quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Bicão com classe


Por vezes os amigos Marcelo e Tomaz não eram convidados para festas de colegas do bairro. 

Enquanto Tomaz reclamava por não ser convidado, Marcelo não perdia tempo, muito menos uma festa, com ou sem convite.

 Marcelo chegava rindo como se fosse um convidado de honra. Tomaz já entrava no local da festa com o rosto vermelho e trêmulo com a possibilidade de serem expulsos e assim humilhados em público. Tomaz sempre se impressionava com a ousadia de Marcelo. O bicão entrava no salão ou na casa onde acontecia a festa, cumprimentava as pessoas, comia, bebia, ria e dançava. Tomaz não aproveitava nada, só imaginava o dia em que alguém notasse que eram bicões e os expulsassem.

Num belo dia de sábado foram passear na cidade de Antônio Carlos. Ao final da tarde notaram uma grande movimentação e Marcelo logo tratou de se informar. Era um casamento. E a pessoa que falou fez questão dizer que seria um baita casamento, um festão. Pudera. Casamento estilo interior, com direito a incluir um boi, porcos, frangos e muita bebida, além de música; bota festa nisso, afirmou Marcelo.

Tomaz segurou Marcelo pelo braço e tentou convencê-lo de que não era boa ideia. Que embora fosse festa grande e com muitos convidados era uma cidade onde todos se conheciam, não daria certo, não ali. Marcelo argumenta que não seria a primeira e nem a última, e que tudo daria certo como sempre.

Eles foram entrando e ficaram impressionados. Havia carne de boi, de porco, frango, maionese, polenta, palmito, cerveja, refrigerante e muito mais. A festa era animada por uma banda que fazia o mais tímido sentir-se um verdadeiro pé de valsa.

Os dois amigos se acomodaram com facilidade, parecia até que aquela mesa estava reservada para eles. A comida e bebida liberada faziam Marcelo comer sorrindo. Tomaz estava começando a entrar no clima quando nota os noivos se aproximando de cada mesa para cumprimentar os convidados.

Ele diz em voz baixa, mas com tom de pavor:

- Meu Deus, Marcelo. Olha lá. Os noivos vão chegar a nossa mesa, o que vamos fazer?

Marcelo, que estava quase terminando o segundo prato, disse:

- Fica calmo, rapaz. Comeu bem?

- Eu ia começar, mas e os noivos? Meu Deus, que vergonha.

- Fica frio, Tomaz. Talvez até passem direto.

Quando Marcelo passa a mão sobre a barriga satisfeita de comida e cerveja o noivo chega sozinho a mesa dos amigos penetras. Tomaz se levanta apavorado. Marcelo passa lentamente o guardanapo na boca e levanta com impressionante calma.

O noivo, com muita calma e educação, aproxima-se dos dois e diz:

- Prestem atenção. Essa é uma festa de casamento, do meu casamento. Aqui há familiares e muitos amigos, mas todos convidados. Não me parece ser o caso de vocês.

Tomaz sente vontade de sair correndo, mas teme desmaiar. Sabia que um dia isso aconteceria e havia chegado o dia.

O noivo diz gentilmente:

- Se já terminaram de jantar, por favor, saiam numa boa, sem problemas.

Vários convidados olham curiosamente, mas não ouvem o que o noivo diz.

Marcelo faz questão de sair com classe da situação e diz em voz alta para que os convidados ouçam:

- Foi uma grande honra estar nesta festa. Tudo está muito lindo e o jantar maravilhoso. Veja as expressões dos convidados. Peço perdão, mas meu amigo e eu precisamos ir, não vamos nem poder esperar pelo bolo. Desejo felicidade a esse lindo casal. Sinto muito, mas realmente precisamos ir. Boa noite!

Quando se aproximam da porta um dos garçons diz:

- Pena que tenham que sair tão cedo. Ouvi suas palavras. São os convidados que demonstraram mais classe até agora. Faço questão que levem alguns doces e um bom pedaço de carne!

Tomaz, tomado de uma confusão mental, vergonha e vontade de matar Marcelo, diz:

- Você ouviu o que o noivo disse? Viu o que aconteceu?

Marcelo responde ao amigo com entusiasmo:


- Sim. O noivo foi extremamente educado e discreto. O garçom muito gentil. Gosto de festas assim. Quanta classe, hein! 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Arte e epifania


Que filme, música, peça de teatro ou notícia te fez sentir mais leve, mais humano, mais solidário ou sensível?

Que situação te fez repensar a maneira de encarar a vida, as pessoas e seus próprios objetivos na vida?

Em que momento pensou que poderia ser mais tolerante, aceitar, perdoar ou que deveria ter perdoado ou agido de maneira diferente?

A palavra epifania está diretamente ligada à religião (revelação), mas também tem uma aplicação e explicação na literatura.

Quando nos deparamos com uma cena de filme, peça teatral, uma leitura ou música e esta nos faz rever nossa vida e conceitos produzindo em nós um estranhamento; isto é epifânico.

Talvez um problema desse sentimento especial seja a sua durabilidade.

Acontecimentos que nos impressionam como as Paralimpíadas nos levam a refletir e a fazer mudanças, mas podem ser efêmeros ou passageiros.

Alguns breves exemplos de fatos e notícias que talvez causaram forte impacto: Quem de nós ficou surpreso e emotivo com a trágica morte de Ayrton Senna? Foi no dia 1 de maio de 1994. Isso faz 22 anos e até hoje lembramos. Mas o que realmente mudou em nossa vida pessoal?

