quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Spotlight: Segredos Revelados


Sabemos que a pedofilia é praticada de maneira geral por pessoas próximas. Crianças, adolescentes e pais são persuadidos a confiar nos pedófilos como se fossem pessoas acima de qualquer suspeita.

Pais, padrastos, tios, avós, amigos da família estão entre aqueles que molestam crianças causando traumas terríveis.

Cabe o ditado: “Seguro morreu de velho”. Não quer dizer desconfiar de todos, mas ao mesmo tempo não confiar demais, principalmente quando o risco é a pedofilia.

"Ah, ele ou ela jamais seria capaz de fazer isso, ponho minha mão no fogo”. Então saiba que as possibilidades de se queimar são reais e consideráveis.

O perigo também se esconde atrás de títulos de “santidade”.

O filme – Spotlight – Segredos Revelados, baseado em fatos reais, conta a história de um grupo de jornalistas do The Boston Globe que investigou, descobriu, se apavorou e publicou um artigo sobre padres pedófilos.

Na ocasião, por volta de 2001, havia pelo menos 87 padres que haviam molestado crianças; detalhe: 87 só na cidade de Boston.

Há pesquisas que segundo o filme apontam que até 6% dos padres poderiam estar envolvidos em pedofilia.

Em especial crianças de famílias carentes e pouca estrutura, dizem que veem o líder religioso como se fosse “Deus”.

“Um dia ele pede para a criança recolher o lixo. Depois conversa mais. Um dia conta uma piada obscena (agora eles têm um segredo), e por fim mostra uma revista pornográfica” (Relato de uma das vítimas no filme).

Tudo termina, ou começa, quando “o padre tira a roupa e pede para o menino o masturbar e fazer sexo oral nele”. (Continuação do relato)

Quando acontece com meninos que são ou acreditam ser homossexuais tudo parece diferente; afinal de contas eles sentem que “deus” entende e aceita sua situação. (Também relatos do filme)

O filme – Spotlight – Segredos Revelados - deve ser mais anunciado, divulgado, assistido e discutido.

Concluir que isso acontece apenas em outros países é ingenuidade.

Pensar que isso só acontece “lá longe” é fechar os olhos a uma terrível e devastadora realidade.

Quando os abusos são cometidos por lideres religiosos à coisa é agravada por vários motivos.

Primeiro: Estão entre aqueles que parecem estar – acima de qualquer suspeita.

Segundo: O medo de denunciar um “homem de Deus”.

Terceiro: A maneira como a igreja por tantas vezes oculta, esconde, transfere o padre pedófilo para outra paróquia. Já molestou aqui, ficará conhecido. Quem sabe numa cidade onde ninguém saiba. E se abusar lá se transfere outra vez...

Pais precisam alertar e conversar com os filhos. Alguns falam besteiras e contam piadas sobre sexo com amigos, mas não são capazes de ter uma conversa respeitosa, porém aberta com filhos e filhas, os alertando contra os pedófilos. Dizer o que fazer e para quem contar. Que pode ser o vovô, o papai, a mamãe, o titio, o padrasto, o melhor amigo dos pais e até um “homem de deus”.

A denuncia pode não resolver por completo, mas dará a oportunidade de se fazer justiça e talvez impedir que outras crianças venham a ser molestadas.

E a imprensa? Parabéns a imprensa. Parabéns aos jornalistas que investigam e publicam.

Jornalismo é isso, abrir temas importantes. Falar o que não parece conveniente e o que alguns não desejam ouvir.

Imparcialidade é importante sempre. Não podemos deduzir que a maioria dos lideres religiosos são pedófilos, mas o número é assustador. Mais assustador ainda é saber que os que têm poder para denunciar e punir por tantas vezes apenas encobrem.

Dizem que segredo deixa de ser segredo quando revelado.

Há segredos importantes a serem guardados e outros não.

Pedofilia, pessoas próximas e principalmente, “homens de deus” devem ser monitorados, descobertos, julgados e condenados (não transferidos como tem acontecido).

Quando conversar com uma pessoa religiosa pergunte a ela como sua igreja trata ou lida com casos assim.

Nosso papel na imprensa é dar notícias e informações. No filme Spotlight quando um líder religioso disse que é importante que a imprensa trabalhe em conjunto com instituições, ouve do editor: “Em minha opinião é melhor que a imprensa trabalhe de maneira independente”.

Pedofilia, pais e imprensa. Denunciar, divulgar e proteger. Caso contrário só haverá as lágrimas e os traumas das incontáveis vítimas desses terríveis abusos – guardadas em segredo!



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Dois jeitos de ser


Quem já sentiu a necessidade de encontrar alguém para compartilhar a vida, namorado ou namorada, esposa ou marido, talvez tenha pensado em encontrar a “outra metade da laranja”.

O que esperamos com a “outra metade da laranja”? Encontrar alguém que combina muito conosco, alguém diferente para nos completar?

Como deve ser viver com alguém que tem os mesmos gostos, desejos, manias, ambições, medos e outras coisas muito parecidas?

E como deve ser compartilhar a vida com alguém com diferentes gostos, opiniões, desejos e medos?

Amizades não costumamos idealizar. Conhecemos alguém e dependendo da “afinidade” nos tornamos amigos ou não. Ainda assim é comum discordarmos em algumas coisas e opiniões de nossos amigos.

Casar com alguém muito parecido pode fazer com que ambos queiram seguir “os mesmos caminhos” e falte alguém para colocar um “freio”, para não agirmos por impulso em situações em que seria necessário um ponto de equilíbrio.

Um é muito ousado, “mete a cara” e pronto, não tem receio de que suas decisões deem errado. Pode até parecer um tanto irresponsável, ou é simplesmente ousado.

Alguém que pense diferente pode completar uma relação de maneira especial.

