns 30 anos, ter faculdade, ou o curso superior não era algo tão comum, pelo menos não no meio em que eu vivia.

Lembro que alguns diziam com orgulho:

- Tenho um primo que fez faculdade! Sério?

- Minha irmã está na universidade! É mesmo?

Nos anos 90, pelo menos aqui na Grande Florianópolis, as faculdades particulares passaram a se destacar mais. Isso tornou possível que muitos conseguissem ter o curso superior. Alguns tinham a ajuda dos pais, outros ralaram para trabalhar e pagar a faculdade.

No decorrer da primeira década do século XXl vieram as faculdades a distância – online.

Cada vez mais possibilidades. Tantas que hoje não causa espanto ouvir alguém dizer que tem faculdade.

Em concursos públicos a “briga” entre pessoas com o antigo segundo grau ou ensino médio com os que têm faculdade causa discussões.

Há quem pense que deveria haver uma separação: Em concurso para nível de ensino médio os que têm curso superior não deveriam participar. E agora?

Mas com tantos avanços tecnológicos, científicos e outros, algumas questões parecem regredir. Isso parece mostrar um – contrassenso ou um paradoxo.

Se há bem mais pessoas instruídas, com boas formações acadêmicas, por que notamos uma “marcha ré” em questões de moral e bom senso?

A moral está em baixa para muitos e o moral de muitos está baixo.

A moral - se entende por questões de bom comportamento, respeito mútuo, não só no campo sexual, mas em todas as questões que regem ou deveriam reger bons costumes e respeito.

O moral - se entende como sentimento, ânimo. Muitos estão com – o moral baixo.

O estado de ânimo de muitos está um tanto doente. Notamos isso pelas frustrações que vão desde casamentos abalados, relações familiares estremecidas; e isso vai ao trabalho, nas escolas; enfim, nas próprias situações pessoais não resolvidas.

Quer ver um grupo de profissionais com agendas lotadas? Tente marcar uma hora, uma sessão com um psicólogo (terapeuta) ou com um psiquiatra. A agenda deles está mais lotada do que a de um bom pedreiro.

Com tantas mudanças no cenário cultural, social, acadêmico e cientifico, estamos presenciando algo incomum por aqui.

Quando eu era criança ou adolescente quem tivesse um lava jato era porque tinha uma melhor condição financeira.

A sujeira impregnada nas calçadas, muros e paredes era eliminada com mais facilidade com esse bendito aparelho. Alguns alugavam um lava jato ou pediam emprestado para se livrar daquilo que a simples mangueira e vassoura não resolviam.

Hoje, há uma Lava Jato que está fazendo um trabalho diferente do antigo aparelho. Os antigos aparelhos lava jato faziam desaparecer a sujeira, a atual lava jato faz justamente aparecer à sujeira.

O ponto é que houve e está havendo mudanças, tanto para pior quanto para melhor.

E o melhor é saber que quase tudo está ao nosso alcance. A educação e o conhecimento por meio de uma faculdade, universidade ou pelos próprios esforços em estudar e abrir a mente faz a vida bem diferente. Boas leituras diárias são uma vitamina poderosa para o cérebro.

Mas e aquele desencontro entre – o moral e a moral?

Parece que não tem muito haver com “grau acadêmico”. Antes, com caráter, índole, respeito, conhecimentos adquiridos e postos em prática para o bem comum. E isso vai além dos campos universitários e faculdades.

No final do dia, do ano e de tudo, restará saber se entendemos o que é ter uma boa moral.

No final do dia, do ano e de tudo nosso moral poderá estar baixo ou alto; e isso dependerá de nós mesmos proporcionarmos esse encontro.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Robin Hood - o descendente


Por volta dos anos 1950, nasceu no Brasil, em cidade e Estado não revelados, um garoto de suposta descendência inglesa.

O garoto, órfão, fora adotado por uma família classe média alta que promovia negócios questionáveis.

Ao adotarem o menino foram alertados de que ele tinha hábitos questionáveis e não se adaptara a nenhum nome que lhe fora dado. A família não viu problemas nisso e resolveu o chamar carinhosamente de, Joãozinho.

Certo dia o menino surpreendeu a família ao brincar com o arco e flecha de seu pai adotivo.

O tio, um senhor de cerca de 70 anos, disse:

- Teu apelido deveria ser Robin Hood.