A tragédia com o ator Gerson Brenner, vítima de bandidos que o balearam e o deixaram numa cadeira de rodas em 1998. O acidente com o ator Christopher Reeve, o super homem. Vítima de uma queda de cavalo em 1995 ficou tetraplégico e faleceu em 2004 aos 52 anos.

O ataque às torres gêmeas, World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 deixou o mundo perplexo. Que diferença faz hoje?

Mais recentemente tivemos a trágica morte do ator Domingos Montagner.

Quantos comentários. Quanto lamento. Quantas reflexões. Haverá mudanças em nossa vida?

O último filme que assisti e me causou a epifania foi – Tempo de Despertar – de 1990 com Robert De Niro e Robin Williams.

É verdade que devido a gostos e sentimentos pessoais não nos emocionamos de igual maneira e nem com as mesmas cenas de filmes ou livros.

Falar ou lembrar tragédias com certeza não é produtivo ou animador.

Bom seria tirarmos lições práticas dessas cenas e acontecimentos.

Quando estava prestes a começar esta crônica perguntei a uma senhora qual foi seu momento “de epifania”. Ela disse que foi o infarto que sofreu. Fez mudanças na vida, na maneira de encarar a vida e viver a vida.

Algo muito bom é saber que não precisamos passar por uma tragédia para valorizar a vida e as pessoas a nossa volta.

Lamentar a morte de alguém famoso é normal. Mas e aqueles nossos vizinhos, ex vizinhos e parentes que sofreram ou sofrem dificuldades e não recebem a mesma atenção de um famoso?

Lembrei uma expressão interessante: “Se alguém é apenas ouvinte... é semelhante a um homem que olha seu rosto num espelho... vai embora e esquece como ele é”. Bíblia. Tiago 1:23,24. Notarmos que há campo para melhora e não dar bola é lamentável.

Uma música também me vem à mente: “Quem sabe faz a hora não espera acontecer...”.

Existe algo de proveitoso no processo de epifania na literatura: Deixar a emoção de momentos fazer a diferença. Olhar mais a natureza a nossa volta. Meditar na maravilhosa criação. Demonstrar mais e melhor nosso amor e sentimentos enquanto há tempo. Perdoar enquanto quem espera por isso ainda pode ouvir; os mortos não ouvem.

Literatura é comunicar através das palavras, a arte da palavra. Efeitos como percepção e emoções são compartilhados.

Se algo mudará ou não depois de certas cenas emocionantes dependerá de nós.

Caso contrário vamos continuar nos emocionando com as Paralimpíadas, lindas cenas de filmes e ótimos livros, mas vamos nos levantar e continuar naquela mesma “estrada” cheia de sentimentalismo e sem reação positiva!


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Um modo de falar


Antônio sempre gostou de conversar, de contar histórias, falar do seu dia-a-dia. Um homem simples e ingênuo no seu vocabulário.

Getúlio, um de seus filhos, também gosta de uma boa conversa. E quando se trata de falar pai e filho tem algo peculiar.

Enquanto Getúlio caminha pelo mundo das gírias, o pai, Antônio, tem o hábito de tornar suas palavras e frases engraçadas e desajeitadas. Há pessoas que respeitam, outros debocham, mas a ingenuidade de Antônio nunca lhe permite notar nem uma coisa nem outra.

Getúlio chega ao trabalho e encontra o amigo Osvaldo que acabara de perder a mãe. Ele diz:

- Po bicho, saí do trampo e cheguei na baia pra rangar e minha coroa disse que a tua velha tinha batido as botas. Fiquei de cara meu.

Osvaldo completa:

- Pior que é cara.

Antônio sai do trabalho e monta em sua bicicleta. Ele começa a pedalar e logo pega muita velocidade. 

Minutos depois aparece na barbearia do Valmir todo machucado e com a bike toda torta.

Ele diz ao amigo barbeiro:

- O Valmir, tu não vai acreditar. Eu não vinha correndo com a minha bicicleta, não escorreguei no areão aqui na frente, não caí e não me ralei todo, e ainda não quebrei minha bicicleta.

Valmir, muito debochado, diz a Antônio:

- Que bom rapaz. Que bom que não vou acreditar. Que bom que você não vinha correndo, que não escorregou no areão aqui na frente, que não caiu. Não se ralou e não quebrou a bicicleta.

Antônio em toda sua inocência tenta explicar ao barbeiro:

- Não. Tu não entendeu Valmir. Aconteceu tudo que tu falou, só que ao contrário.

Enquanto Antônio toma um copo de água na barbearia comenta a morte da mãe do Osvaldo.

- Coitadinha da dona Flora, mãe do Osvaldo. Quando acordou estava morta.

O barbeiro Valmir, sempre debochando, diz a Antônio:

- Acordou morta, Antônio?

- É isso mesmo, Valmir. Já pensou que loucura, que susto. Acordar e vê que ta morto?

 Antônio continua sua narrativa sobre a morte da mãe de Osvaldo:

- A pobrezinha morreu na sexta-feira e se enterrou no sábado.

Novamente o barbeiro com seu sarcasmo provoca Antônio sem que ele perceba:

- Poxa, ela se enterrou? Não havia ninguém para enterrá-la?

Antônio responde:

- Agora tu me pegou, rapaz. Foi o que ouvi. Mas parece tinha bastante gente no enterro.

O barbeiro pergunta a Antônio:

- Estás morando aqui perto?