Ter como parceiro na vida e da vida alguém que pare e pense e que ajude a avaliar melhor as decisões sem precipitações deve ser bom.

Deve ser também complicado alguém muito melindroso, aquele ou aquela que acha que nada nunca vai dar certo e costuma ser um “freio de mão sempre puxado”.

Entre as “duas metades da laranja” que completam uma relação a “outra metade” pode ser parecida ou diferente.

Ser parecidos deve ter benefícios ou vantagens e desafios. Ser diferentes também.

A poesia na música de Peninha: Matemática; aborda uma relação “da outra metade da laranja” quando ela é diferente e feliz.  A essência da canção diz:

"Você ama matemática eu adoro português, me arrependo do que fiz e você do que não fez, eu preciso de silêncio e você de multidão, dois jeitos de ser, um só coração; é, e é por tudo isso que está dando certo, melhor coisa do mundo é ter você por perto... sou a pessoa mais amada da cidade”.

Então sempre que ouvirmos um amigo ou amiga se queixando do marido ou da esposa, de que ele faz e pensa assim, ela diz e pensa diferente, é a “outra metade da laranja” se expressando.

O problema, se é que há problema, talvez seja não termos percebido que essas “diferenças” podem justamente ser a essência, a elegância e a segurança de uma boa relação.

Sugar o melhor dessa “laranja” pode ser bem mais saboroso se valorizado em vez de criticado.

Saborear essa “diferença” pode nos ensinar em vez de nos irritar.

Aprender e compartilhar com essa “metade da laranja” nos fará vê-la como inteira, afinal de contas quando a conhecemos já éramos inteiros, talvez apenas não tivéssemos percebido e só percebemos graças a essas maravilhosas diferenças.


Dois jeitos de ser não precisa impedir de unir e de amar!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Barbearias


Quantos desabafos já aconteceram. Quantas revelações familiares já foram expressas.

Quantos conselhos já foram dados ou solicitados. Quantos pais “babaram” ao presenciar o primeiro corte de cabelo de um filho. Quantas vezes se discutiram assuntos que muitos dizem que não se discute: futebol, política e religião; espaço democrático.

Quantas crianças se tornaram adultos tendo como cúmplice de seus altos e baixos a barbearia.

Quantos chegavam a todo vapor e hoje entram com as dificuldades impostas pela idade avançada. 

Quantas vezes se faz um último atendimento sem o saber.

Não há quem não tenha histórias vivenciadas em uma barbearia.

Na quinta-feira, dia 10 de outubro de 1996, iniciei na profissão e lá se vão 20 anos. Calculo mais de 50 mil atendimentos.

Amizades, experiências, troca de conhecimentos e um caminho para a comunicação, e poderia haver lugar melhor para praticá-la?

Do homem que só depois de cego realizou o sonho de conhecer o Pantanal e conheceu sua beleza através dos olhos do filho que lhe contou cada detalhe.

De um menino de 4 anos que havia sido retirado da casa dos pais naquela manhã e chorava copiosamente enquanto eu o atendia. Perguntei aos funcionários da casa lar por que havia sido retirado de casa. Responderam que por maus tratos. Com um mandado judicial a criança fora resgatada do sofrimento. Em ignorância perguntei o porquê chorava tanto se agora estava livre dos agressores e das carências. O óbvio: Era uma criança de 4 anos, preferia estar com os pais mesmo apanhando e com fome.

De pai e filho que viviam em discussão, pé de guerra, sem diálogo. Um dia o filho comprou uma moto. As brigas aumentaram. Um mês depois o filho morreu num acidente com aquela moto. O pai passou a se culpar. Se culpar porque nunca havia conseguido ter uma conversa pacífica com esse filho de 18 anos. O pai ficou deprimido. A situação piorou. A cada visita a barbearia se esforçava em segurar as lágrimas diante um evidente remorso. Meses depois ele se matou.

De um senhor de mais de 80 anos que falava de seus pelo menos 11 filhos com os quais nunca havia convivido. Contou que um dia um rapaz, um de seus filhos o procurou. O chamou no portão e se identificou. O senhor, frio como sempre fora nem sequer convidou o filho para entrar. E não era por insegurança, ou medo de assalto. Disse que não queria nem saber de contato com os filhos, nunca quis.

De pais viúvos ou divorciados que cuidam dos filhos de maneira especial. São pai e mãe.

Um padrasto tão bondoso que o enteado preferiu ficar com ele em vez de com a mãe biológica após a separação. A mãe era “só biológica”, ele era pai. Por isso nunca gostei do ditado: “Deus é pai não é padrasto”.

De mães que ainda jovens confiaram no namorado e acabaram grávidas. Hoje criam filhos sozinhas. Seus sonhos se tornaram uma cruel realidade. A benção de ter um filho e os desafios de criá-lo sozinha. Alguns nem pagam pensão. Outros jamais visitam os filhos ainda que o possam.

Do pai que se culpa por insistir em um passeio ao qual o filho não queria acompanhar. O filho acabou aceitando e num mergulho ficou paraplégico.

Do homem que tinha vergonha de ir a um urologista para tratar um problema nos testículos até que um dia soube que um dos clientes que aguardavam era urologista. O homem saiu da cadeira do barbeiro, baixou o calção e o exame ocorreu ali mesmo. Visão infernal. Mas por uma boa causa.

As brincadeiras e os foras são inevitáveis. Cheguei a convencer um cliente chegado a uma pinga que ele era um lobisomem. Depois ele perguntava se eu tinha contado para mais alguém.

O dia em que achei que o cliente que atendia fosse um “tanso” por não entender o que eu dizia. É que eu começara a conversa com um cliente que já havia saído e eu mantive a mesma conversa sem notar que já era outro cliente na cadeira.