O pai adotivo, disse:

- Não. Apelidado, não. O nome. Vamos registrá-lo com o nome de, Robin Hood.

O garoto pela primeira vez gostou do nome que lhe fora dado mesmo não sabendo sua origem.

Entre seus maus hábitos estavam o de levar para casa, chocolates, carnes de primeira e uísque.

Claro que ele jamais pagara por isso. Uma mistura de educação e sutiliza o fazia passar pelas portas dos mercados com total confiança e serenidade.

Para classe média alta ou quase rica já naquela época, ladrão era o filho dos menos favorecidos, também conhecidos como pobres. Mas uma onda de eufemismo preferia tratar tais pessoas, inclusive seus empregados como – os menos favorecidos e os filhos dos ricos que praticavam tais atos como – desvio de conduta ou até mesmo como cleptomaníaco.

O garoto cresceu, estudou só o que queria, “passou” em concursos e ficou ainda mais hábil no uso do arco e da flecha.

Tudo o que conhecia sobre o mítico personagem, Robin Hood, eram as histórias contadas por seu pai, que jamais usara um livro. O pai tinha uma versão muito particular do mítico personagem.

Robbin Hood percebeu com as histórias contadas por seu pai que o arco e a flecha podiam abrir sua mente para alcançar coisas maiores. Afinal de contas o uso do arco e da flecha já não era tão prático nos anos 70.

E assim prosseguiu. Robbin Hood evoluiu mais nas estratégias, nas influências e nos cargos que ocupou do que numa linha lógica do seu suposto ancestral, fosse ele um herói mítico ou parente distante.

Robin Hood falava aos amigos sobre suas ideias e os beneficiários as ouviam com prazer.
Sua visão aguçada o fazia ver grandes oportunidades. A infalível mira não permitia erros. As ferramentas, antes o arco e a flecha, agora eram sua posição e influência. Isso rendia mais poderes, mais possibilidades, mais vantagens, inclusive, de não ser preso.

Robin se tornava a cada dia melhor conselheiro. Entre suas brilhantes ideias estavam, impostos e empresas. Empresas poderiam gerar lucros e mais lucros. Os benefícios para uma classe especial era certeiro.

A lei Rouanet não precisava favorecer exatamente qualquer cidadão ligado à cultura, antes, a alguns específicos e escolhidos a dedo. Isso é vantagem.

Investir muito mais dinheiro em gastos com presos e uma ninharia em colégios públicos.
A população carcerária oferece perigo, mas alunos que desenvolvem conhecimentos e se tornam críticos inteligentes podem ser ainda mais perigosos.

Por que aposentar alguém que trabalhou duro a vida toda e com baixo salário ainda antes dos 65 anos?  Os velhos poderiam ter a alegria de continuar produzindo enquanto aguentassem ficar de pé. 

Trabalhar até perto de bater as botas poderia ser bom para os pobres - Era uma de suas filosofias.

As oportunidades estavam em tudo que os olhos pudessem enxergar, e a conta bancaria sentir. Havia mil possibilidades. Creches, asilos, bancos, cargos políticos e públicos, empreiteiras, mídia, enfim, onde passasse poder de influência ou dinheiro Robbin Hood estava lá.

Se houve de fato um Robin Hood no século Xlll na Inglaterra ou em Portugal, mesmo que mítico, se agitaria no túmulo.

Em cerca de 5 décadas de atuação acumulou riquezas  e rendeu fortunas a seus nem sempre fiéis associados. Mas no mundo dos bandidos é assim, as vantagens estão acima da amizade.

Em certa ocasião foi chamado para dar conselhos aos comparsas. Vários corriam o risco de ser presos. Como se esquivar de maneira fácil, de preferência sem prejudicar, não as amizades que não eram verdadeiras, antes, proteger os negócios lá na frente?

Robbin Hood com sua visão aguçada deu a ideia de se unirem. Por exemplo, propor uma espécie de “moeda de troca”, um acordo. Os ânimos se afloraram e Hood explicou:

- Calma. Prestem atenção. Talvez vocês desembolsem dinheiro com advogados, mas isso vocês têm. 

Digo, proponham algo que fique bom para todos. Vou explicar melhor. Deobaldo, quando fores preso, proponhas entregar o Julibio em troca amenizar sua pena e proteger o dinheiro que ganhamos com tanto trabalho.