- To sim. Não tem essa rua que asfaltaram agora. Não tem o posto de saúde. Não tem um mercadinho ali na esquina. Então, eu moro do lado.

O barbeiro termina de atender um cliente e diz a Antônio:

- E aí Antônio, vai cortar o teu cabelo?

Antônio sem perceber dá a resposta que Valmir não imaginava:


- Eu não sei cortar cabelo, Valmir. Ainda que do teu jeito prefiro que tu corte pra mim!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Contra a vida?


Se já passou pela sua cabeça em algum momento da sua vida acabar com tudo, colocar um “ponto final”, ou de maneira mais clara, se já pensou alguma vez em cometer suicídio saiba que 17% das pessoas no Brasil já pensaram em fazer isso.

Desesperança, desilusão, impulsividade, sentir-se um fracasso ou um peso para outras pessoas, além de doenças como a depressão, bipolaridade, alcoolismo e outras drogas têm sido marcadas pela a OMS (Organização Mundial da Saúde) como a causa de mais de 800 mil suicídios em todo o mundo e quase 12 mil só no Brasil em 2012.

 Alarmante: A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio em todo o mundo. No Brasil são mais de 10.000 casos por ano, ou 30 por dia. Hoje, em todo o mundo, são mais de um milhão de suicídios por ano.

Entre os jovens de 15 a 29 anos já é a terceira principal causa de mortes.

Falar ou não falar sobre o suicídio, eis uma importante questão.

De um lado a imprensa e muitos profissionais da saúde que na melhor das intenções creem que expor ou divulgar casos de suicídio servirá de incentivo a pessoas propensas a isso.

De outro lado alguns da imprensa e da área da saúde acreditam que “abafar” o assunto só faz piorar a situação.

Uma coisa é certa, os números não mentem, ao contrário, assustam.

Sempre defendi a divulgação do suicídio como meio de “abrir nossa mente” e do poder público para combater o suicídio. Confesso, porém, que meses atrás senti na pele certa dificuldade. Quando vi o sofrimento de familiares de um grande amigo que possivelmente cometeu suicídio cheguei a rever, ainda que momentaneamente meus conceitos sobre o assunto. Acreditei que se a notícia fosse abertamente divulgada como suicídio (ainda que no caso em questão haja poucas dúvidas), a família sofreria mais, talvez se sentindo culpada.

Mais devastador do que a notícia da morte de um ente querido é saber que ele tirou a própria vida.

Para cada suicídio pelo menos outras seis pessoas são afetadas diretamente. São familiares ou amigos íntimos que têm sua dor da perda aumentada com o sentimento de: Como não percebemos? Por que não fizemos nada? Se tivesse prestado atenção aos sinais... Quem sabe ele estaria aqui.

O Dr. João Paulo de Oliveira Branco Martins – Médico Psiquiatra Titular da Associação Catarinense de Psiquiatria: CRM SC/18062 RQE 12342 – colaborou de maneira especial com dados e informações para esse artigo.

Estima-se que 50% dos que cometeram suicídio já haviam sem êxito tentado tirar a vida.

As informações enviadas pelo médico psiquiatra: João Paulo Branco Martins nos lembra de outros fatores importantes.

O suicídio por mais que possa ser planejado é transitório, podendo durar de minutos ou horas.

O investimento na capacitação dos profissionais da saúde, que embora não possam prever o suicídio, poderia torná-los capazes de discernir sinais e regiões onde há maior propensão.

Sabendo que hoje já são mais de um milhão de suicídios em todo o mundo, e que pesquisas apontam que até 2020 esse número pode aumentar em até 50%, podemos nos concentrar no Brasil.

Nosso país é o 8º no número de suicídios. Todos os anos, 10.000 casos. Na média, 30 por dia.

A terceira maior causa de morte entre os jovens. Se notou que já havia lido esses dados nesse artigo/crônica não é mera coincidência. É duro, mas é verdade, é fato. Enforcado, com um tiro, com abuso de medicações e de outras formas. Milhares de pessoas podem ser ajudadas. Milhares de famílias poderiam não estar sofrendo. Quem sabe outras possam não ter esse trauma. 

Noticias locais: Moça cai da ponte... Um homem é tragicamente atropelado por um caminhão... 
Médico conceituado é encontrado morto em seu apartamento.

Quando é um famoso como o ator Robin Williams a noticia é direta.

O drama do tabu e da religião. Durante muito tempo e talvez até hoje o suicídio seja encarado como um dos piores pecados, senão o pior.

Para refletir: Religiosos bem intencionados pregam ou evangelizam em penitenciárias. Dizem a assassinos que se eles se arrependerem Deus perdoa. Não duvido disso. Mas se um assassino, alguém que de livre e espontânea vontade, por ambição, tirou a vida de uma ou mais pessoas tem direito ao perdão; por que não alguém que tirou a própria vida? Por acaso alguém se mata porque está numa boa e acha que já é hora de morrer? Só Deus para saber o que passa pela mente de um suicida.

E ademais. Imagine uma família sofrendo com a morte de um ente querido. A dor aumentada por saber que foi suicídio. Então chega alguém e diz que é um pecado sem direito a perdão.

O silêncio pode ser mais consolador do que muitas palavras.

No mês de setembro há uma mobilização ao combate ao suicídio. Mas o suicídio continua ocorrendo nesse e nos outros 11 meses, em cada dia, em cada família e em cada mente que sofre os horrores das doenças psíquicas que levam a esse pensamento e ação.