Há tantas histórias que escrevi livros e há quase 8 anos mantenho crônicas semanais.

Nos últimos anos as crônicas tomaram um rumo diferente. Não são mais apenas histórias de barbearia. Caminhei por uma estrada onde o caminho se mostrou diferente do que imaginava. Passei a escrever, criar, contar, compartilhar e informar. Livros, colunas, crônicas, contos, artigos, programa de rádio com entrevistas e o nome – Na cadeira do barbeiro. Está aí um lugar que deixa as pessoas à vontade. Confiando no barbeiro se compartilha muitas histórias. Barbeiros costumam ter fama de fofoqueiros. Quase de tudo se comenta ali.

Com o tempo peguei o caminho mais próximo de todos nós; nossos sentimentos, ambições, frustrações, desejos, conhecimentos, opiniões, arrependimentos, sonhos e deixei “a cadeira do barbeiro criar asas”.

Da próxima vez que sentar numa cadeira de barbeiro saiba que há ali muitas histórias de vida e a sua pode ser uma delas.

No Portal Instituto Caros Ouvintes Para Pesquisa e Estudo de Mídia há cerca de 200 publicações entre crônicas, artigos e entrevistas.
Em meu blog: http://deivisonnacadeiradobarbeiro.blogspot.com.br/ Também há centenas de publicações.

Um amigo um dia me perguntou se é difícil escrever. Hoje entendo que é um desafio e uma necessidade. Desafios gramaticais e de conteúdo. Necessidade tal como um vício de expressar em crônicas e artigos temas que fazem parte do nosso cotidiano e entendo por relevantes.

A arte da comunicação consiste em primeiramente ouvir, depois falar e escrever.

Tudo isso e mais um pouco acontece bem aqui – Na cadeira do barbeiro!




quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Superativo ou hiperativo?


Desde que comecei a publicar minhas crônicas em 2009 vários personagens reais delas e outros me perguntavam por que eu não contava histórias minhas. Conto sim. Sempre contei.

Relatei minha primeira consulta com um proctologista. E para alegria de alguns e inferno de outros me comprometo a escrever sobre meu exame de próstata que deve ocorrer até o ano que vem.  

Prometo judiar meus leitores com os mais terríveis detalhes. Bom, pelo menos se o médico não for tímido.
O jornalismo tem por obrigação e ética profissional a preocupação de levar a sociedade, as pessoas, notícias e informações que de preferência sejam relevantes.

Acontece que algumas vezes o assunto que vamos abordar é algo que sentimos na pele e talvez por isso mergulhamos mais a fundo. Quem dera sempre fosse assim, independente de sentirmos ou não na pele.

Permitam uma explicação. Não pare de ler, embora pareça confusão, faz parte da explicação.

Amigos me diziam: “Poxa, que cabeça boa você tem, faz tantas coisas ao mesmo tempo”."Como consegue conciliar a barbearia, publicação dos livros, colunas em jornais, blog, crônicas no Caros 

Ouvintes, produzir e apresentar um programa de rádio, cuidar da família, do lado espiritual, com enxaqueca e ansiedade?”. “Coitada da tua esposa, eu não queria ser ela, não deve sobrar tempo”. 

“Sinto até vergonha de falar contigo, não faço nem um terço do que tu fazes e já acho que é demais, te admiro”. Comentários de amigos de diversas áreas.

Procure ouvir uma mente hiperativa: “Tenho que comprar... pagar... escrever... essa ideia parece boa... preparar uma palestra... consertar o carro... ah, a porta do banheiro lá de casa... tenho que ligar para meu próximo entrevistado... elaborar perguntas... preciso visitar novos apoiadores culturais... fazer uma reforma na barbearia e conferir esse novo corte... visitar meus pais... marcar minha consulta... será que vou lançar meu...”.

Num ritmo simplesmente alucinante. Em alta velocidade. É assim que funciona a cabeça, a mente de quem sofre de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade); claro que a relação logo ali em cima é reduzida, multiplique por 10 ou por 50 que não será exagero.

Os dois lobos frontais são as partes do cérebro menos desenvolvidas nos hiperativos.

Substâncias importantes são pouco ou lentamente produzidas em quem tem TDAH.

E note algumas das funções desses dois lobos frontais e das substâncias necessárias: Atenção, tomada de decisões, organização, resolução de problemas, planejamento, consciência e controle de emoções.

Pesquisas mostram que TDAH não é uma “doença”, que se adquire, se trata e se cura.

O TDAH é uma síndrome, um conjunto de fatores.

Já foi dito que pedir para quem sofre de hiperatividade se concentrar ou se organizar é o mesmo que pedir a uma pessoa que sofre de miopia se esforçar em ler sem os óculos.

Sofro de enxaqueca há 30 anos. Dores quase diárias. Lembro que em 1999 fiquei uma semana inteira sem dor. Nem penso mais em cura e não gosto que me mandem matérias sobre o tema, ainda que o façam com boas intenções. Convivo com a dor.

Há dois anos faço tratamento para o transtorno de ansiedade e no início desse ano recebi do meu psiquiatra a notícia, após cautelosa avaliação, de que tenho certo grau de TDAH.

Então aqueles elogios sobre eu ser um cara superativo, ótima memória, grande disposição, ousado, cheio de objetivos, saber conciliar bem meu tempo; veio por água abaixo.

Bom, pelo menos em parte. Toda essa agitação mental que me acompanha desde sempre foi explicada.  Não pode ser usada como desculpas ou justificativas, mas entendi o motivo de mergulhar em tantas coisas ao mesmo tempo. De me dar mal nos estudos, ser reprovado, ter dificuldade em prestar atenção, ser impulsivo, ofender sem perceber, aprender com mais facilidade estudando sozinho e do meu jeito.