Julibio se levantou indignado. Robbin voltou à explicação.

- Calma, Julibio, quando forem te interrogar tu propões entregar o Anselmo e assim sucessivamente. Assim, de maneira legal, todos saem perdendo pouco.

Os amigos aplaudiram, o chamaram de gênio. Ter penas abreviadas e não ter que devolver o dinheiro era extraordinário. Robbin tinha lá certa medida de modéstia e disse que já havia lido sobre um projeto assim e deu certo, por que não aqui?

Robbin esclareceu que isso se chamava - delação premiada. Algo legal.

Robbin acreditava ser um herói, não que não fosse, mas se tivesse existido e vivido por volta do século Xlll, saberia de quem seria um herói, embora ainda ladrão.

Setecentos anos atrás, crianças pobres, idosos abandonados a própria sorte, chefes de família que choravam ao chegar em casa e ver esposa e filhos sem ter o que comer, mães entregues a tristeza por dar a luz um sofredor; ficariam contentes ao saber que Robbin Hood estava por aquelas bandas.

Já os ricos iriam querer o pescoço do homem que tirava de suas excessivas fortunas para dar a um bando de pobres famintos, só porque eram menos favorecidos.

Certo dia, lá pela casa dos seus 60 anos, Robbin pela primeira vez parou para assistir a um filme de seu ancestral. Ele manteve os olhos e ouvidos bem abertos todo o tempo.

No final do filme estava pasmo. Havia algo de errado. Uma enorme dúvida pairava no ar.
Como podia ser tudo tão diferente. Tão ao contrario de suas crenças e ações bem sucedidas de toda uma vida.

Robbin marcou uma entrevista com um de seus advogados. Tinha que tomar uma decisão, precisava fazer algo a respeito. Conversou por horas com seus advogados, passou a noite em claro. No dia seguinte, já tinha uma decisão. Sua visão aguçada, sua pontaria certeira lhe indicavam o que fazer dessa vez.

Na presença de companheiros, associados e advogados, declarou que iriam processar os roteiristas e diretores de todos os filmes do seu ancestral produzidos até então.

E declarou que faria de tudo para que a nova geração conhecesse a verdadeira história do Robbin Hood, pelo menos por aqui. E ainda entraria o dinheiro se vencessem a ação judicial.

Alguns de seus associados cochicharam: “Será que ele não sabia a real história do personagem que leva seu nome?” Alguém respondeu no mesmo volume: “O Robbin sempre foi o mais inteligente da equipe, mas cá entre nós, nunca foi nenhum intelectual e nunca deu bola para uma boa cultura”. 

Ainda outro sussurrou: “Melhor assim, precisamos dele. Nunca teríamos chegado ao ponto em que chegamos se fosse ao contrário”.

Robin saiu animado daquela reunião e pensando em qual dos seus luxuosos imóveis iria passar o final de semana. Queria brindar com ele mesmo aquela brilhante ideia: Processar os roteiristas e diretores dos filmes do seu grande ancestral. Mas uma ideia lhe veio à mente e Robin imediatamente ligou para um dos associados:

- Deobaldo, lembre-se do seguinte. Abram o processo contra os roteiristas. Mas se eles propuserem alguma moeda de troca, tipo uma delação premiada ou coisa assim; vamos analisar.

E o país dos ricos continuava a prosperar com um Robin Hood bem diferente. Quem tem muito terá mais. Quem tem pouco sempre terá algo a compartilhar.

Talvez séculos à frente alguém pense que esse Robin Hood fora apenas uma lenda. Mas suas ações, ideias e as consequências levariam o mais simples dos pais, o mais rico dos homens e a mais pobre das mães a consultar os livros originais antes de contar a história a seu filho.

Afinal de contas, haveria Robin Hood para todos os bolsos!


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Elogie, critique, mas, por favor, diga alguma coisa


O silêncio pode ser uma linda canção quando estamos esgotados pelo estresse e ansiedades do dia a dia. Aquele momento em que todo o som parece uma bomba. Cada ruído parece à presença de um psicopata querendo nosso sangue.

Nesses momentos o som do silêncio parece à música que nos leva ao paraíso.

Mas há situações em que o silêncio pode ser exatamente o contrário da primeira descrição.