Guerras, violência, acidentes, catástrofes naturais, doenças tiram a vida de muitas pessoas todos os anos. Quantas poderiam ser evitadas? Quantas dessas vítimas merecem um julgamento?

Solidariedade e empatia com as famílias que sofrem com o suicídio. Atenção com aqueles que de alguma maneira demonstram o desejo de tirar a própria vida. Não é o caso de pegá-los pela mão e lhes mostrar pessoas que ao nosso olhar sofrem mais.

Muitos pensam assim: “Há tantas crianças e outras pessoas sofrendo tanto e nem por isso pensam em tirar a vida”. Como se esse argumento fosse ajudar alguém com pensamento suicida. Isso é diminuir ou desvalorizar sua dor.

Se perceber um amigo ou familiar com essa possibilidade precisamos o orientar a procurar ajuda profissional. Ajuda de um qualificado profissional da saúde.

A matéria enviada pelo médico psiquiatra, João Paulo Branco Martins nos lembra: “Erros e preconceitos vêm sendo historicamente repetidos, contribuindo para a formação de um estigma em torno da doença mental e do comportamento do suicida. O estigma resulta de um processo em que as pessoas são levadas a se sentirem envergonhadas, excluídas e discriminadas”.

Não cabe a nós julgar quem atenta contra a própria vida, em vez disso podemos trabalhar nossos conhecimentos através da compreensão e empatia.


Eis os desafios: Falar sobre o assunto e saber o que falar!

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As memórias de um jornalista


Bruno sempre fora elogiado por sua boa memória, muito embora ela falhasse em assuntos recentes. 

Uma boa memória é importante em especial para um jornalista em meio a inúmeras matérias e trabalhos.

Certo dia, Bruno recebeu sua pauta e achou mais do que interessante. Deveria viajar até Porto União em Santa Catarina para entrevistar um velho índio. O chefe de Bruno explicou que escolheram aquela pauta devido a temas sobre: Boa memória, e aquele índio, segundo o que se dizia, tinha uma memória incrível.

Bruno entra em seu fusca e viaja até Porto União. Assim que estaciona o carro passa a apreciar a bela cidadezinha com ar de interior e a costumeira calmaria.

Depois de caminhar alguns minutos pergunta a um homem na praça se conhece certo índio de boa memória. Para sua surpresa e facilidade o homem aponta para um índio sentado em um pequeno banco de pedra. Bruno leva a mão até o bolso da camisa com a intenção de pegar o bloco de anotações. Nota que havia o esquecido no carro. Assim que volta e abre o fusca vê o bloco no banco do carona e também seu gravador, do qual havia esquecido as pilhas novas no jornal.

Com o bloco nas mãos ele se aproxima do índio e começa a avalia-lo. Parece ter uns cinquenta e poucos anos, pele e aparência facial de um índio que vivia sem os cuidados da cidade, mas com a força e semblante de paz de quem vive exclusivamente em meio à natureza.

O jornalista atencioso abre seu bloco de notas e inicia breves lembretes sobre aquela situação.

Coloca a data: 25 de maio de 1985. Ele chega perto do índio, apresenta-se e pergunta sem avisar o motivo principal da entrevista; queria começar a matéria de maneira especial e testar a tal boa memória do índio. Bruno pergunta:

- O que o senhor comeu na manhã de 07 de junho de 1950?

- Ovos!

A resposta rápida, sem nem sequer um instante para pensar, ou um olhar para o alto a fim de buscar suas memórias. Simplesmente incrível. A conversa seguiu e surpreendeu muito a Bruno.

A matéria publicada no jornal em qual trabalhava no dia 28 de maio de 1985 fora muito elogiada.

O tempo passou rápido. Bruno já estava aposentado, mas continuava trabalhando. Aos 62 anos de idade nem pensava em deixar o jornalismo.

Em suas férias no mês de maio de 2015 ele viaja com esposa com a intenção de conhecer novos lugares, outras cidades. Chegam a Porto União, perto da divisa com o Paraná. Começa a caminhar com a esposa, Aline. Ela vê certa loja de artesanatos e diz ao marido que vai olhar mais de perto aquelas belas obras. Bruno sente algo estranho e diz à esposa que quer seguir em frente em sua caminhada. Explica que tem uma estranha sensação. Era como se já tivesse passado por essa cidade, mas não tem certeza de quando e por quê.

Ele pensa: Será que era uma namorada? Vim comprar um carro? Quem sabe alguma festa? Ou talvez alguma matéria para o jornal, mas sobre o quê?

De repente, ele olha adiante e vê sentado na praça, num pequeno banco de pedra, um velho índio. 

Agora as coisas começavam a fazer sentido. O velho índio, a praça, seu fusca; um índio com uma incrível memória. Devia fazer pelo menos 30 anos que estivera ali. Ele caminha lentamente em direção ao velho índio enquanto retornam seus pensamentos, sua lembranças, suas memórias.

Fica surpreso em ver o índio ainda vivo. Perplexo caminha em direção ao senhor. E dessa vez de férias, sem blocos de notas e sem os modernos aparelhos de comunicação. Bruno se abaixa em frente ao índio velho e pergunta ainda um tanto confuso:

- Mas como?

O índio velho, sem pensar, sem titubear, sem recorrer a olhar para cima em busca de respostas diz a Bruno imediatamente:


- Fritos!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ausente ao funeral


Para quem fala do assunto com tranquilidade não sentirá receio na sequência dessa crônica.

Já os mais receosos talvez digam: “Tá é louco, que assunto hein”.