Da barbearia fui aos livros de crônicas e depois a um romance. Ao mesmo tempo comecei a escrever as colunas de jornal, crônicas em meu blog, Caros Ouvintes, produzir e apresentar um programa de rádio.
Quando me dei por conta já estava com meu registro profissional de jornalista. Cheguei à comunicação com constantes estudos e práticas e nem penso em pegar um diploma; apenas continuo estudando.

A hiperatividade no adulto é descrita como a dificuldade em ficar parado. Em alguns se manifesta em atividades gerais, trabalhos, esportes e assim por diante. Pensamos em tudo e praticamente ao mesmo tempo. Não concluímos tarefas nem pensamentos. Há um constante engarrafamento de ideias, pensamentos.

Existem atividades estimulantes que podem acarretar prejuízos graves como: abuso de álcool, drogas, busca desenfreada por sexo, compulsão alimentar, dirigir em alta velocidade, atividades de risco, mergulhar no trabalho e outras igualmente perigosas.

Necessidade de troca de estímulos: troca incessante de emprego, términos abruptos de relacionamentos e não terminar cursos.

Para quem descobre o TDAH tardiamente, ou seja, na fase adulta, é também recomendado procurar terapia: Cognitivo comportamental para ajudar a desfazer crenças que já se instalaram em seu sistema de crenças; quanto a suas habilidades e capacidades.

Ser ativo é bom. Superativo talvez até seja, dependendo das circunstâncias. Ter TDAH, ou hiperatividade nunca é bom. O hiperativo sofre e inclui no seu sofrimento sem perceber as pessoas mais próximas.

Se notar seu filho (a) com mais de 6 anos com características hiperativas faça uma avaliação psiquiátrica. Se for adolescente não perca tempo. E se for adulto pode parecer tarde, mas há uma luz no fim do túnel. Descobrimos o porquê de muitas de nossas dificuldades. Iniciamos um tratamento e vamos levando a vida. Não existe multa para uma mente em alta velocidade, mas pagamos um preço alto por isso. Trabalho, relacionamentos amorosos, família, estudos, amizades podem ser comprometidos.

Buscar a opinião de um bom profissional da saúde, apoio da família e a decisão de fazer a nossa parte é essencial.

A mesma angustia que nos atormenta produz ideias e projetos que poderiam ser melhor planejados e executados se não tivéssemos essa dificuldade imposta pela hiperatividade. Levei tempo para admitir, pois mesmo já em tratamento tentava me convencer que deve ser frescura, coisa da minha cabeça.

Ajuda profissional é indispensável. Se for pesquisar escolha fontes confiáveis.

Ainda sonho um dia “aterrissar”. Imagino como deve ser assistir a um filme, ouvir uma música, admirar uma paisagem sem ser atropelado por inúmeros pensamentos, ideias e projetos.

E se um dia isso acontecer e eu não for atropelado pelos pensamentos em velocidade alucinante talvez passe a escrever sobre essa nova sensação. Ou seja, por mais que creia no tratamento até nesse momento de paz abriria caminho para soltar a imaginação e escrever sobre isso.


Caso contrario é porque eu estaria realmente curado. Curado de quê?

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Bicão com classe


Por vezes os amigos Marcelo e Tomaz não eram convidados para festas de colegas do bairro. 

Enquanto Tomaz reclamava por não ser convidado, Marcelo não perdia tempo, muito menos uma festa, com ou sem convite.

 Marcelo chegava rindo como se fosse um convidado de honra. Tomaz já entrava no local da festa com o rosto vermelho e trêmulo com a possibilidade de serem expulsos e assim humilhados em público. Tomaz sempre se impressionava com a ousadia de Marcelo. O bicão entrava no salão ou na casa onde acontecia a festa, cumprimentava as pessoas, comia, bebia, ria e dançava. Tomaz não aproveitava nada, só imaginava o dia em que alguém notasse que eram bicões e os expulsassem.

Num belo dia de sábado foram passear na cidade de Antônio Carlos. Ao final da tarde notaram uma grande movimentação e Marcelo logo tratou de se informar. Era um casamento. E a pessoa que falou fez questão dizer que seria um baita casamento, um festão. Pudera. Casamento estilo interior, com direito a incluir um boi, porcos, frangos e muita bebida, além de música; bota festa nisso, afirmou Marcelo.

Tomaz segurou Marcelo pelo braço e tentou convencê-lo de que não era boa ideia. Que embora fosse festa grande e com muitos convidados era uma cidade onde todos se conheciam, não daria certo, não ali. Marcelo argumenta que não seria a primeira e nem a última, e que tudo daria certo como sempre.

Eles foram entrando e ficaram impressionados. Havia carne de boi, de porco, frango, maionese, polenta, palmito, cerveja, refrigerante e muito mais. A festa era animada por uma banda que fazia o mais tímido sentir-se um verdadeiro pé de valsa.

Os dois amigos se acomodaram com facilidade, parecia até que aquela mesa estava reservada para eles. A comida e bebida liberada faziam Marcelo comer sorrindo. Tomaz estava começando a entrar no clima quando nota os noivos se aproximando de cada mesa para cumprimentar os convidados.

Ele diz em voz baixa, mas com tom de pavor:

- Meu Deus, Marcelo. Olha lá. Os noivos vão chegar a nossa mesa, o que vamos fazer?

Marcelo, que estava quase terminando o segundo prato, disse:

- Fica calmo, rapaz. Comeu bem?

- Eu ia começar, mas e os noivos? Meu Deus, que vergonha.

- Fica frio, Tomaz. Talvez até passem direto.

Quando Marcelo passa a mão sobre a barriga satisfeita de comida e cerveja o noivo chega sozinho a mesa dos amigos penetras. Tomaz se levanta apavorado. Marcelo passa lentamente o guardanapo na boca e levanta com impressionante calma.