No casamento, por exemplo, o silêncio pode ser aterrador, destrutivo como uma bomba.

Nas conversas do dia a dia, os bate papos no churrasco entre amigos e familiares, com colegas de trabalho e escola e até nas filas e transporte coletivo; tanto o silêncio como as palavras podem ser similares a um psicopata ou uma bomba, dependendo do que dissermos e do que não falarmos.

Provavelmente gostamos mais de falar do que de ouvir, o que é compreensível. Falar é tão simples e fácil. Já o – ouvir – é uma arte.

Costumamos criticar ou elogiar, geralmente criticar, aquilo ou aquele que nos desagrada.

Os que trabalham diretamente com a comunicação sabem que uma crítica pode vir à velocidade da luz enquanto um elogio se fosse esperado se aguardaria sentado.

Mas o que elogiar? O que criticar?

Só elogiamos ou criticamos algo que apreciamos ou temos opinião contrária. Aí entra a grande questão. Vivemos em uma época onde ainda há pessoas que dizem: “Política, futebol e religião não se discute”. Discutir o que então? Novelas? Programas de televisão? As escolhas do filho ou filha da vizinha? O clima? E por que não discutir esses temas? É que para muitos esses podem ser os mais próximos.

O filósofo brasileiro, Renato Janine, diz em seu livro – O afeto autoritário: televisão, ética e democracia; que a televisão no Brasil fornece a pauta para as conversas. Basta ouvir o que as pessoas estão conversando numa segunda-feira, para saber o que foi falado nos principais programas de TV nos domingos. Quem não assistiu TV no final de semana provavelmente não tenha assunto.

E o que de proveito nos passam os programas de domingo?

Nosso jornalismo de maneira geral é feito as pressas. E não é culpa dos competentes colegas jornalistas. As notícias precisam ser rápidas. Não há tempo hábil para melhor e mais apurada investigação. É como se tudo tivesse a mesma importância e ocorresse no mesmo dia e local.

Não basta assistir, ouvir ou ler notícias; precisamos ser seletivos. Precisamos dar valor à boa leitura, a boas pesquisas, a ouvir pessoas que entendem do tema em questão. Não podemos querer ser “doutores de tudo do que nada entendem”.

Como elogiar, questionar e criticar algo sobre o qual quase nada sabemos?

Há crianças que expulsam da boca uma chupeta e adultos que aceitam quase tudo de “goela abaixo”, até em assuntos religiosos.

E os elogios? Mark Twain disse certa vez: “Posso viver dois meses com apenas um bom elogio”.

Há poucos dias alguém mandou para uma emissora de rádio um comentário sobre um motorista de ônibus. O ouvinte disse que havia observado o motorista na Grande Florianópolis aguardar até que uma passageira sentasse e ajeitasse a criança que estava com ela para dar partida no coletivo. O elogio da observação do ouvinte rendeu elogios dos comunicadores da emissora de rádio.

Se a decisão for criticar não se acanhe, mas pense: O que sei sobre o assunto? Quantas vezes já estudei o tema? Com quantos peritos na área já discuti isso? É o momento? Pretendo discutir a fim de mostrar um ponto de vista diferente e interessante ou só quero falar mal (xingar) a pessoa ou o tema?

A verdade é que nem elogiar e nem criticar é algo tão simples. Porém, ambos são necessários a nossa construção intelectual, emocional e profissional.

Particularmente tenho notado e publiquei isso faz alguns dias: “Dar e receber elogios é muito importante, mas uma crítica construtiva pode nos aperfeiçoar mais do que dez elogios”.

Os dois lados da moeda: Ora seremos elogiados, ora criticados. Numa ocasião vamos elogiar e em outra criticar.

Quem acredita em tudo só porque assistiu ou ouviu em rede nacional ou de alguém famoso pode estar fadado ao bloqueio mental.

Podemos evitar aplaudir qualquer bobagem só porque outros ou a maioria aplaudiu.

Uma mente aberta e imparcial nos leva a elogiar ou a criticar, mas pelo menos não ficaremos “mudos, surdos e cegos”, mental e fisicamente quando se espera a nossa opinião.

Então, após uma boa avaliação de um assunto, elogie ou critique, mas diga alguma coisa que faça a diferença!