Escrevi uma crônica há mais de um ano com o tema – Deitado, nem morto; baseada num costume em certa cidade americana onde a Lei municipal permite a família, respeitando o desejo do finado de ser velado fora do caixão. Vale numa rede ou cadeira de balanço, numa moto Harley- Davidson, na cadeira a beira da mesa com uma lata de cerveja à frente, enfim, o que a pessoa mais gostava de fazer em vida. Ah, vale ressaltar que a Lei proíbe em posições imorais.

Como o assunto é morte e a necessidade de doação de órgãos é grande chegamos ao tema – Ausente ao funeral.

Particularmente nunca gostei da ideia de ser colocado num caixão, nem vivo e nem morto. Também não digo que teria o desejo de ser velado fazendo o que gosto; com tesoura e navalha nas mãos, com o computador sobre as minhas pernas como costumo escrever ou próximo a um microfone realizando uma entrevista ou apresentando um programa de rádio.

Por anos deixei minha família avisada de que sou doador de órgãos, mas tive outra ideia.

Que tal ir para a faculdade ou a universidade assim que encerrar a carreira de barbeiro e jornalista? 

Uma vaga garantida na UFSC, e saber que poderei ser útil à medicina, a ciência.

 E melhor de tudo; escapar do caixão, flores e a sogra rezando ao meu lado. E tem mais, sem trabalho para a família arrumar lugar para deixar essa beleza de corpo ou mesmo os gastos com a bendita cremação.

Assim que estiver com tudo decidido vou avisar a família e aos amigos que não se assustem se chegarem ao meu funeral e não virem a tal urna, não a eletrônica ou a eleitoral, o famoso paletó de madeira, flores e toda estrutura em volta.

Estou pensando seriamente em entrar para a universidade. Por que parar de trabalhar depois de morrer? Trabalho sem esforço, sem levantar cedo em dias frios, livre da labuta nos dias quentes de verão. E continuar a fazer algo de útil, ainda que não veja e nem sinta. Cardiologistas, neurologistas, urologistas, proctologistas; nem esses dois últimos causarão calafrios.

Quando alguém lembrar e perguntar por mim, dirão: Está na universidade. Grande colaborador de professores e alunos de medicina. Quem sabe esse corpo venha a ajudar na descoberta de mais curas, melhores tratamentos.

O tema pode parecer um tanto indigesto. Pode parecer ironia com coisas sérias, mas jornalismo é assim; fazer pensar, levantar temas e assuntos.

Fui bem atendido por telefone e informado que a pessoa interessada pode ir até a universidade e preencher um documento, e claro, avisar a família, ela terá plenos poderes quando nós não mais tivermos.

Pode-se velar a pessoa e depois enviar o corpo. Ou pode-se enviar o corpo pra lá assim que se confirmar o óbito. Corpo inteiro, com todos os órgãos.

 Nesse caso vejo vantagens. Sem caixão e sem despesas. Sem um velório de horas e horas. Talvez e dependendo das crenças um discurso fúnebre. Pediria a um amigo que dissesse algo sobre a minha pessoa, sobre o que creio e minhas convicções espirituais.

Pessoas rindo e falando das minhas gafes, que não são poucas. Quem sabe alguém chorando nem que seja para fazer um grau. Boas músicas. Não estarei ouvindo, mas deverá ser legal.

Aqui entre nós, se discutem tantas bobagens. A vida alheia, por exemplo. Temas exaustivos não faltam na mídia. Será que isso não é importante? Cabe a cada um responder e decidir, mas é fato que queremos e precisamos do avanço da ciência e medicina.

Então, se eu estiver ausente no dia do meu funeral (do qual não tenho pressa), não pense que estou atrasado, que estou no trânsito, ou que me esqueci; talvez tenha mudado de hábito e profissão.

Ainda não está definido, mas possivelmente partirei da barbearia e do jornalismo para a medicina, pelo menos como colaborador.

E admito, gostaria muito de escapar no meu funeral!



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Arma com porte e registro


Em tempos de violência, assaltos e impunidade muitos discutem a liberação do porte e uso de arma de fogo.

Se haverá a liberação ou não é motivo de debates e discussões nas rodas de amigos. Ainda assim somos portadores de uma “ferramenta”, um membro, ou uma “arma” da qual temos liberdade para usar dentro de casa, no trabalho, em festas, templos religiosos e até no churrasco com amigos.

Ela nasce conosco e ao primeiro tapinha que tomamos na vida, pelo menos na maioria dos casos, e já abrimos a boca mostrando nossa “faca”, “espada”, “pistola”. E daquele dia em diante a usamos para quase tudo na vida. Para avisar da fome, da necessidade de limpeza ou mesmo de pura birra.

Assim como armas são usadas em algumas situações para salvar vidas de inocentes, armas similares são usadas para o mal, com a intenção de ferir, amedrontar e até matar.

Nossa língua tem todo esse potencial, dificilmente alguém duvidaria.

Afinal de contas, quem de nós já não foi consolado com boas palavras em momentos difíceis?

E quem de nós já não teve a triste experiência de ouvir palavras como que disparadas de maneira cruel nos momentos mais complicados da vida?

Já que temos nosso “porte e registro” dessa poderosa arma poderíamos fazer como quem usa uma arma de fogo: Praticar. Mirar o alvo certo. Atirar na hora certa e com a intenção certa. E principalmente saber quando não sacá-la.

Simplesmente falar o que nos vem à mente e dizer que: “Eu sou assim mesmo, falo o que penso e não quero nem saber, é o meu jeito”, pode até parecer direito nosso, mas o que revela sobre a nossa perícia no uso de nossa “arma legal”?