O noivo, com muita calma e educação, aproxima-se dos dois e diz:

- Prestem atenção. Essa é uma festa de casamento, do meu casamento. Aqui há familiares e muitos amigos, mas todos convidados. Não me parece ser o caso de vocês.

Tomaz sente vontade de sair correndo, mas teme desmaiar. Sabia que um dia isso aconteceria e havia chegado o dia.

O noivo diz gentilmente:

- Se já terminaram de jantar, por favor, saiam numa boa, sem problemas.

Vários convidados olham curiosamente, mas não ouvem o que o noivo diz.

Marcelo faz questão de sair com classe da situação e diz em voz alta para que os convidados ouçam:

- Foi uma grande honra estar nesta festa. Tudo está muito lindo e o jantar maravilhoso. Veja as expressões dos convidados. Peço perdão, mas meu amigo e eu precisamos ir, não vamos nem poder esperar pelo bolo. Desejo felicidade a esse lindo casal. Sinto muito, mas realmente precisamos ir. Boa noite!

Quando se aproximam da porta um dos garçons diz:

- Pena que tenham que sair tão cedo. Ouvi suas palavras. São os convidados que demonstraram mais classe até agora. Faço questão que levem alguns doces e um bom pedaço de carne!

Tomaz, tomado de uma confusão mental, vergonha e vontade de matar Marcelo, diz:

- Você ouviu o que o noivo disse? Viu o que aconteceu?

Marcelo responde ao amigo com entusiasmo:


- Sim. O noivo foi extremamente educado e discreto. O garçom muito gentil. Gosto de festas assim. Quanta classe, hein! 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Arte e epifania


Que filme, música, peça de teatro ou notícia te fez sentir mais leve, mais humano, mais solidário ou sensível?

Que situação te fez repensar a maneira de encarar a vida, as pessoas e seus próprios objetivos na vida?

Em que momento pensou que poderia ser mais tolerante, aceitar, perdoar ou que deveria ter perdoado ou agido de maneira diferente?

A palavra epifania está diretamente ligada à religião (revelação), mas também tem uma aplicação e explicação na literatura.

Quando nos deparamos com uma cena de filme, peça teatral, uma leitura ou música e esta nos faz rever nossa vida e conceitos produzindo em nós um estranhamento; isto é epifânico.

Talvez um problema desse sentimento especial seja a sua durabilidade.

Acontecimentos que nos impressionam como as Paralimpíadas nos levam a refletir e a fazer mudanças, mas podem ser efêmeros ou passageiros.

Alguns breves exemplos de fatos e notícias que talvez causaram forte impacto: Quem de nós ficou surpreso e emotivo com a trágica morte de Ayrton Senna? Foi no dia 1 de maio de 1994. Isso faz 22 anos e até hoje lembramos. Mas o que realmente mudou em nossa vida pessoal?

A tragédia com o ator Gerson Brenner, vítima de bandidos que o balearam e o deixaram numa cadeira de rodas em 1998. O acidente com o ator Christopher Reeve, o super homem. Vítima de uma queda de cavalo em 1995 ficou tetraplégico e faleceu em 2004 aos 52 anos.

O ataque às torres gêmeas, World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 deixou o mundo perplexo. Que diferença faz hoje?

Mais recentemente tivemos a trágica morte do ator Domingos Montagner.

Quantos comentários. Quanto lamento. Quantas reflexões. Haverá mudanças em nossa vida?

O último filme que assisti e me causou a epifania foi – Tempo de Despertar – de 1990 com Robert De Niro e Robin Williams.

É verdade que devido a gostos e sentimentos pessoais não nos emocionamos de igual maneira e nem com as mesmas cenas de filmes ou livros.

Falar ou lembrar tragédias com certeza não é produtivo ou animador.

Bom seria tirarmos lições práticas dessas cenas e acontecimentos.

Quando estava prestes a começar esta crônica perguntei a uma senhora qual foi seu momento “de epifania”. Ela disse que foi o infarto que sofreu. Fez mudanças na vida, na maneira de encarar a vida e viver a vida.

Algo muito bom é saber que não precisamos passar por uma tragédia para valorizar a vida e as pessoas a nossa volta.

Lamentar a morte de alguém famoso é normal. Mas e aqueles nossos vizinhos, ex vizinhos e parentes que sofreram ou sofrem dificuldades e não recebem a mesma atenção de um famoso?

Lembrei uma expressão interessante: “Se alguém é apenas ouvinte... é semelhante a um homem que olha seu rosto num espelho... vai embora e esquece como ele é”. Bíblia. Tiago 1:23,24. Notarmos que há campo para melhora e não dar bola é lamentável.

Uma música também me vem à mente: “Quem sabe faz a hora não espera acontecer...”.

Existe algo de proveitoso no processo de epifania na literatura: Deixar a emoção de momentos fazer a diferença. Olhar mais a natureza a nossa volta. Meditar na maravilhosa criação. Demonstrar mais e melhor nosso amor e sentimentos enquanto há tempo. Perdoar enquanto quem espera por isso ainda pode ouvir; os mortos não ouvem.

Literatura é comunicar através das palavras, a arte da palavra. Efeitos como percepção e emoções são compartilhados.

Se algo mudará ou não depois de certas cenas emocionantes dependerá de nós.

Caso contrário vamos continuar nos emocionando com as Paralimpíadas, lindas cenas de filmes e ótimos livros, mas vamos nos levantar e continuar naquela mesma “estrada” cheia de sentimentalismo e sem reação positiva!


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Um modo de falar


Antônio sempre gostou de conversar, de contar histórias, falar do seu dia-a-dia. Um homem simples e ingênuo no seu vocabulário.

Getúlio, um de seus filhos, também gosta de uma boa conversa. E quando se trata de falar pai e filho tem algo peculiar.