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Notícia ao Paulo


Dona Eugênia estava muito doente. Paulo, um de seus quatro filhos que trabalhava numa empresa de manutenção de elevadores andava muito deprimido. Aos 50 anos o alemão forte e durão não escondia o carinho e a preocupação com a mãe internada havia três semanas.

No final da tarde de uma terça-feira, Antônio, irmão do Paulo ligou do hospital para dar notícias sobre dona Eugênia.

Seu Victor, um dos donos da empresa atendeu ao telefone e ouviu a notícia. Com receio de contar a Paulo aproveitou que seu filho Otávio acabara de chegar e disse:

- Otávio, me faça um favor. Tenho um compromisso, um cliente para visitar, então não se esqueça de dar um importante recado ao Paulo assim que ele chegar.

Otávio, curioso, perguntou qual o recado e seu Victor respondeu enquanto saia:

- Ah, claro. Avise ao Paulo que a mãe dele morreu. Acabaram de ligar do hospital.

O pai de Otávio saiu rápido como se fosse o super homem. Otávio sentiu que havia uma bomba em sua mão, ou em sua boca. Como dar a notícia a Paulo. Primeiro nunca havia dado esse tipo de recado a ninguém. E ainda por cima, estava acompanhando a tristeza e o otimismo de Paulo quanto à recuperação de sua mãe.

Otávio tentou ensaiar como daria a notícia. Pensou em várias maneiras. Ou daria a notícia de forma direta, sem rodeios, ou se o prepararia. De repente, Paulo entra no escritório cantarolando. Otávio se aproxima e diz:

- Oi Paulo. Eu preciso te dar uma notícia – Paulo dispara seu comentário:

- Já sei. O elevador do edifício João Moraes pifou outra vez. Já imaginava.

- Não Paulo. Na verdade é outra coisa.

- Ah, teu pai não se lembrou de deixar o vale. Poxa eu ia precisar. Fiquei de levar umas coisinhas pra minha mãe – Otávio se enche de coragem e diz:

- Não Paulo. Não é isso. É que... É que tua mãe morreu. Ligaram do hospital agora pouco.

Paulo caiu em profundo choro. Otávio não resistiu e chorou muito ao lado de Paulo.

Otávio oferece ajuda, carona, qualquer coisa que possa fazer. Paulo sai chorando.

Quando chega aos prantos ao hospital encontra suas duas irmãs e seu irmão. Paulo chora copiosamente. Os três irmãos não entendem o desespero de Paulo e tentam o acalmar.

Seu irmão, Antônio, coloca a mão no ombro de Paulo e diz:

- Calma meu irmão. Vai ficar tudo bem. Ela está descansando agora.

Suas irmãs dizem:

- Seja forte Paulo. Quer ir vê-la? Mas não faça barulho.

Paulo entra no quarto sem entender o porquê não fazer barulho diante o corpo da mãe.

Ele chora alto e suspira. Seus três irmãos entram no quarto e dizem para Paulo se acalmar. Lembram a Paulo que a mãe precisa descansar...

- Me deixem chorar, mostrar a dor que estou sentindo – argumenta Paulo e completa:

- Minha vida toda tentei ser forte, durão, mas agora, agora não posso aguentar.

Ele sai do quarto e dona Eugênia pergunta com sua voz enfraquecida pela doença o que está acontecendo. Os filhos explicam que Paulo está desesperado. Dizem à mãe que não era para ele estar assim, pois fazia poucas horas que tinham ligado para empresa onde Paulo trabalhava e deram a notícia que a mãe havia passado para um quarto melhor. Que estava num lugar melhor e finalmente havia descansado. Dona Eugênia pede para Paulo voltar ao quarto.

Antônio se aproxima de Paulo e diz que ele deve entrar outra vez. Paulo entra com os olhos cheios de lágrimas, mas dessa vez mais forte.

Ele fecha os olhos, segura na mão direita de sua mãe e diz:

- Mãe, há tantas coisas que eu queria ter dito, mas eu nunca tive coragem. Eu a amo muito.

Quando Paulo abre os olhos dona Eugênia está olhando para ele. Paulo passa a mão sobre seus olhos para fechá-los. Ela os abre outra vez e diz:

- O que está havendo meu filho?

Paulo quase tem um infarto. A mãe morta havia ressuscitado ou ele estava tendo uma alucinação?