Frases importantes: “Palavras impensadas são como golpes de uma espada...”. Provérbios 12:18. 

Dizer o que bem pensamos sem levar em conta se estamos certos ou errados é no mínimo inconsequente.

Quantas brigas poderiam ter sido evitadas, quantas vidas poderiam ser poupadas com o simples ditado: “Quando um não quer dois não brigam”. Frase sábia: “Uma palavra branda acalma o furor, mas a palavra dura atiça a ira”. Provérbios 15:1

Até na arte de conquistar coisas realmente importantes e da maneira correta ela pode ser usada: “Com paciência pode-se convencer um governante, e a língua suave pode quebrar um osso”. Provérbios 25:15

Nos filmes de faroeste assistimos homens sacando suas pistolas e o mais rápido vence o adversário. A perícia em sacar a arma, de mirar e atirar impressiona.

Hoje, como portadores de nossas “armas” poderíamos usar de perícia, bom senso e respeito ao próximo. Poderíamos avaliar o modo como falamos, como sacamos (abrimos a boca), como miramos (o que pretendemos com nossas palavras) e o tiro certo (como a bala/palavra afetará a pessoa atingida).

Por vezes não mostramos perícia nem quando a usamos para defender a quem amamos. Dizemos coisas que normalmente não diríamos. Usamos de argumentos que nem a nós convenceria, mas simplesmente a usamos.

Parece que muitos demonstram uma “certa perícia” em certas épocas do ano, no final do ano, por exemplo. As palavras de calor humano, de desejos de saúde, sucesso, paz, fraternidade e outras “disparadas” com sinceridade ou só por educação. Naqueles últimos dias do ano parece que somos peritos em usar nossa arma mais poderosa, mas e nos outros 11 meses do ano?

A arma continua ali. Muitos de nós a olhamos diariamente, até sua higiene fazemos. O detalhe é fazer bom uso dela não só para evitar brigas, mas para manter a paz. Não apenas como um amargo remédio, mas como uma cura.

Está aí uma arma que todos nós usamos mal vez por outra. A palavra falada ou escrita tem poder. 

Nem sempre vamos ouvir palavras que só nos agradam, afinal de contas há remédios que são amargos, mas necessários. Ainda assim com a intenção correta e muita atenção nossa arma companheira pode nos fazer sentir bem por usá-la para o bem.

Aliás, o único que pode nos multar ou nos cassar esse “porte” seremos nós mesmos por ferir e afastar desconhecidos e amados.

Podemos curar ou matar com nossa “arma” pessoal e legalizada.

Melhor pensar duas vezes antes de sacá-la da próxima vez; talvez nem a usemos!







quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A fotografia


Era por volta do ano de 1995. Eu estava em uma agência bancaria no bairro, Estreito, Florianópolis, havia uma grande fila que mal parecia se mover. Contas e depósitos me faziam ficar muito concentrado nos detalhes. De repente, olho para frente e observo um rapaz com os olhos fixos em mim.

Acenei com a cabeça acreditando o conhecer de algum lugar, sabe Deus de onde.

Voltei atenção às contas a pagar e depósitos a fazer.

Quando levanto a cabeça o rapaz está a minha frente e sorrindo. Definitivamente não me lembrava dele, mas educação e simpatia não fazem mal a ninguém, pelo contrário.

Bastou eu dizer oi e ele seguiu a conversa:

- E aí, rapaz, tudo bem?

Tentei lembrar dele; quem sabe do colégio, Cabral, CEPU, Escola Técnica; nada, não lembrava. 

Resolvi manter a gentileza e mantive a conversa:

- Estou bem, obrigado. E tu, estás bem?

- Ah, estou bem, na luta de sempre. Essa fila não é novidade, mas hoje está demais.

Ele me olhava como se me conhecesse bem e continuou nossa conversa:

- E teus pais, estão bem de saúde? Sinto saudades deles.

Agora eu estava mais assustado, como ele poderia conhecer até meus pais e eu não lembrar dele.  Senti vontade de dizer que ele deveria estar me confundindo, mas havia várias pessoas na fila que ouviam nossa conversa e tive receio de constrangê-lo. Confirmei que meus pais estavam bem e mantive o papo, perguntando:


- E teus pais, estão bem de saúde, estão aposentados?

- Estão aposentados sim e a saúde, razoável.

A fila começava a se movimentar e parecia que alguns que nos olhavam até perguntavam por que ainda não tínhamos trocado um abraço, afinal de contas, era ou parecia o reencontro de velhos amigos. Pensei que já era hora de dizer que havia algum engano, que ele havia me confundido com alguém. Quem sabe se com jeito eu perguntasse seu nome dizendo que havia esquecido, ele perguntaria o meu e veria por conta própria seu engano.
Quando eu ia perguntar seu nome mais uma surpresa do meu “velho conhecido”.

- Ah, eu já ia me esquecendo. Tenho uma fotografia nossa, está em minha carteira, só um instante que vou pegá-la.

Dessa vez quase tive certeza de estar sem memória. Claro que ele me conhecia, tinha até uma fotografia nossa. Pronto, ele estava certo e eu doido. Ele tirou a fotografia da carteira e com o indicador direito apontaria para minha imagem na foto. Gelei. Que loucura. Como podia não me lembrar dele se até uma fotografia comigo ele tinha? Ele baixou a foto e me perguntou:

- Quando foi mesmo que tu destes baixa do exército?