Enquanto Getúlio caminha pelo mundo das gírias, o pai, Antônio, tem o hábito de tornar suas palavras e frases engraçadas e desajeitadas. Há pessoas que respeitam, outros debocham, mas a ingenuidade de Antônio nunca lhe permite notar nem uma coisa nem outra.

Getúlio chega ao trabalho e encontra o amigo Osvaldo que acabara de perder a mãe. Ele diz:

- Po bicho, saí do trampo e cheguei na baia pra rangar e minha coroa disse que a tua velha tinha batido as botas. Fiquei de cara meu.

Osvaldo completa:

- Pior que é cara.

Antônio sai do trabalho e monta em sua bicicleta. Ele começa a pedalar e logo pega muita velocidade. 

Minutos depois aparece na barbearia do Valmir todo machucado e com a bike toda torta.

Ele diz ao amigo barbeiro:

- O Valmir, tu não vai acreditar. Eu não vinha correndo com a minha bicicleta, não escorreguei no areão aqui na frente, não caí e não me ralei todo, e ainda não quebrei minha bicicleta.

Valmir, muito debochado, diz a Antônio:

- Que bom rapaz. Que bom que não vou acreditar. Que bom que você não vinha correndo, que não escorregou no areão aqui na frente, que não caiu. Não se ralou e não quebrou a bicicleta.

Antônio em toda sua inocência tenta explicar ao barbeiro:

- Não. Tu não entendeu Valmir. Aconteceu tudo que tu falou, só que ao contrário.

Enquanto Antônio toma um copo de água na barbearia comenta a morte da mãe do Osvaldo.

- Coitadinha da dona Flora, mãe do Osvaldo. Quando acordou estava morta.

O barbeiro Valmir, sempre debochando, diz a Antônio:

- Acordou morta, Antônio?

- É isso mesmo, Valmir. Já pensou que loucura, que susto. Acordar e vê que ta morto?

 Antônio continua sua narrativa sobre a morte da mãe de Osvaldo:

- A pobrezinha morreu na sexta-feira e se enterrou no sábado.

Novamente o barbeiro com seu sarcasmo provoca Antônio sem que ele perceba:

- Poxa, ela se enterrou? Não havia ninguém para enterrá-la?

Antônio responde:

- Agora tu me pegou, rapaz. Foi o que ouvi. Mas parece tinha bastante gente no enterro.

O barbeiro pergunta a Antônio:

- Estás morando aqui perto?

- To sim. Não tem essa rua que asfaltaram agora. Não tem o posto de saúde. Não tem um mercadinho ali na esquina. Então, eu moro do lado.

O barbeiro termina de atender um cliente e diz a Antônio:

- E aí Antônio, vai cortar o teu cabelo?

Antônio sem perceber dá a resposta que Valmir não imaginava:


- Eu não sei cortar cabelo, Valmir. Ainda que do teu jeito prefiro que tu corte pra mim!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Contra a vida?


Se já passou pela sua cabeça em algum momento da sua vida acabar com tudo, colocar um “ponto final”, ou de maneira mais clara, se já pensou alguma vez em cometer suicídio saiba que 17% das pessoas no Brasil já pensaram em fazer isso.

Desesperança, desilusão, impulsividade, sentir-se um fracasso ou um peso para outras pessoas, além de doenças como a depressão, bipolaridade, alcoolismo e outras drogas têm sido marcadas pela a OMS (Organização Mundial da Saúde) como a causa de mais de 800 mil suicídios em todo o mundo e quase 12 mil só no Brasil em 2012.

 Alarmante: A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio em todo o mundo. No Brasil são mais de 10.000 casos por ano, ou 30 por dia. Hoje, em todo o mundo, são mais de um milhão de suicídios por ano.

Entre os jovens de 15 a 29 anos já é a terceira principal causa de mortes.

Falar ou não falar sobre o suicídio, eis uma importante questão.

De um lado a imprensa e muitos profissionais da saúde que na melhor das intenções creem que expor ou divulgar casos de suicídio servirá de incentivo a pessoas propensas a isso.

De outro lado alguns da imprensa e da área da saúde acreditam que “abafar” o assunto só faz piorar a situação.

Uma coisa é certa, os números não mentem, ao contrário, assustam.

Sempre defendi a divulgação do suicídio como meio de “abrir nossa mente” e do poder público para combater o suicídio. Confesso, porém, que meses atrás senti na pele certa dificuldade. Quando vi o sofrimento de familiares de um grande amigo que possivelmente cometeu suicídio cheguei a rever, ainda que momentaneamente meus conceitos sobre o assunto. Acreditei que se a notícia fosse abertamente divulgada como suicídio (ainda que no caso em questão haja poucas dúvidas), a família sofreria mais, talvez se sentindo culpada.

Mais devastador do que a notícia da morte de um ente querido é saber que ele tirou a própria vida.

Para cada suicídio pelo menos outras seis pessoas são afetadas diretamente. São familiares ou amigos íntimos que têm sua dor da perda aumentada com o sentimento de: Como não percebemos? Por que não fizemos nada? Se tivesse prestado atenção aos sinais... Quem sabe ele estaria aqui.

O Dr. João Paulo de Oliveira Branco Martins – Médico Psiquiatra Titular da Associação Catarinense de Psiquiatria: CRM SC/18062 RQE 12342 – colaborou de maneira especial com dados e informações para esse artigo.

Estima-se que 50% dos que cometeram suicídio já haviam sem êxito tentado tirar a vida.

As informações enviadas pelo médico psiquiatra: João Paulo Branco Martins nos lembra de outros fatores importantes.

O suicídio por mais que possa ser planejado é transitório, podendo durar de minutos ou horas.

O investimento na capacitação dos profissionais da saúde, que embora não possam prever o suicídio, poderia torná-los capazes de discernir sinais e regiões onde há maior propensão.