Ela diz com sua voz fraca:

- Filho, não fique assim. Você tem que se preparar. Estou morrendo, tenho pouco tempo, seja forte.

Paulo ainda confuso conversa com a mãe por uns 30 minutos. Ele sai do quarto e percebe que houve um sério erro na notícia sobre a morte de sua mãe, mas não conta nada a seus irmãos que ficam sem entender o desespero de Paulo.

No dia seguinte, quarta-feira, logo cedo, Otávio chega à empresa e pergunta a seu Valério, sócio do seu pai:

- Bom dia, seu Valério. E então, como está o Paulo? Onde será o enterro?

Seu Valério levanta-se assustado e pergunta:

- O que tem o Paulo e que enterro? Você está louco?

Seu Valério explica que Paulo saiu cedo para consertar o elevador do edifício João Moraes. Não havia ocorrido nada com a mãe de Paulo.

Ao longo do dia se esclarece o mal entendido. Ao telefone os irmãos de Paulo disseram ao seu Victor para avisar ao Paulo que sua mãe estava muito desconfortável num quarto ruim, e agora estava num lugar melhor, num quarto melhor e finalmente havia descansado.

Seu Victor entendera tudo errado. E agora, como encarar o Paulo no final do dia?

Otávio saiu mais cedo para não se encontrarem. Não sabia o que dizer e como se desculpar.

Logo que ele sai toca o telefone. Seu Valério atende. É Antônio, irmão de Paulo. Ele diz que sua mãe acabara de falecer. Seu Valério diz que sente muito e oferece toda ajuda possível.

Quando Paulo chega à empresa seu Valério diz:

- Paulo, é sobre sua mãe. Seu irmão ligou e disse... – Paulo interrompe seu Valério com seu jeito bronco e diz:

- Já sei, pode ficar tranquilo. Já entendi tudo. Vou lá para o hospital.

Seu Valério fica surpreso com a força e resiliência de Paulo diante do ocorrido.

Paulo chega ao hospital cantarolando e com um sorriso tranquilo. Ele vê os irmãos chorando muito e diz:

- Calma aí pessoal. Precisamos ser fortes. Quero ver minha mãe.

Os irmãos não entendem nada. No dia anterior com a mãe viva ele estava desesperado, agora com ela morta estava cantarolando e os acalmando. Paulo entra no quarto e começa a conversar com a mãe. 

Fala por uns 20 minutos. Então Antônio entra no quarto, coloca a mão no ombro de Paulo e diz:

- Paulo, eu estou feliz e orgulhoso por você estar conseguindo dizer a ela coisas que gostaria de ter dito enquanto ela estava viva.

 Paulo fica intrigado e diz:


Como assim quando estava viva?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O homem do 4


Arnaldo vivia em Curitiba. Aos 44 anos e pai de 4 filhos estava com o casamento por um fio.

Na realidade não era apenas o casamento de Arnaldo que estava a perigo, seu “pescoço” também. Ele havia acumulado muitas dívidas e estava desempregado já por 4 meses.

Certa noite ao chegar em casa se deparou com 4 homens o esperando. Era uma cobrança de dívida de um agiota. Depois de ouvir algumas duras palavras entrou em casa.

Assim que se senta em frente à TV sua esposa, Soraia, diz:

Arnaldo, não da mais. Simplesmente não aguento mais. Eu até te amo, você é um bom pai, mas não tem mais jeito. Quero o divórcio e não adianta você insistir. Namoramos por 4 anos e tinha certeza que você era a pessoa certa. Mas você não para em emprego nenhum. E pior, suas apostas, principalmente nas corridas de cavalos. Chega. Acabou!

Arnaldo, arrasado, entra em seu pequeno escritório. Senta-se diante a velha mesa onde por anos havia elaborado muitos planos, suas apostas em corridas; quase nada dera certo.

Com muitas dívidas, desempregado, o abandono da esposa; tudo parecia desmoronar a sua volta. O apostador teve um horrível pensamento.

Abriu a gaveta da escrivaninha e viu seu revólver, um 38. Arnaldo pegou aquela arma e passou a contemplá-la. Parecia que ela lhe dizia algo. Ele abre a arma e vê que seu revólver tem 4 balas. 

Coloca o 38 sobre a pequena mesa e pensa em fazer uma loucura. Acredita que deveria escrever algo antes de executar o plano. Ele abre novamente a gaveta e vê alguns papéis.