A coisa só piorava. Quem estava louco, eu ou ele? Eu nunca servi o exército. Se eu estivesse mesmo na fotografia teria que procurar por um tratamento psiquiátrico urgente. Ele me mostrou a fotografia e apontou para ele, rindo. Em seguida nós dois procuramos minha imagem na fotografia. Eu olhei os cinco militares e não me reconheci em nenhum deles. Antes que ele notasse isso apontou para um deles e disse:

- Que loucura o João, hein. Cometeu suicídio um mês depois de dar baixa. Mas não estou te encontrando. Claro, desculpe amigo. Quando tiramos esta fotografia tu já havias dado baixa, acho que uma ou duas semanas antes. Lá em casa tenho uma em que estamos juntos. Ainda trabalha no mesmo lugar?

Perplexo com sua convicção e com pena de desagradá-lo, disse que sim, que trabalhava no mesmo lugar. Não sei de que mesmo lugar ele falava. O rapaz estendeu a mão e eu também. Depois ele sorriu e nos abraçamos. Ele foi se afastando e falando ao mesmo tempo:

- Foi bom te reencontrar. Vou dizer aos meus pais que estás bem. Por favor, mande um abraço para os seus. Assim que achar nossa fotografia levo pra ti. Abraço!

Já estava chegando a minha vez de ser atendido. Até hoje penso numa razão para aquela situação. Um reencontro de quem nunca havia se visto antes. Memórias do quartel que nunca frequentei. A prova na fotografia em que eu não estava. Não o constrangi e nem o deixei magoado. Ele fora embora com a sensação de ter encontrado um velho amigo e eu consegui não deixá-lo constrangido com seu equívoco.

 Mas confesso que fiquei curioso em ver a outra fotografia. Sabe lá!


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Alberto e a viúva


Alberto nunca foi bom com as palavras. Não era incomum olhar para uma mulher com uma barriguinha um pouco evidente e perguntar:

- Está de quantos meses? É menino ou menina?

- Não estou grávida!

Os foras não paravam por aí:

- Oi Ana. Esse é o teu filho mais velho?

- É meu namorado!

 Ao andar com um amigo na rua viu uma senhora e disse:

- Olha lá, Rogério. A vovó vai atravessar a rua sozinha. Coitada.

- É a minha esposa, Alberto.

Por essas e outras Alberto começou a ficar mais calado. Certo dia um amigo de trabalho, o Claudio, disse que o Mário havia morrido. Imediatamente, Alberto lembrou de seu ex vizinho, Mário. Homem trabalhador, cara divertido.

Claudio ainda salientou que Mário andava muito doente havia anos. Estava sofrendo o que chamou de inferno. Na verdade Mário foi libertado de uma agonia, uma prisão, afinal de contas, viver com dores e dependendo da ajuda dos outros, era um inferno mesmo. No fundo, sua esposa deveria ficar até aliviada.

Alberto ouviu tudo aquilo e pensou em Lígia, esposa ou agora, viúva de Mário. Queria poder consolar a pobre viúva. Mas como? O que dizer? E se falasse besteira? E em dar fora Alberto era especialista.

Por duas vezes Alberto viu Lígia e atravessou a rua só para não ter que falar do finado. Não estava pronto para o importante consolo.

Certa noite Alberto parou e pensou. Pensou que já era hora de aprender a se expressar sem falar bobagem, usar bem as palavras. Resolveu treinar sozinho, de frente para o espelho.
Imaginou Lígia. Lembrou de como Mário era e de quanto estava sofrendo. Lembrou das palavras de Claudio. Mário estava livre do inferno que vivia, de todo o sofrimento, da agonia, de uma rotina terrível. Pronto. Já poderia consolar a viúva e não falar besteira. Pelo menos uma vez na vida.

No dia seguinte encontrou Lígia e dessa vez não desviou. Aproximou-se, respirou fundo, e olhando em seus olhos, disse:

- Bom dia, Lígia. Estava há dias para falar contigo. Na verdade pensei muito bem no que deveria te dizer. Por favor, preste atenção a cada palavra minha e veja a sua real situação.

O Mário não merecia o que vinha passando. Um cara do bem, trabalhador, divertido. Ele estava sofrendo demais. Aquilo não era mais vida, era tortura. Imagine a frustração dele. Sua agonia e rotina. Se é que existe esse tal de inferno é o que o pobre do Mário vivia. Agora está livre e em paz.

Lígia ouviu perplexa as palavras de Alberto. Depois de balançar a cabeça olhou bem para ele e disse:

- Cachorro, sem vergonha, nojento. Você é igual ao Mário ou até pior. Aliás, vocês são todos iguais, não valem o que comem. Eu quero mais é que você vá para o inferno e mais, quero que o Mário... 

Melhor eu parar por aqui. Seu idiota!

Alberto ficara perplexo com as palavras de Lígia. Como podia ser tão dura diante palavras consoladoras. E pobre do Mário, não basta o que sofrera. Que tipo de mulher falaria assim?

No dia seguinte assim que chega ao trabalho encontra o amigo, Claudio. Ele o chama e diz:

- Claudio. Não vai acreditar no que aconteceu ontem. Encontrei a mulher do Mário e falei com ela. 

Não vai acreditar no que ela me disse.