Sabendo que hoje já são mais de um milhão de suicídios em todo o mundo, e que pesquisas apontam que até 2020 esse número pode aumentar em até 50%, podemos nos concentrar no Brasil.

Nosso país é o 8º no número de suicídios. Todos os anos, 10.000 casos. Na média, 30 por dia.

A terceira maior causa de morte entre os jovens. Se notou que já havia lido esses dados nesse artigo/crônica não é mera coincidência. É duro, mas é verdade, é fato. Enforcado, com um tiro, com abuso de medicações e de outras formas. Milhares de pessoas podem ser ajudadas. Milhares de famílias poderiam não estar sofrendo. Quem sabe outras possam não ter esse trauma. 

Noticias locais: Moça cai da ponte... Um homem é tragicamente atropelado por um caminhão... 
Médico conceituado é encontrado morto em seu apartamento.

Quando é um famoso como o ator Robin Williams a noticia é direta.

O drama do tabu e da religião. Durante muito tempo e talvez até hoje o suicídio seja encarado como um dos piores pecados, senão o pior.

Para refletir: Religiosos bem intencionados pregam ou evangelizam em penitenciárias. Dizem a assassinos que se eles se arrependerem Deus perdoa. Não duvido disso. Mas se um assassino, alguém que de livre e espontânea vontade, por ambição, tirou a vida de uma ou mais pessoas tem direito ao perdão; por que não alguém que tirou a própria vida? Por acaso alguém se mata porque está numa boa e acha que já é hora de morrer? Só Deus para saber o que passa pela mente de um suicida.

E ademais. Imagine uma família sofrendo com a morte de um ente querido. A dor aumentada por saber que foi suicídio. Então chega alguém e diz que é um pecado sem direito a perdão.

O silêncio pode ser mais consolador do que muitas palavras.

No mês de setembro há uma mobilização ao combate ao suicídio. Mas o suicídio continua ocorrendo nesse e nos outros 11 meses, em cada dia, em cada família e em cada mente que sofre os horrores das doenças psíquicas que levam a esse pensamento e ação.

Guerras, violência, acidentes, catástrofes naturais, doenças tiram a vida de muitas pessoas todos os anos. Quantas poderiam ser evitadas? Quantas dessas vítimas merecem um julgamento?

Solidariedade e empatia com as famílias que sofrem com o suicídio. Atenção com aqueles que de alguma maneira demonstram o desejo de tirar a própria vida. Não é o caso de pegá-los pela mão e lhes mostrar pessoas que ao nosso olhar sofrem mais.

Muitos pensam assim: “Há tantas crianças e outras pessoas sofrendo tanto e nem por isso pensam em tirar a vida”. Como se esse argumento fosse ajudar alguém com pensamento suicida. Isso é diminuir ou desvalorizar sua dor.

Se perceber um amigo ou familiar com essa possibilidade precisamos o orientar a procurar ajuda profissional. Ajuda de um qualificado profissional da saúde.

A matéria enviada pelo médico psiquiatra, João Paulo Branco Martins nos lembra: “Erros e preconceitos vêm sendo historicamente repetidos, contribuindo para a formação de um estigma em torno da doença mental e do comportamento do suicida. O estigma resulta de um processo em que as pessoas são levadas a se sentirem envergonhadas, excluídas e discriminadas”.

Não cabe a nós julgar quem atenta contra a própria vida, em vez disso podemos trabalhar nossos conhecimentos através da compreensão e empatia.


Eis os desafios: Falar sobre o assunto e saber o que falar!

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As memórias de um jornalista


Bruno sempre fora elogiado por sua boa memória, muito embora ela falhasse em assuntos recentes. 

Uma boa memória é importante em especial para um jornalista em meio a inúmeras matérias e trabalhos.

Certo dia, Bruno recebeu sua pauta e achou mais do que interessante. Deveria viajar até Porto União em Santa Catarina para entrevistar um velho índio. O chefe de Bruno explicou que escolheram aquela pauta devido a temas sobre: Boa memória, e aquele índio, segundo o que se dizia, tinha uma memória incrível.

Bruno entra em seu fusca e viaja até Porto União. Assim que estaciona o carro passa a apreciar a bela cidadezinha com ar de interior e a costumeira calmaria.

Depois de caminhar alguns minutos pergunta a um homem na praça se conhece certo índio de boa memória. Para sua surpresa e facilidade o homem aponta para um índio sentado em um pequeno banco de pedra. Bruno leva a mão até o bolso da camisa com a intenção de pegar o bloco de anotações. Nota que havia o esquecido no carro. Assim que volta e abre o fusca vê o bloco no banco do carona e também seu gravador, do qual havia esquecido as pilhas novas no jornal.

Com o bloco nas mãos ele se aproxima do índio e começa a avalia-lo. Parece ter uns cinquenta e poucos anos, pele e aparência facial de um índio que vivia sem os cuidados da cidade, mas com a força e semblante de paz de quem vive exclusivamente em meio à natureza.

O jornalista atencioso abre seu bloco de notas e inicia breves lembretes sobre aquela situação.

Coloca a data: 25 de maio de 1985. Ele chega perto do índio, apresenta-se e pergunta sem avisar o motivo principal da entrevista; queria começar a matéria de maneira especial e testar a tal boa memória do índio. Bruno pergunta:

- O que o senhor comeu na manhã de 07 de junho de 1950?

- Ovos!

A resposta rápida, sem nem sequer um instante para pensar, ou um olhar para o alto a fim de buscar suas memórias. Simplesmente incrível. A conversa seguiu e surpreendeu muito a Bruno.

A matéria publicada no jornal em qual trabalhava no dia 28 de maio de 1985 fora muito elogiada.