Encontra sua certidão de nascimento e se emociona. Lembra-se dos 40 mil reais que deve. Dos 4 meses que está desempregado. Então volta sua atenção para seus documentos. Sua data de nascimento: 4 de 4 de 44. Em seguida observa uma antiga foto sua ainda em preto e branco.

No verso da fotografia, dizia: Arnaldo Pereira aos 4 anos.

Ele pega a arma e de repente, como que uma luz se acende em sua mente. Para um apostador tudo parece querer dizer alguma coisa; até o nada parece levar a um palpite.

Arnaldo deixou os pensamentos viajarem, e foram longe: Estava com 44 anos. Uma dívida de 40 mil. 
Os 4 homens que o ameaçaram. O namoro com a esposa que havia durado 4 anos. Os 4 filhos. Sua data de nascimento – 4/4/44. A arma com 4 munições. Óbvio, só poderia ser um sinal “dos céus”. O número 4 seria seu número da sorte, sua salvação.

Lembrou que logo haveria uma corrida no Hipódromo onde tantas vezes havia apostado e na maioria se ferrado. Mas dessa vez o Jockey Club traria soluções.

Tudo parecia tão óbvio. Todas aquelas aparições com o número 4. É isso, pensou o apostador.

Sem contar que fazia 4 meses que havia vendido o carro. Resolveu pegar um táxi.

Enquanto aguardava imaginava o quanto custaria à corrida. De repente, vem um táxi e para mais uma surpresa do apostador a placa do táxi era: VAI 4444.

Na mente de Arnaldo não havia o que duvidar. Eis a resposta, ou a solução para suas dívidas.
Ao entrar no táxi se apresenta e pergunta o nome do motorista. O taxista, com educação, diz:

- Prazer, seu Arnaldo. Meu nome é Torquato.

Torquato. Na mente do apostador e a essa altura dos acontecimentos o nome lembra: “Tor quatro”.

Arnaldo contou sua comovente e intrigante história ao taxista. Inclusive a placa do táxi e o nome do motorista. Disse a Torquato que só não apostaria mais porque só tinha os 40 reais para pagar a corrida, claro, se não passasse de 40 reais.

Torquato, sensibilizado com a história de Arnaldo, disse:

- Faça o seguinte meu amigo. Use os 40 reais para a sua aposta. Com o dinheiro do prêmio você me paga.

- Poxa, nem sei como lhe agradecer, seu Torquato. Faço questão de pagar o dobro do valor da corrida com o valor do prêmio que sei que vou ganhar – disse com fé, Arnaldo.

A corrida havia custado 40 reais. Para Arnaldo, mais um sinal. Ele era pura empolgação.

Torquato perguntou a Arnaldo em qual cavalo apostaria. Arnaldo disse que no número 4, lógico.

O taxista ainda pegou 400 reais e emprestou a Arnaldo para aumentar a aposta e o lucro.

Arnaldo sai em disparada. Quase perde o tempo da aposta. O homem do guichê pergunta o número do cavalo. Arnaldo sorri de uma maneira que nem o funcionário acostumado com as apostas consegue entender.

- No número 4, por favor, 440 reais no vencedor. O número 4.

Ele aposta e vai em direção ao local para acompanhar a vitória e o fim dos seus problemas financeiros.

O taxista aguarda sentado num meio fio.

A corrida começa. Arnaldo se emociona. Olha para o céu ao ver o cavalo número 4 em primeiro lugar e agradece sabe lá a quem.

A corrida segue. O número 4 é ultrapassado 3 vezes. Arnaldo leva a mão ao peito.

Fim da corrida. O cavalo número 4 chega em 4º lugar.

O cavalo vencedor é o de número 5.

Arnaldo sai desconsolado. Quando chega a rua vê o táxi estacionado. Só então lembra que agora tem mais uma dívida, aliás, duas, a da corrida e o empréstimo de 400 reais.

Quando Torquato olha o triste semblante de Arnaldo, entende tudo. Arnaldo se aproxima e quando começa a abrir a boca ouve o taxista dizer calmamente:

- Não foi dessa vez, não é mesmo? Não esquenta com a corrida nem com os 400 reais. Quer uma carona de volta?

- Não, muito obrigado. Vou tomar um ar e caminhar um pouco. Desculpe. Não se preocupe.