Claudio respirou fundo e falou:

- Alberto, não dá pra esperar que ela esteja feliz e calma. Afinal de contas o que o Mário fez foi uma cachorrada sem tamanho. Uma mulher como ela, trabalhadora, linda e educada. Descobriu que o 

Mário a traia há mais de 10 anos. Várias amantes e 2 filhos fora do casamento. Gastava dinheiro até em noitadas. E pior, ele teve a cara de pau de dizer pra ela que ele vivia numa horrível rotina, numa agonia, que sofria ao seu lado, que sua vida era um inferno – Claudio continua seu desabafo:

Dá pra imaginar? A mulher descobriu que o marido é um baita safado e ainda ouve tudo isso. Pobre da Lígia.

Sem entender mais nada, Alberto perguntou:

- Claudio, tu não me disse que o Mário havia morrido?

- Sim, morreu. Mas falei do Mário da dona Soninha. O pobre estava muito mal. O Mário da Lígia é que é um safado e está bem vivo. Ainda bem que você a consolou. Afinal de contas, o que disse a ela?

- Eu? Bem, eu disse o que se diz numa situação dessas. Enfim, falei algumas coisas.


Alberto se afasta de Claudio pensando na pobre Lígia. Ele esfrega a mão na testa e fala baixinho: 

Droga. Consolei a viúva errada!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Elas por eles


Machismo ou feminismo, o que mais interfere de maneira negativa nos relacionamentos?

Que ambas interferem não é novidade. Novidade pode ser ouvir, escutar e entender o significado de: feminismo e machismo. E igualmente importante; o que as pessoas têm em mente ao usar essa expressão.

Diz o “velho amigo dicionário” que machismo é a atitude ou comportamento de quem não admite a igualdade de diretos de homens e mulheres.

E o “velho amigo” nos diz que feminismo é o movimento oposto ao machismo.

Uma coisa é certa: É um pouco menos perigoso andar num campo minado do que falar sobre isso.

Machistas não assustam ninguém. Já com as feministas pode ser diferente. Será?

Quem não conhece ou conheceu um machista? Ou será que há uma inversão no entendimento da palavra – machista? Quem trabalha ou já trabalhou com vendas sabe que na maioria dos casos a mulher é que dá a palavra final. É muito comum ouvir um homem dizer antes de uma decisão: Tenho que falar com a patroa. Ela é quem manda. Ou será que ele (nós), dizemos isso só para fugir da responsabilidade. Tipo: ela é quem decide, não tenho nada haver com isso.

O cara mandão pode no intuito de confirmar o quanto manda na mulher perguntar a ela:

“Lá em casa quem manda sou eu, não é mesmo querida?”

Já falei para alguns amigos: Tem homem que não manda em casa e tem homem que mente.

Mandar em casa não é o caso. O caso, os direitos, o respeito e a compreensão, sim.

De mãe para filho e de pai para filha.

 Ainda existem mulheres que querem ter um filho “garanhão”. Existem também os machões que querem um filho “garanhão”, mas não com a sua filha. E aquelas mães orgulhosas dos filhos. Quando o filho vai bem no colégio ou conquista algo maravilhoso, ela diz: Ah, esse é meu filho! Quando o filho (a) apronta algo de errado, ela diz ao marido: Olha só a nota que teu filho tirou... Olha só o que tua filhinha querida fez!

E a história da mulher que diz para filha que já está mais do que na hora de o genro comprar a máquina de lavar, afinal de contas, sua filha não é escrava para lavar roupas no tanque. Já para o filho a mesma mãe diz: Não vá se meter em dívidas só porque a tua mulher (nora) quer uma máquina de lavar. Lavei roupas no tanque por anos e não morri por isso.

As mulheres sofrem com o machismo imbecil que ainda existe. Questões salariais, por exemplo. Há homens que falam das mulheres não apenas as rebaixando, mas as encarando como puro objeto sexual. Alguns atrasados (homens e mulheres) defendem que mulheres são responsáveis por estupro porque se vestem de maneira provocante. “Coitadinho do estuprador, foi levado à tentação, ela estava quase nua e ele não aguentou. Quem manda se vestir assim”.

Absurdos como esses parecem piadas de mau gosto, mas não são, há quem pense assim.

Para nossa classe de “machos dominantes” a coisa não anda muito boa. Elas estão no poder.
Uma palavra, um berro ou mesmo um olhar atravessado diz tudo.

E quanto a dividir as contas? Isso é simples. Pelo menos para quem é razoável.

Homens têm chorado em filmes de romance “água com açúcar”, tipo: Como eu era antes de você.

 Machos têm beijado e expressado amor e carinho pelos filhos, pais e claro, esposa.

Eles estão se cuidando mais. Apontam para uma atitude de aproximação.

Nós podemos estar um pouco ou bem mais sensíveis. Deem espaço, tempo, ouvidos e verão um machão ignorante ou machão disposto a conversar, se abrir e ouvir.

Mas e elas, o que as mulheres parecem querer?

Elas querem carinho, atenção, beijos, abraços, amassos e acima de tudo, querem ser ouvidas.

Se passarmos por esse terreno minado sem pisar no lugar errado é porque tivemos coragem e cuidado. Chegamos ao outro lado e vimos que é possível olhar de – outro lado e por outro lado. 

Opostos, mas num mesmo terreno, cheio de bombas e com muitas opções de terreno seguro.


Se cheguei ao final desse texto (desse campo delicado) sem te deixar irritada ou chateada, bravo ou indignado, me disponho a atravessá-lo outra vez. É um caminho que vale a pena. Senão fica assim: 
Elas por eles, eles por elas e seguimos essa estrada tão perigosa e única. 
Nossa convivência!