O tempo passou rápido. Bruno já estava aposentado, mas continuava trabalhando. Aos 62 anos de idade nem pensava em deixar o jornalismo.

Em suas férias no mês de maio de 2015 ele viaja com esposa com a intenção de conhecer novos lugares, outras cidades. Chegam a Porto União, perto da divisa com o Paraná. Começa a caminhar com a esposa, Aline. Ela vê certa loja de artesanatos e diz ao marido que vai olhar mais de perto aquelas belas obras. Bruno sente algo estranho e diz à esposa que quer seguir em frente em sua caminhada. Explica que tem uma estranha sensação. Era como se já tivesse passado por essa cidade, mas não tem certeza de quando e por quê.

Ele pensa: Será que era uma namorada? Vim comprar um carro? Quem sabe alguma festa? Ou talvez alguma matéria para o jornal, mas sobre o quê?

De repente, ele olha adiante e vê sentado na praça, num pequeno banco de pedra, um velho índio. 

Agora as coisas começavam a fazer sentido. O velho índio, a praça, seu fusca; um índio com uma incrível memória. Devia fazer pelo menos 30 anos que estivera ali. Ele caminha lentamente em direção ao velho índio enquanto retornam seus pensamentos, sua lembranças, suas memórias.

Fica surpreso em ver o índio ainda vivo. Perplexo caminha em direção ao senhor. E dessa vez de férias, sem blocos de notas e sem os modernos aparelhos de comunicação. Bruno se abaixa em frente ao índio velho e pergunta ainda um tanto confuso:

- Mas como?

O índio velho, sem pensar, sem titubear, sem recorrer a olhar para cima em busca de respostas diz a Bruno imediatamente:


- Fritos!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ausente ao funeral


Para quem fala do assunto com tranquilidade não sentirá receio na sequência dessa crônica.

Já os mais receosos talvez digam: “Tá é louco, que assunto hein”.

Escrevi uma crônica há mais de um ano com o tema – Deitado, nem morto; baseada num costume em certa cidade americana onde a Lei municipal permite a família, respeitando o desejo do finado de ser velado fora do caixão. Vale numa rede ou cadeira de balanço, numa moto Harley- Davidson, na cadeira a beira da mesa com uma lata de cerveja à frente, enfim, o que a pessoa mais gostava de fazer em vida. Ah, vale ressaltar que a Lei proíbe em posições imorais.

Como o assunto é morte e a necessidade de doação de órgãos é grande chegamos ao tema – Ausente ao funeral.

Particularmente nunca gostei da ideia de ser colocado num caixão, nem vivo e nem morto. Também não digo que teria o desejo de ser velado fazendo o que gosto; com tesoura e navalha nas mãos, com o computador sobre as minhas pernas como costumo escrever ou próximo a um microfone realizando uma entrevista ou apresentando um programa de rádio.

Por anos deixei minha família avisada de que sou doador de órgãos, mas tive outra ideia.

Que tal ir para a faculdade ou a universidade assim que encerrar a carreira de barbeiro e jornalista? 

Uma vaga garantida na UFSC, e saber que poderei ser útil à medicina, a ciência.

 E melhor de tudo; escapar do caixão, flores e a sogra rezando ao meu lado. E tem mais, sem trabalho para a família arrumar lugar para deixar essa beleza de corpo ou mesmo os gastos com a bendita cremação.

Assim que estiver com tudo decidido vou avisar a família e aos amigos que não se assustem se chegarem ao meu funeral e não virem a tal urna, não a eletrônica ou a eleitoral, o famoso paletó de madeira, flores e toda estrutura em volta.

Estou pensando seriamente em entrar para a universidade. Por que parar de trabalhar depois de morrer? Trabalho sem esforço, sem levantar cedo em dias frios, livre da labuta nos dias quentes de verão. E continuar a fazer algo de útil, ainda que não veja e nem sinta. Cardiologistas, neurologistas, urologistas, proctologistas; nem esses dois últimos causarão calafrios.

Quando alguém lembrar e perguntar por mim, dirão: Está na universidade. Grande colaborador de professores e alunos de medicina. Quem sabe esse corpo venha a ajudar na descoberta de mais curas, melhores tratamentos.

O tema pode parecer um tanto indigesto. Pode parecer ironia com coisas sérias, mas jornalismo é assim; fazer pensar, levantar temas e assuntos.

Fui bem atendido por telefone e informado que a pessoa interessada pode ir até a universidade e preencher um documento, e claro, avisar a família, ela terá plenos poderes quando nós não mais tivermos.

Pode-se velar a pessoa e depois enviar o corpo. Ou pode-se enviar o corpo pra lá assim que se confirmar o óbito. Corpo inteiro, com todos os órgãos.

 Nesse caso vejo vantagens. Sem caixão e sem despesas. Sem um velório de horas e horas. Talvez e dependendo das crenças um discurso fúnebre. Pediria a um amigo que dissesse algo sobre a minha pessoa, sobre o que creio e minhas convicções espirituais.

Pessoas rindo e falando das minhas gafes, que não são poucas. Quem sabe alguém chorando nem que seja para fazer um grau. Boas músicas. Não estarei ouvindo, mas deverá ser legal.

Aqui entre nós, se discutem tantas bobagens. A vida alheia, por exemplo. Temas exaustivos não faltam na mídia. Será que isso não é importante? Cabe a cada um responder e decidir, mas é fato que queremos e precisamos do avanço da ciência e medicina.

Então, se eu estiver ausente no dia do meu funeral (do qual não tenho pressa), não pense que estou atrasado, que estou no trânsito, ou que me esqueci; talvez tenha mudado de hábito e profissão.

Ainda não está definido, mas possivelmente partirei da barbearia e do jornalismo para a medicina, pelo menos como colaborador.

E admito, gostaria muito de escapar no meu funeral!