O taxista vai embora. Arnaldo põe a mão num dos bolsos da calça e encontra 4 reais.

Ele olha para sua direita e vê um carrinho de cachorro quente onde muitas vezes comeu um lanche por 4 reais. Arnaldo se aproxima, cumprimenta o dono do carrinho de cachorro quente e pergunta:

- Boa tarde. Quanto custa o cachorro quente?

- Está 5 reais – responde o homem.

Arnaldo com seus 4 reais senta no mesmo lugar onde estava o taxista. Sente-se perdido.


Ele ouve uma música em alto volume. É um desses carros que anunciam promoções de sorteio de carros e casas.  Arnaldo olha a placa do carro e lê: ARN 5555. Em seguida olha para o chão e encontra uma moeda de 1 real. Levanta a cabeça e pensa: “ARN são as primeiras letras do meu nome. 

A placa: 5555. Com mais 1 real que achei agora tenho 5 cinco reais. Será finalmente um sinal?”

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Empatia e sensibilidade


Num mundo em que muitos reclamam do capitalismo. A população entretida em inúmeros afazeres de ordem profissional, acadêmica, social e recreativa.

A tal crise financeira. O desejo de ter cada vez mais. Longos dias de trabalho. Picuinhas entre amigos e familiares. Toda uma correria “maquiada” por uma aproximação on-line.

Estamos mais próximos graças à tecnologia ou estamos nos enganando?

Em nossas aparições nas redes sociais através de fotografias, opiniões e mensagens parecemos felizes, completos e decididos.

Por que parece ser preciso ocorrer uma tragédia para nos fazer parar, pensar e usar de empatia? Nos colocar no lugar dos outros. Ou “sentir em nosso coração a dor de outro”.

Tragédias envolvendo guerras, violência contra adultos, mulheres, idosos e crianças ocorrem em todo o mundo e todos os dias. Parece que o sofrimento alheio é algo distante.

Na realidade nem sempre é assim. Esta semana uma tragédia mexeu profundamente com os sentimentos da maioria das pessoas, até aqueles aparentemente menos sensíveis.

A tragédia na madrugada de terça-feira, dia 29 de novembro de 2016 que tirou a vida de mais de 70 pessoas, entre elas a delegação com time da Chapecoense ultrapassou Chapecó, Santa Catatina e o Brasil.

O time da Chapecoense de maneira modesta e incrivelmente organizada superou dificuldades e ganhou a simpatia dos Catarinenses.

A tragédia nos fez usar além da empatia, a sensibilidade.

Não havia e não haverá como conter as lágrimas. Jornalistas tentando manter o profissionalismo, mas com olhos marejantes e voz embargada.

Homens ficaram perplexos e muitos admitiram que choraram.

De certa maneira parece que todos nos identificamos de alguma maneira; seja como filhos, pais, amigos ou simplesmente humanos.

Afinal de contas, crianças vão enterrar o pai. Homens e mulheres seus filhos.

Comentários em desespero e por falta de respostas são do tipo: “Deus quis assim”. “Era para ser assim”. “Deus tinha um plano para quem morreu e para quem não morreu ou não embarcou no avião”. “Que Deus é esse?”

As religiões continuam deixando lacunas quando o assunto é a morte e tragédias.

Solidariedade às famílias e amigos é essencial. Mas houve alguém ou alguns responsáveis?

Apurar o porquê aconteceu é vital. Se há responsáveis ou irresponsáveis esses devem ser punidos. 

Não trará de volta os que morreram, mas punirá culpados e poderá evitar outras tragédias.

Que lição ficará em nossas vidas? O que pretendo mudar na minha maneira de viver e encarar amigos, familiares, colegas de trabalho e vizinhos?

Se continuarmos a aguardar por tragédias para nos fazer refletir e nos unir haverá necessidade de mais mortes trágicas.

Mas se usarmos da capacidade de nos colocar no lugar dos outros nas mais diversas situações, sentindo suas “dores em nosso coração” vamos demonstrar – empatia.

Se nos sensibilizarmos com as pessoas em situações que não são trágicas e demonstrarmos compaixão, usaremos de – sensibilidade.

Em memória das mais de 70 vítimas, familiares e amigos podemos fazer mais do que lamentar.

Podemos nos tornar melhores!